Estamos na semana mais crucial da história desse país desde sua redemocratização. Às vésperas das eleições, poucas coisas conseguem ganhar visibilidade nas redes, nos assuntos de bar, nos grupos de whatsapp que não seja as eleições do próximo domingo. E se tem uma coisa que temos observado é como o país ficou polarizado, dividido entre isto ou aquilo – uma divisão de opinião que tem escalonado a níveis violentos, a discursos de ódio puro. Mas nem sempre foi assim, algo causou essa onda obsessiva alimentada pela raiva. O motivo por trás de tudo isso pode ser visto em ‘O Outro Lado das Redes’, thriller que chega a partir dessa quinta-feira nos cinemas brasileiros e que precisa ser assistido antes de domingo – se é que vocês me entendem.

Frances (Mikey Madison, vencedora do Oscar de Melhor Atriz por ‘Anora’) trabalha num departamento criado recentemente no Facebook cujo objetivo é meio que monitorar as boas práticas e os dados compartilhados pelos usuários na plataforma. Ela gosta do seu trabalho e acredita nele, mas, um dia, se depara com um vídeo que a faz mudar a forma do seu pensar: nele vemos uma mulher adulta, branca, confrontando policiais e alegando estar sendo agredida por eles. Frances conhece essa mulher e não acredita no que ela se tornou. A partir daí, Frances começa sua própria investigação e, ao entender como o Facebook manipula os dados para estimular os sentimentos de ódio e de segregação, ela entende que chegara ao seu limite, e decide procurar o jornalista investigativo Jeff (Jeremy Allen White, da série ‘O Urso’) para que ele publique sua denúncia no jornal Wall Street Journal. O que nenhum dos dois podia imaginar é que essa denúncia seria apenas a ponta de um lado muito pior das redes sociais e de Mark Zuckerberg (Jeremy Strong, da série ‘Sucession‘).
‘O Outro Lado das Redes’ é baseado em eventos reais, cujos desdobramentos seguem em andamento tanto na corte dos Estados Unidos quanto em nossas vidas.
Escrito e dirigido por Aaron Sorkin (que roteirizou ótimos filmes como ‘Os 7 de Chicago’ e ‘A Grande Jogada’), ‘O Outro Lado das Redes’ tem um ritmo de thriller que prende nossa atenção do início ao fim. As uma hora e cinquenta e dois de filme focam poucas diante do absurdo dos fatos e de como a história vai se desenvolvendo. No fim, fica a vontade de ver como a coisa toda está hoje – mas não precisamos, é só olhar ao redor nas ruas.

No filme, o espectador é convidado a ver uma situação que escalona de uma forma muito rápida – uma mulher é abordada por dois policiais, que pedem seus documentos e, a partir daí, ela, com toda sua arrogância, desqualifica os policiais por alegar que a abordagem fere seus direitos individuais. Situações semelhantes são vistas a torto e a direito no mundo inteiro. E ‘O Outro Lado das Redes’ joga luz sobre o porquê: por que uma situação como esta, anteriormente tão comum, hoje em dia escalona em níveis de raiva e até mesmo em ódio? O que o filme, baseado nas denúncias feitas ao Wall Street Journal, aponta como resposta é: o Facebook. Mais ainda: que toda a estrutura do Meta (Facebook, Whatsapp, Instagram e Threads) propositalmente alterou seus algoritmos para entregar como conteúdo sugestivo todo tipo de postagem (fotos, vídeos, grupos) que alimentavam o sentimento que mais engaja na internet: o ódio. E vem fazendo isso há anos. E assim, chegamos ao ponto que estamos hoje no mundo, com pouca conversa e muita raiva para todos os lados.
‘O Outro Lado das Redes’ é o filme mais urgente para ser assistido antes de domingo, pois leva ao pensamento crítico de como estamos tendo nossas emoções manipuladas pela maior rede social do mundo, que o faz deliberadamente tão somente para lucrar. Porque o ódio, mais do que o amor, gera engajamento, reposts, compartilhamentos, e é isso que importa.



