Em 2015, um dos personagens mais curiosos dos filmes de super-heróis chegou ao Universo Cinematográfico Marvel: o Visão. Interpretado por Paul Bettany, que já rondava o MCU desde o primeiro Homem de Ferro, em que dava voz à IA J.A.R.V.I.S., o personagem foi concebido com um caráter mais filosófico. Nascido como o primeiro filho da nova espécie dominante da Terra de Ultron, o sintozóide foi moldado com base em quatro diferentes tipos de inteligência: a do próprio Ultron, a de Tony Stark, a de J.A.R.V.I.S e a da própria Joia da Mente. Em meio a essa mistura cognitiva, o robozão já nasceu questionando sua própria existência.
E tudo indicava que esse seria o caminho dele no MCU. Essa pegada mais shakespeariana de um personagem que busca quem entender quem é, enquanto se vê incumbido de uma missão moral, parecia ser o grande diferencial do robô, que era capaz de erguer o Mjölnir. Porém, com a ascensão dos Irmãos Russo, o Visão perdeu praticamente todo o seu caráter filosófico e passou a ser um coadjuvante insosso. Por isso, quando Jac Schaeffer trouxe o personagem de volta em WandaVision (2021), ele voltou a ser interessante. Ela resgatou os dilemas morais de um personagem que sempre foi questionador e sempre esteve no centro da polêmica.

Agora, cinco anos depois da fuga do Visão Branco de Westview, o personagem volta à cena para desenvolver sua jornada em VisionQuest. Em sua primeira produção solo, o robozão favorito da Marvel embarca em uma jornada de autoconhecimento, em busca de uma questão cada vez mais importante na sociedade: a procura pela identidade. Em um mundo cada vez mais globalizado e unido pelas redes sociais e pela internet em si, entender exatamente quem você é fica cada dia mais difícil. Isso porque existe muita exposição, muita pressão externa e uma eterna sensação de competição. Nesse cenário, é fácil se perder e se afastar de quem você realmente é. Por isso, esses primeiros episódios da série são tão animadores.
Em vez de focar em sequências de ação mirabolantes – que também estão presentes, sejamos justos, mas não são o foco da produção –, a série coloca como cenário principal a própria consciência do protagonista. Tomado pelo questionamento de cinco anos atrás, em que o novo corpo busca compreender o que e quem ele é, o Visão trata aquele personagem que o público conheceu há mais de uma década como passado. Não só porque ele esteve em constante transformação, num sentido figurado, mas porque ele realmente morreu em cena. Essa história, se for trabalhada de forma coesa, pode realmente culminar na melhor série da Marvel desde o início dessa empreitada no streaming.

A série mostra o Visão sendo caçado pelo anti-herói conhecido como Paladino, após anos no anonimato. Paralelamente a isso, um “fantasma de um passado ilusório” ressurge para brincar com os questionamentos morais do protagonista. Com base nessa trinca, a produção começa a explorar esses conceitos filosóficos de existência e definição de indivíduo, partindo justamente de um robô. É atual e muito curioso ver essa busca de uma Inteligência Artificial atrás de sua verdadeira identidade, porque essa talvez seja a atitude mais humana possível. E num tempo de debate sobre as IA’s, utilizá-las em cena como definição de humanidade é um passo corajoso. É promissor.
Se Ultron foi concebido numa analogia com a história de Pinóquio, agora é o Visão quem acaba levando isso a sério. Em sua jornada para virar um “menino de verdade”, o protagonista reúne seus ‘Grilos Falantes’ para buscar sua verdadeira essência, enquanto garimpa as memórias de uma vida passada que ele sequer compreende se são ele ou não. Por isso, quando a chegada de um filho, igualmente confuso, gerado em meio ao caos chega para assombrá-lo, ele não faz a menor ideia do que deve sentir. Compaixão? Saudade? Amor? Pena? Empatia? É uma confusão de sentimentos que aparece em meio a um personagem extremamente confuso.

Sendo o filho da tecnologia com a magia, o Visão deve ter capítulos ainda mais complexos nessas próximas semanas. Mas é diante de mistérios como “quem é o Visão?”, “quem contratou o Paladino?” e “o que aconteceu com o Tommy?” que a série começa a construir essa jornada insana pela busca da identidade de um personagem supostamente já conhecido do público.
A ver como serão os próximos episódios, mas que a série começa promissora… Isso é inegável.



