Anunciado sob grandes dúvidas dos fãs, Cara-de-Barro veio como um dos projetos mais ousados do DCU de James Gunn. A ideia de fazer um filme de terror, com alta classificação indicativa, no universo cinematográfico que tem como principal símbolo o Superman, foi arriscada. Mas, quem for aos cinemas a partir desta quinta-feira (22) vai poder conferir uma das melhores obras não apenas desse universo, mas também do gênero de adaptações de quadrinhos dos últimos tempos.
A trama acompanha a desventura de Matt Hagen (Tom Rhys Harries), um ator em ascensão que se envolve com a namorada de um dos chefões do crime de Gotham City. Como punição, ele manda seus capangas desfigurarem o rosto do rapaz e inicia uma campanha de difamação na mídia. Então, a fase da carreira pela qual ele sempre lutou vai por água abaixo em uma noite. Disposto a recuperar seu rosto, o ator se candidata a um tratamento experimental com nanobots, que se mostra eficaz inicialmente, mas logo começa a apresentar sequelas que permitem a Matt mudar sua aparência. Com sua nova habilidade, o ator passa a perseguir aqueles que arruinaram sua vida, enquanto tenta entender o que ele é exatamente neste momento.

Escrito por Mike Flanagan (A Maldição da Residência Hill) e dirigido por James Watkins (Não Fale o Mal), o filme consegue misturar a ação dos filmes de super-heróis com a angústia e as cenas gráficas dos filmes de terror. Existem momentos assustadoramente explícitos que criam uma incômoda sensação de angústia, daquelas que fazem o público se contorcer na cadeira. Da mesma forma, o uso dos novos poderes do vilão te envolve de uma forma que você não sabe se torce por ele ou se torce para que alguém desça a porrada nele. Mérito desse combinado de roteiro bem escrito, direção no ponto e uma atuação deliciosa de Tom Rhys Harries, que imprime charme a Matt quando é necessário, mas também consegue trabalhar seus dilemas morais em sua jornada rumo a vilania. Porque, sim, esse é um filme de origem de vilão. Não é um herói incompreendido, não é um anti-herói. Ele é um vilão. Também há um grande trabalho de maquiagem e próteses que merece muito reconhecimento.
É interessante ver como o time criativo trouxe sua bagagem no terror para construir um filme que consegue assustar sem apelar para jumpscares, e envolver o espectador na mente deturpada do protagonista. De certa forma, a condição a que Matt se submete remonta ao Doutor Octopus de Alfred Molina, no clássico Homem-Aranha 2 (2004), porque ele é apresentado inicialmente como uma boa pessoa. Você simpatiza com ele e celebra suas vitórias, o que acaba dando ainda mais peso para sua queda. Com o desenrolar da trama, Matt começa a tomar decisões questionáveis, seja por desespero ou por falta de controle, mas aí que entra o talento do ator. Em momento algum você vê o personagem “aliviado” ou em paz. Ele está sempre atormentado, porque tudo que queria era voltar a ser ele mesmo. No entanto, suas ações acabam revelando um monstro, e não falo somente pela aparência.

E a comparação com o Octopus se dá justamente por isso. Ele também começa a ter a mente afetada pelas estruturas tecnológicas, e vai cedendo sua personalidade a essas inteligências artificiais que são programadas para aprender e defender as células. Por isso, Matt vira uma pessoa extremamente reativa. E quanto mais ele progride no tratamento, mais ele se vicia no medicamento robótico, fazendo uma clara analogia ao uso de drogas e como até mesmo pessoas queridas e amorosas podem fazer coisas monstruosos sob efeito das substâncias. Por estar inserido no contexto da TV e do cinema americano, esse personagem estar submetido a essas situações ganha ainda mais peso na trama. Mas é aquilo, por mais que ele esteja afetado pela droga, há falhas de caráter ali que já eram visíveis antes mesmo do início de sua derrocada. O medicamento apenas potencializou coisas negativas. É uma abordagem muito interessante, porque o grande vilão da história é o próprio protagonista.
Por falar em abordagens, o DCU teve seu primeiro vislumbre de Gotham City. Depois da Metrópolis do Superman ser retratada como uma cidade mais cartunesca, com prédios e moradores que parecem anacrônicos, confesso que esperava uma Gotham mais nesse estilo, talvez uma abordagem mais Tim Burton, com muitos neons e arquitetura gótica… Mas o lar do Homem-Morcego nesse universo está bem próxima da Gotham de filmes como Batman: O Cavaleiro das Trevas (2008) e Batman (2022), que retratam a cidade como uma versão de Nova York. Não é um problema, de forma alguma, porque combina bastante com a trama, havendo até mesmo um breve easter egg ao Coringa, só que havia essa expectativa de ter um Batman menos “pés no chão” nesse universo, já que ele coexistirá com a franquia de Matt Reeves, que se pauta bastante na abordagem realista para representar o personagem.

De qualquer forma, Cara-de-Barro é uma das maiores surpresas do ano. Ele aposta numa trama redondinha para introduzir esse vilão de forma grotesca, angustiante e até mesmo nojenta. E isso é muito positivo, porque a história é muito boa e, de algum jeito, é muito, muito divertida – a ponto de você terminar a sessão sem saber se já quer ver de novo ou se nunca mais quer assisti-lo na vida.
A ideia de fazer um filme de terror para um antagonista da DC foi um acerto gigantesco, e ele pode acabar sendo uma porta de entrada muito eficaz para futuros fãs de terror e do subgênero do Body Horror. É um sopro de ar fresco nessa leva de adaptações de quadrinhos e efetivamente um excelente filme.



