‘A Última Valsa de Zelda Fitzgerald’ estreia em São Paulo e devolve protagonismo a uma artista apagada pela história

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Por muito tempo, Zelda Fitzgerald foi lembrada mais como símbolo de uma época do que como autora da própria história. Associada ao brilho da Era do Jazz, à imagem da mulher excessiva e à fama de F. Scott Fitzgerald, escritor de O Grande Gatsby, sua trajetória foi frequentemente reduzida a estereótipos que a colocavam no lugar da musa, da esposa difícil e da figura instável. Em A Última Valsa de Zelda Fitzgerald, esse olhar é deslocado: o solo teatral resgata a complexidade de uma mulher artista, escritora e pensadora, cuja voz foi tantas vezes abafada pela narrativa construída ao seu redor.

Com atuação e concepção de Larissa da Matta e dramaturgia assinada por ela em parceria com Pedro Amaral, o espetáculo já estreou em São Paulo, no espaço O Andar, propondo ao público uma imersão na vida de Zelda para além do imaginário romântico e trágico que a transformou em personagem secundária de uma história masculina. Em cena, sua história emerge como a de uma mulher em conflito com o tempo em que viveu, com o casamento que a atravessou, com a disputa pela autoria da própria vida e com as tentativas insistentes de afirmar sua criação em um mundo que parecia disposto a lhe negar lugar.

A peça acompanha Zelda desde seu início no sul dos Estados Unidos à consagração social
nos anos 1920, passando pelos embates de seu casamento com Scott Fitzgerald, pelas tensões entre vida íntima e produção artística, pela vontade de existir para além da figura de esposa célebre e pelo agravamento de sua saúde mental. Entre festas, delírios, memórias e internações, o espetáculo constrói o retrato de uma mulher intensa, contraditória e profundamente humana.

A origem da montagem remonta à adolescência de Larissa da Matta. Aos 15 anos, ao assistir ao filme Meia-Noite em Paris’, de Woody Allen, a atriz se encantou pela breve aparição de Zelda na trama e se inquietou com a forma como ela era retratada: uma mulher descompensada, impulsiva e aprisionada em uma relação turbulenta com o marido. A curiosidade despertou o desejo de investigar quem era aquela figura para além da caricatura.

Em seguida, veio a leitura de O Grande Gatsby e o incômodo diante de um prefácio que atribuía à “esposa louca” os danos ao talento de Scott Fitzgerald. A partir daí, a pesquisa deixou de ser apenas interesse e se transformou em necessidade. O percurso investigativo revelou um dado significativo: ainda hoje, há pouco material disponível, sobretudo em português, sobre Zelda Fitzgerald. E, quando existe, grande parte desse conteúdo ainda reproduz suposições, contradições ou leituras marcadas pelos preconceitos de sua época. Em meio a esse processo, foi decisivo o encontro com Esta Valsa é Minha, livro de Zelda publicado no Brasil pela Companhia das Letras.

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Escrito em apenas seis semanas como exercício de escrita analítica durante um período de internação no Highland Hospital, nos Estados Unidos, o romance chamou a atenção de Larissa pela estrutura imagética, pela escrita fragmentada e pela forma singular com que Zelda recria a própria experiência por meio de uma personagem fictícia, Alabama. Foi nessa linguagem, poética, febril e inacabada, que a artista encontrou a chave definitiva para levá-la ao palco.

Com linguagem intimista e força narrativa, o solo se apresenta como uma experiência capaz de dialogar tanto com o público interessado em literatura, história e artes quanto com espectadores atraídos por histórias de mulheres complexas, intensas e profundamente contemporâneas em suas contradições. Ao trazer Zelda Fitzgerald de volta ao palco, o espetáculo não apenas revisita o passado: ele questiona os mecanismos que seguem produzindo apagamentos no presente.

A montagem marca ainda a primeira produção assinada pelo Foyer, plataforma de comunicação, cultura e criação de projetos autorais, ampliando sua atuação para o campo da produção teatral e reforçando seu compromisso com obras que articulam arte, pensamento e relevância contemporânea.

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Thiago Nolla
Thiago Nolla
Em contato com as artes em geral desde muito cedo, Thiago Nolla é jornalista, escritor e drag queen nas horas vagas. Trabalha com cultura pop desde 2015 e é uma enciclopédia ambulante sobre divas pop (principalmente sobre suas musas, Lady Gaga e Beyoncé). Ele também é apaixonado por vinho, literatura e jogar conversa fora.

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