quarta-feira, janeiro 28, 2026

Ainda longe do Oscar, Paul Mescal investe no silêncio e no outro lado de Shakespeare em “Hamnet” [Entrevista Exclusiva]

DestaqueAinda longe do Oscar, Paul Mescal investe no silêncio e no outro lado de Shakespeare em “Hamnet”

O silêncio existe porque você está tentando descobrir o que dizer”, diz Paul Mescal em entrevista ao CinePOP, realizada por Zoom, antes do anúncio dos indicados ao Oscar, em 22 de janeiro. Na tela, ele parece à vontade, como quem conversa de casa em um domingo: cabelo levemente despenteado e gestos inquietos. Simpático, mas econômico, articula suas respostas sem grandes revelações.

Indicado a oito Oscars este ano, incluindo Melhor Filme e Direção para Chloé Zhao, Hamnet: A Vida Antes de Hamlet estreou nos cinemas brasileiros em 15 de janeiro. Em duas semanas, arrecadou R$ 1,4 milhão, segundo dados do Filme B. No longa, Mescal interpreta William Shakespeare como um pai ausente e imperfeito, que gira em torno da perda do filho Hamnet, enquanto Agnes (Jessie Buckley) é o pilar narrativo. 

Paul Mescal em entrevista com Letícia Alassë (Foto: reprodução)
Paul Mescal em entrevista com Letícia Alassë (Foto: reprodução)

A atuação de Mescal é marcada pela atenção aos companheiros de cena. Olhares, gestos interrompidos e pausas carregam mais significado do que qualquer diálogo. Ali, entre ausência e presença, o filme constrói sua força emocional. Ainda assim, a performance ficou fora das escolhas da Academia, que não lhe rendeu uma segunda indicação ao Oscar após Aftersun (2022).

Entre o luto e a emoção

Para Mescal, atuar é menos sobre falar e mais sobre escutar. “Se você está tendo conversas profundas e desafiadoras, o que realmente nos move nem sempre são as palavras. É a linguagem corporal. É o silêncio.” Seu Shakespeare escreve e se afasta, ama e falha, cria enquanto tenta elaborar a dor. Cada pausa revela emoções não ditas, uma presença que não domina a narrativa de sua esposa.



Nascido em Maynooth, na Irlanda, Mescal cresceu com uma imagem já formada do dramaturgo inglês, mas o papel aprofundou sua compreensão sobre o custo da criação artística. “Sinto-me muito grato a Shakespeare. Passo a compreender o que ele sacrificou para nos dar as peças. Não acho que ele não amasse a esposa ou os filhos. Acho que os amava profundamente. Mas havia uma compulsão artística.” A reflexão ecoa tanto no personagem quanto na própria trajetória do ator.

Trajetória de bons desafios

Desde Normal People (2020), passando pelo cinema intimista de Aftersun, de Charlotte Wells, Paul Mescal se consolidou como um dos atores mais observados de sua geração. Atualmente, integra uma ambiciosa quadrilogia sobre os Beatles, interpretando Paul McCartney, e está envolvido no longo processo de filmagem de um musical dirigido por Richard Linklater, gênero que já explorou na releitura da ópera Carmen (2022), de Benjamin Millepied.

Ainda este ano, o ator também poderá ser visto em A História do Som, de Oliver Hermanus, com estreia prevista para 26 de fevereiro. As escolhas revelam uma carreira construída entre o cinema autoral, narrativas queer, musicais e grandes produções, como Todos Nós Desconhecidos (2023) e Gladiador II (2024).

A magia de trabalhar com Chloé Zhao

Ao falar sobre sua experiência com Chloé Zhao, Mescal destaca a diferença de clima e abordagem: “Cada diretor cria uma relação única, independentemente do gênero. Mas o set de Chloé foi o mais espiritual e emocionalmente latente em que já estive. Eu diria que era espiritual.” 

Chloé Zhao durante filmagens de Hamnet com Paul e Jessie (Foto: Divulgação)
Chloé Zhao durante filmagens de Hamnet com Paul e Jessie (Foto: Divulgação)

Essa atmosfera sensível ecoa diretamente na atuação que ele constrói em Hamnet. A conexão criada durante as filmagens se reflete na tela. Para Mescal, o modo de trabalho — o respeito pelo tempo do outro e pela escuta — influencia decisivamente a força da narrativa.

Na última semana, o perfil oficial do filme no Instagram publicou um vídeo do elenco ao fim das filmagens: ainda vestidos com os figurinos da cena final, todos dançam e cantam We Found Love, de Rihanna, ao lado da diretora. A imagem viralizou. Talvez seja o melhor resumo do que Mescal descreve: um set capaz de sustentar o peso da dor e o sentido de comunhão.

Veja a entrevista em vídeo: 

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