‘Alguma Coisa Assim’: Debate com Caroline Abras e o diretor Esmir Filho

‘Alguma Coisa Assim’: Debate com Caroline Abras e o diretor Esmir Filho



Após 10 anos, Alguma Coisa Assim volta aos cinemas para discutir bissexualidade e aborto

Quanto tempo dura a produção de um filme? O longa Alguma Coisa Assim desenvolve dez anos do relacionamento entre os amigos Mari (Caroline Abras) e Caio (André Antunes), apresentados no curta-metragem homônimo lançado em 2006 e premiado em Cannes. De lá pra cá, o casal de protagonistas se reencontrou em 2013, na noite paulistana, e em 2016, em Berlim.

Dirigido e escrito por Esmir Filho e Mariana Bastos, este reencontro de uma década chegou ao circuito nacional nesta quinta-feira, dia 27 de julho, com a proposta de refletir temas polêmicos como sexualidade, amadurecimento e aborto.

Em um bate-papo com a imprensa e o público, na noite de estreia, Esmir Filho e Caroline Abras compartilharam histórias sobre produção e bastidores, no Cinema Estação NET Rio, em Botafogo, no Rio de Janeiro. Confira os detalhes abaixo:

Questão de Tempo

Comparado à produção Boyhood (2014), de Richard Linklater, por conta do longo tempo de produção, Esmir rejeita a analogia: “É um filme que fala sobre o tempo. Tem atores com 17 e depois na idade adulta. (…) Mas é um outro filme, é outro estado, fala sobre outra coisa”.

A questão temporal não é o carro-chefe desta continuação. Se é que pode ser chamada de continuação, uma vez que grande parte do curta de origem está inserida no longa e conversa com todas as gravações posteriores. O que nos remete também à obra nacional Hoje Eu Quero Voltar Sozinho (2014), de Daniel Ribeiro, surgida do curta Hoje Eu Não Quero Voltar Sozinho (2010).

Aproveite para assistir:


Em uma espécie de triologia Antes do Amanhecer (1995), para citar Linklater novamente, o filme recorta três momentos temporais não-lineares condensados em 80 minutos. Pode-se afirmar, entretanto, que houve uma espera para o fechamento desta história, já que após o sucesso do curta houve o lançamento de cenas gravadas em 2013 na internet e, apenas três anos depois, a gravação dessa conclusão.

De 2006 a 2018

O curta Alguma Coisa Assim foi o pontapé inicial da carreira de Caroline Abras, que logo de cara recebeu um prêmio em Cannes. Conhecida por obras como Gabriel e a Montanha (2017) e O Mecanismo (2018), a atriz admite uma certa nostalgia ao voltar à personagem. “Quando vejo as primeiras imagens [do filme], me lembro de uma pessoa entendendo que descobriu o próprio caminho”, revela a atriz.

Em um percurso totalmente aposto, André Antunes (Caio) seguiu a carreira de psicanalista. Desse modo, o protagonista resistiu um pouco antes de voltar em frente às câmeras para dar vida a sequência (ou fim) desse relacionamento. “Ele é um cara pouco mais sério. Afinal, ele cuida das pessoas, a gente provoca as pessoas”, declarou Caroline sobre o colega de cena.

Se há 10 anos, Caio vivia as dúvidas da descoberta da sua bissexualidade, agora ele lida com as emoções de um rompimento amoroso, enquanto Mari busca encontrar o seu lugar no mundo. Assim, o filme apresenta uma densidade mais dramática e uma forte discussão sobre a autonomia da mulher sobre o seu corpo.

Berlim como pano de fundo

Apaixonado pela multiculturalidade e transformações de Berlim, Esmir Filho escolheu a cidade para compor a personalidade mutante de Mari. Em parceria coma a produtora alemã Zak Films, o diretor conseguiu desenvolver os tons mais dramáticos da sua obra, como a questão do aborto. Para ele, a Alemanha está anos-luz do nosso modelo de gestão.

“O sistema [alemão] faz com que a mulher e o homem pensem no que eles estão fazendo. Essa visão, portanto, de que se legalizar o aborto todo mundo vai fazer é muito curta. Pelo contrário, vai dar a liberdade de escolha para aquela pessoa, porque ela vai entender o peso que é isso”. O diretor ainda acrescenta: “Se ela tem dinheiro, ela faz e dá certo. Se você não tem, pode dar complicações e levar até a morte”.

Uma Linguagem Diferenciada

Além da posição política, a obra é uma bela viagem cinematográfica pouco explorada em território nacional. Assim como no curta Saliva (2007) e no longa Os Fantasmas e os Duendes da Morte (2009), o cineasta Esmir Filho explora o tempo subjetivo e o imaginário do seu público, misturando cenas fortes com a leveza de sons e imagens.

O diretor paulista promete ainda encantar os espectadores com o seu próximo projeto Verlust, com Andrea Beltrão e Marina Lima, em parceria com a Globo Filmes. Por enquanto, Esmir e Mariana ousam no cinema nacional com um filme jovem, político e descontraído. Nas palavras do próprio criador: “[Os personagens] vão amadurecendo, mas continuam sendo eles. A relação deles é aquela relação ‘alguma coisa assim’, que a gente brinca que não é nem uma coisa nem outra. Não está em nenhum lugar”.



COMENTÁRIOS