Anunciado em 2021 como uma das grandes apostas do cinema épico contemporâneo, Desert Warrior surgiu cercado de expectativas. Com um orçamento estimado em US$ 150 milhões e um elenco de peso liderado por Anthony Mackie (Capitão América: Admirável Mundo Novo) e pelo vencedor do Oscar Ben Kingsley, o projeto prometia apresentar uma visão grandiosa do antigo mundo árabe. Sob a supervisão da MBC, a proposta era ambiciosa: oferecer uma narrativa histórica capaz de dialogar com uma nova geração de cineastas locais, ampliando suas referências para além do modelo tradicionalmente imposto por Hollywood.
No entanto, passados mais de três anos desde o início das filmagens, o longa parece ter se perdido em um limbo de produção. As atualizações tornaram-se escassas, e o silêncio em torno do projeto começou a gerar dúvidas sobre seu futuro.
A história se passa no período pré-islâmico e retrata o conflito entre tribos árabes e o Império persa-sassânida, na região que hoje corresponde ao sul do Iraque.
A trama acompanha Hind (Aiysha Hart), uma princesa árabe que se recusa a se tornar concubina do cruel imperador Kisra (Ben Kingsley). Após fugir para o deserto, ela cruza o caminho de um enigmático fora da lei conhecido apenas como Bandido (Anthony Mackie) e, aos poucos, passa a reunir tribos rebeldes para enfrentar o poderoso exército de Kisra.
A direção ficou a cargo de Rupert Wyatt, conhecido por seu trabalho na franquia Planeta dos Macacos. Nos bastidores, relatos iniciais eram bastante positivos, com elogios à escala das filmagens, ao cuidado estético e, principalmente, às atuações de Mackie e de Aiysha Hart, apontada como o coração emocional da narrativa. Ainda assim, com o passar do tempo, o entusiasmo foi sendo substituído por incertezas.
Nas redes sociais, membros da equipe passaram a resgatar fotos antigas dos bastidores, levantando especulações sobre o real status do filme e se ele, de fato, chegará algum dia aos cinemas. Fontes indicam que um corte final ainda depende da aprovação de Wyatt, que deixou o projeto em meio a divergências criativas e, posteriormente, acabou retornando. Para agravar a situação, exibições-teste indicaram dificuldades de conexão com o público, enquanto versões preliminares não convenceram executivos norte-americanos envolvidos no processo.
Paralelamente, começaram a surgir questionamentos sobre a abordagem adotada pelo filme. Parte da equipe e dos executivos levantou preocupações sobre o fato de uma história profundamente ligada ao passado árabe estar sendo conduzida majoritariamente por cineastas ocidentais, o que poderia comprometer a autenticidade cultural e histórica da obra.
As tensões internas se intensificaram ao longo de 2023. Em fevereiro daquele ano, Christina Wayne, executiva da Amazon Studios, foi integrada à produção para supervisionar uma das unidades do filme. Pouco depois, ela trouxe Alexandra Milchan (TÁR) para reforçar o time. Também participavam das decisões criativas figuras centrais da MBC, como o CEO Sam Barnett, o presidente sheik Waleed al-Ibrahim e o gerente sênior Ali Jaafar.
Com o avanço do projeto, surgiram novos impasses. A MBC solicitou que Wyatt reduzisse a duração do longa — originalmente com 155 minutos — em cerca de 20%, para atender a exigências contratuais. Além disso, o tom da narrativa virou motivo constante de atrito. Enquanto Wyatt defendia um filme mais autoral, carregado de nuances e complexidade dramática, os executivos desejavam algo mais próximo de um épico clássico nos moldes de Coração Valente (1995). Segundo o Deadline, apesar dos conflitos, todas as partes envolvidas afirmavam agir “com as melhores intenções” em relação ao projeto.
Em julho de 2023, uma versão inacabada de Desert Warrior foi exibida em um teste de público em Las Vegas — e os resultados foram desanimadores. Apenas 25% dos entrevistados demonstraram interesse no filme. Entre as críticas mais recorrentes estavam o ritmo arrastado, a sensação de que a história se estendia além do necessário e a dificuldade de compreender as motivações dos personagens principais, mesmo após a inclusão de cenas adicionais para esclarecer o arco do personagem de Mackie.
“A confusão era grande, não apenas no início, mas também mais adiante, o que esvaziava a resposta geral à história e o engajamento com os protagonistas”, apontava a pesquisa.
Representantes da MBC minimizaram o impacto dos testes, afirmando que esse tipo de exibição é comum e serve justamente para ajustar ritmo e clareza narrativa. Pessoas próximas à produção também lembraram que diversos sucessos de bilheteria tiveram recepção fraca em pesquisas iniciais. Ainda assim, os números reacenderam o debate sobre a receptividade do público a uma interpretação ocidental de uma história árabe. O elenco principal contava com poucos atores árabes, o texto foi descrito como excessivamente rebuscado, quase shakespeariano, e a precisão histórica virou tema de discussões internas, evidenciando choques culturais ao longo do processo.
Wyatt afirmou que a versão exibida no teste não refletia sua visão original, alegando que o corte havia sido alterado após sua saída do projeto, em abril de 2023. Outros envolvidos, no entanto, sustentaram que as mudanças foram mínimas. De toda forma, a montadora Kelley Dixon (Pantera Negra: Wakanda para Sempre) acabou sendo chamada para assumir uma nova reedição do filme.
Sem uma data oficial de lançamento até o momento, Desert Warrior segue envolto em incertezas. Ainda assim, acredita-se que a produção possa finalmente chegar aos cinemas no próximo ano, encerrando uma trajetória marcada por ambição, conflitos criativos e um longo caminho até a linha de chegada.


