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Artigo | 3 anos de ‘Renaissance’, um dos álbuns mais IMPORTANTES da carreira de Beyoncé


Beyoncé Knowles-Carter começou sua carreira nos anos 1990 como parte do icônico grupo musical Destiny’s Child – e, após entrar na carreira solo em 2003 com o lançamento de ‘Dangerously in Love’, a performer não tinha qualquer ideia do impacto que causaria no cenário do entretenimento como um todo.

Desde o momento em que parou o mundo com a estreia de “Crazy In Love” ao lado do atual marido Jay-Z, passando por reinvenções constantes até atingir um ápice artístico inimaginável e que permanece mesmo nos dias de hoje. Não é surpresa que, era após era, Beyoncé reafirme seu inegável status como uma das lendas do escopo fonográfico, tendo influenciado na indústria com o lançamento-surpresa de seu álbum homônimo em 2013, promovido uma análise sociorracial da história negra com o irretocável ‘Lemonade’ e, no ano passado, tendo resgatado as origens afro-americanas do country com ‘Cowboy Carter’. Porém, foi em 2022 que a cantora, compositora e produtora nos presenteou com uma de suas obras mais memoráveis: Renaissance.



O compilado de originais, que completa três anos no dia de hoje, é um arauto suntuoso e imponente que deu início a uma trilogia ainda a ser finalizada. Aqui, Beyoncé permanece explorando a necessidade de honrar aqueles que calcaram a música como ela, em seus mais variados gêneros – e, como capítulo de apresentação, ela se une a uma gama de importantes nomes do house, do disco, do funk e do próprio pop (seja com interpolações, seja na produção) para reafirmar uma máxima que certas pessoas parecem esquecer: toda música é negra. Em outras palavras, é notável como nossa Queen B promove um encontro entre passado e presente ao reafirmar, através de dezesseis faixas impecáveis, o essencial trabalho de relembrar aqueles que pavimentaram o caminho.

A construção ideológica por trás da obra tem duas premissas que são exploradas de maneiras diferentes: de um lado, temos o resgate da cultura afro-americana queer dos anos 1970 e 1980 que lutaram contra estigmas inescapáveis em uma época derradeira. Apostando fichas no já mencionado house, Bey demonstra um apreço pela exaltação do Ballroom ao nos transportar para Nova York, para o Studio 54 e para o hedonismo empoderador das Houses que marcaram época e se estendem sua influência mesmo décadas depois: “Break My Soul”, nesse sentido, foi escolhido como lead single para dar um gostinho do que a performer preparava a seus fãs – munida do classicismo da estética dos sintetizadores dos anos 1990 em uma narrativa de libertação e emancipação que conta com a presença de Big Freedia e sua canção, “Explode”.

Pegando páginas emprestadas de Giorgio Moroder, pai do disco que trabalhou ao lado de nomes como Donna Summer, e de artistas como Crystal Waters, Diana Ross, Gloria Gaynor e Nile Rodgers, Renaissance não é apenas um álbum, mas uma declamação vibrante e focada no prazer pelo prazer que veio em boa hora e pouco depois do fim da pandemia de COVID-19 – em que, através de ácidos comentários sobre a sociedade, Beyoncé desejava nos entregar um pouco de alegria em tempos difíceis. Não é surpresa que o compilado funcione como um setlist feito para as pistas de dança, em que a maximização é regente e não temos escolha a não ser se deixar levar por essa incrível e sedutora jornada.

De certa maneira, podemos encarar o disco como um pedaço das minorias sociais enquanto parte de uma sociedade marcada pelo tradicionalismo e pelo retrocesso – em que as diferenças não eram celebradas, e sim encaradas como “inimigos públicos” e um bode expiatório frente a problemas realmente passíveis de discussão. Em “Heated”, uma das tracks mais celebradas, a cantora mergulha de cabeça no afrobeat e no dancehall para uma homenagem direta a seu Tio Johnny, que era gay e que conquistou um agradecimento de Bey durante o Grammy Awards, quando recebeu a estatueta de Melhor Álbum Eletrônico/Dance; “Cozy” funciona como um discurso de autonomia que, normalmente, é destituído das pessoas negras e que aqui lhes é reclamado por direito – além de uma reformulação sagaz e muito original da bandeira LGBTQIA+; “Summer Renaissance e “Pure/Honey” são banhados pela luz dourada da ostentação e do individualismo como plataforma empoderadora; e, é claro, não podemos deixar de lado incursões como “Plastic Off the Sofa” e “Virgo’s Groove”, que apostam na sexualidade e na sensualidade como aspectos inerentes à própria vida.

É difícil mensurar o impacto causado por Renaissance, seja em experiências únicas, seja em um discurso universalizante que une os ouvintes em uma causa comum: afinal, se o álbum funciona como um solilóquio de Beyoncé para si mesma e para o que quer deixar como legado, ele também emerge como um catártico projeto pessoal cuja recepção varia de pessoa a pessoa – e cujo experimentalismo sonoro transforma-se em uma luxuosa e brilhante viagem. Não é surpresa, pois, que o álbum tenha sido um dos responsáveis pela revitalização do house e do disco e (re)apresentado nomes importantes da história da música a uma nova geração.

Thiago Nolla
Em contato com as artes em geral desde muito cedo, Thiago Nolla é jornalista, escritor e drag queen nas horas vagas. Trabalha com cultura pop desde 2015 e é uma enciclopédia ambulante sobre divas pop (principalmente sobre suas musas, Lady Gaga e Beyoncé). Ele também é apaixonado por vinho, literatura e jogar conversa fora.
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