Artigo | Como ‘O Diabo Veste Prada’ MUDOU a cultura pop para sempre

São poucas as pessoas que nunca ouviram falar da aclamada comédia dramática O Diabo Veste Prada. Desde seu lançamento em 30 de junho de 2006 até hoje, o longa-metragem continua angariando fãs das mais variadas idades, ultrapassando gerações e sendo constantemente redescoberto – motivo pelo qual permanece calcando um legado inegável.

O filme, baseado no romance best-seller de Lauren Weisberger, foi dirigido por David Frankel e, a princípio, pode parecer como qualquer outra produção do gênero. O enredo é centrado em Andy Sachs (Anne Hathaway), uma jornalista recém-formada que luta para conseguir emprego em Nova York e é chamada para uma entrevista com ninguém menos que Miranda Priestly (Meryl Streep), guru da moda e editora-chefe da multimilionária revista Runway. O problema? Andy não tem qualquer senso de moda e logo atrai olhares reprobatórios das dezenas de funcionários e modelos que andam pelos corredores. Contra todas as possibilidades, ela consegue a vaga e percebe que “o emprego pelo qual todas as garotas se matariam” é extremamente desafiador.

À parte da sólida obra que surgiu da adaptação e da química excepcional de um elenco que ainda conta com Emily Blunt e Stanley Tucci, O Diabo Veste Prada conseguiu redefinir inúmeros conceitos estilísticos que hoje são trabalhados à exaustão, especialmente quando pensamos no mundo fashion. Por mais que incursões como ‘As Patricinhas de Beverly Hills’ e ‘Meninas Malvadas’ já tivessem ditado alguns comportamentos da sociedade dos anos 1990 e 2000, nessa ordem, nenhum deles teve tanto impacto quanto imaginamos; o assunto de maior discussão entre especialistas dessa macro esfera é a precisão assustadora que tanto o romance de Weisberger quanto a magnum opus de Frankel arquitetaram sobre as engrenagens do mundo da moda.

Landon Peoples, da V Magazine, comentou que, até hoje, “encontramos cada uma das personalidades representadas no filme – as boas, as más, as traidoras e aquelas que realmente vão te ajudar e querem te ver alcançar sucesso”. Lauren Caruso, da StyleCaster, reconheceu a si mesma no cotidiano frenético de Andy ao comentar que “há longas horas e um trabalho bastante penoso. E ser assistente de alguém tão poderoso e ocupado quanto um editor-chefe é imparável”. Shelley Brown, editora da The Knot, também se viu retratada e comentou que, “em minha vida, tive várias experiências e situações à la O Diabo Veste Prada” (via Nylon).

Não é nenhuma novidade que Miranda, com ênfase no livro, tenha sido inspirada na lendária Anna Wintour, editora-chefe da Vogue – e a própria autora comentou que se inspirou em sua experiência na revista para construir a história. A diferença é que Streep, que faturou mais uma indicação ao Oscar por sua performance, conseguiu transformar Miranda em uma personagem extremamente complexa e compreensível – afinal, a própria atriz comentou que se inspirou no fato da indústria jornalística ser comandada por homens e poucas melhores estarem no cargo mais alto das empresas. Em outras palavras, Miranda não agiu diferente do que qualquer homem que estivesse em seu lugar (e tais temas são trazidos à discussão na obra, ainda que ofuscados pelos chamativos figurinos).

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De qualquer forma, Wintour participou de uma exibição antecipada (vestida inteiramente em Prada) e, apesar do que muitos poderiam pensar, se divertiu com o filme – mesmo que alguns detalhes simplesmente não pudessem ser ignorados, como a recriação quase exata do escritório de Anna. A editora-chefe pode ter ficado cética à época do anúncio do projeto, mas levou tudo na brincadeira e deixou se levar pelas ótimas atuações e, para o bem ou para o mal, sua popularidade teve crescimento exponencial após o lançamento nos cinemas.

Mas não foi apenas da moda que o filme se valeu para conquistar o público ou para se manter vivo até os dias de hoje. Em 2008, dois anos após sua estreia oficial, o jornal The New York Times, ao lado de diversos outros consórcios de imprensa, escreveu que a produção ajudou a pavimentar um estilo mais reconhecível e abraçado pelo público, mergulhando com profundidade na construção da assistente pessoal no imaginário mainstream. A presença intrincada de Emily e de Andy na narrativa, subjugadas às tarefas intermináveis de Miranda, ajudou a lançar luz sobre condutas trabalhistas consideradas tiranas e causaram uma exploração da “economia d’O Diabo Veste Prada”, termo utilizado pela imprensa em 2009, com regulações laborais que ameaçavam os direitos dos assistentes, e em 2019, com as alegações de má conduta da senadora Amy Klobuchar para com sua equipe.

Como se não bastasse, o longa também foi responsável pela antecipação de anti-heroínas na televisão ou no cinema – abrindo portas para arcos mais profundos de personagens femininas. Miranda, enfrentando inúmeros obstáculos para se manter relevante num cargo facilmente entregue a qualquer outro homem, se impõe e é vista como megera, obrigando a si mesma a se defender de forças externas – algo visto também, por exemplo, em Olivia Pope em ‘Scandal’ e Cersei Lannister em ‘Game of Thrones’, como bem apontou o The Washington Post na celebração de dez anos da iteração.

O Diabo Veste Prada provou para os exibidores e para as produtoras que o mercado demográfico feminino era e continua sendo um dos maiores do planeta e que, após o sucesso imediato do filme, houve uma tentativa de replicação de narrativas do gênero pela mesma audiência. E, numa análise mais restrita ao elenco, é notável como sua popularidade ajudou a tornar os atores e atrizes ainda mais famosos do que já eram – especificamente no tocante a Blunt, que é continuamente reconhecida como Emily uma década e meia depois de tê-la vivido.

Lembrando que as gravações de O Diabo Veste Prada 2’ seguem a todo vapor. Lucy Liu, Justin Theroux, B.J. Novak e Pauline Chalamet foram confirmados no elenco. A sequência também contará com os talentos da Broadway Helen J. Shen e Conrad Ricamora, além do comediante Caleb Hearon.

Os novos rostos se juntam à icônica equipe de Runway, em um enredo que promete colocar seus conhecimentos de moda à prova — e certamente desafiar os padrões da indústria mais uma vez.

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Além disso, dois personagens do filme original estarão de volta: Tracie Thoms, que interpretou Lily, a melhor amiga fashionista de Andy Sachs, e Tibor Feldman, o temido Irv Ravitz, presidente da Elias-Clark, empresa-mãe da Runway. Eles se unirão à atriz Simone Ashley.

Todos eles se juntam às estrelas já confirmadas Anne Hathaway, Meryl Streep, Emily Blunt, Stanley Tucci e Kenneth Branagh.

A estreia do novo filme está prevista para 1º de maio de 2026.

No novo capítulo da franquia, a poderosa editora Miranda Priestly enfrenta o desafio da decadência da mídia impressa em meio à ascensão das plataformas digitais. Sua ex-assistente Emily Charlton tornou-se uma executiva influente no mundo da moda, e agora as duas disputam ferozmente pela atenção, e pelos investimentos, das maiores marcas de luxo.

David Frankel também volta à direção.

Aline Brosh McKenna, que assinou o roteiro do filme de 2006, retorna para escrever a história do projeto.

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Thiago Nolla
Thiago Nolla
Em contato com as artes em geral desde muito cedo, Thiago Nolla é jornalista, escritor e drag queen nas horas vagas. Trabalha com cultura pop desde 2015 e é uma enciclopédia ambulante sobre divas pop (principalmente sobre suas musas, Lady Gaga e Beyoncé). Ele também é apaixonado por vinho, literatura e jogar conversa fora.