“Esse foi o desafio que eu estava esperando: ser provocado como ator de um jeito que eu nunca tinha sido antes.” Dwayne Johnson não diz isso como quem promove mais um blockbuster de ação. A frase foi dita em entrevista exclusiva ao CinePOP, concedida via Zoom, direto de seu escritório em Los Angeles, e resume o espírito de Coração de Lutador – The Smashing Machine, lançado em outubro nos cinemas brasileiros. O longa marcou um ponto de inflexão na carreira do astro, levou-o às lágrimas na estreia mundial no 82º Festival de Veneza e rendeu a Benny Safdie o Leão de Prata de Melhor Direção.
Com a cerimônia do Globo de Ouro marcada para o próximo domingo, 11 de janeiro, Coração de Lutador ganha um novo peso no debate cinematográfico. Johnson concorre pela primeira vez como Melhor Ator em Filme de Drama e entra na corrida por uma possível indicação ao Oscar, cujo anúncio ocorre em 22 de janeiro. Mais do que a expectativa por prêmios, este momento simboliza algo inédito: o reconhecimento institucional de uma transformação artística gestada ao longo de anos.

Conhecido mundialmente como The Rock — ícone da luta livre, astro de bilheterias e sinônimo de carisma muscular — Johnson abandona o apelido já nos créditos e surge irreconhecível, física e emocionalmente, na pele do lendário lutador de MMA Mark Kerr. Durante a conversa, de óculos e visivelmente à vontade, o ator falou com empolgação genuína sobre o projeto, estendeu o tempo previsto da entrevista e compartilhou o peso de quem sabe estar diante do trabalho mais arriscado de sua carreira.
O silêncio antes da luta
Ao comentar a cena inicial de Coração de Lutador — quando Mark Kerr conversa com um jornalista momentos antes de entrar no ringue — Dwayne Johnson fez questão de explicar por que aquele instante é tão central para ele: “Existe algo muito especial, quase sagrado, naquele momento em que você está de um lado da cortina, esperando ser apresentado ao público. Está tudo quieto, estranho, mas você sabe que, assim que a música tocar, tudo vai explodir.”

Segundo o ator, a decisão de Benny Safdie de permanecer nesses silêncios diferencia o filme de outros dramas esportivos: “Muitos diretores pulam esses momentos e vão direto para a ação. Benny não. Ele se senta nesses silêncios. E quando você faz isso, puxa o público ainda mais para dentro da história.” É nesse espaço — antes da violência e do espetáculo — que o filme encontra sua força emocional.
Benny Safdie: o desafiador
A escolha de Safdie esteve longe de ser casual. Após assistir a Joias Brutas (Uncut Gems, 2019), Johnson enxergou no cineasta alguém capaz de levá-lo a territórios ainda inexplorados. “Ele me disse que poderia me desafiar como ator de formas que eu nunca tinha sido antes”, contou. Ao lado de Emily Blunt, que interpreta Donna, esposa de Kerr — e que também recebeu indicação ao Globo de Ouro por sua atuação —, Johnson se permite falhar, sofrer e se expor. Trata-se de uma exigência dramática inédita em sua trajetória.

Produtor do projeto, Johnson foi o responsável pela escolha do diretor e explica sua decisão: “Essas foram as duas razões para ser ele. Senti que Benny dominava o material, mas, além disso, é um diretor muito ambicioso em criar uma arte comovente, emocional, dramática e, às vezes, inspiradora.” Eram exatamente esses elementos que o ex-lutador buscava ao levar para o cinema a trajetória de um ícone do vale tudo.
Bilheteria discreta, impacto artístico
Produzido pela A24, Coração de Lutador nunca foi concebido como um fenômeno comercial. Ainda assim, seu desempenho discreto nas bilheterias evidencia o risco assumido pelo estúdio e por Johnson ao apostar em um drama biográfico denso em um mercado cada vez mais orientado pelo espetáculo. O filme arrecadou US$ 9,7 milhões nos Estados Unidos e US$ 21,1 milhões mundialmente, segundo o Box Office Mojo, frente a um custo de produção estimado em US$ 40 milhões.

Curiosamente, a estratégia da A24 nesta temporada privilegiou outros títulos, como Marty Supreme, projeto ligado ao outro ramo criativo dos irmãos Safdie. Responsáveis juntos por Bom Comportamento (2017) e Joias Brutas, Benny e Josh Safdie seguiram caminhos distintos após a separação artística. Enquanto Marty Supreme concentra de forma mais evidente a obsessão pela perfeição, a urgência e a ansiedade que marcaram a filmografia dos irmãos, Coração de Lutador opta por uma estrutura mais clássica de cinebiografia.
Ainda que traga ecos desse desconforto emocional característico de Safdie, o filme permanece ancorado em um modelo familiar de narrativa americana: a história de ascensão, queda e redenção de um homem. Nesse sentido, não rompe totalmente com o padrão do gênero. Em contraste, uma das poucas adaptações autobiográficas que realmente fugiram desse molde no último ano foi A Cronologia da Água, de Kristen Stewart, um memoir que desafia a linearidade e a lógica tradicional da cinebiografia.

Essas considerações, no entanto, não diminuem o impacto do trabalho de Dwayne Johnson. Pelo contrário: o reconhecimento em premiações indica que, mesmo dentro de uma estrutura convencional, sua entrega encontrou algo verdadeiro e potente. A transformação física é chocante. O corpo esculpido do astro de Velozes e Furiosos desaparece, dando lugar a um lutador pesado, brutal e imperfeito. Em uma cena emblemática, Johnson surge vestindo um short da Bad Boy — peça icônica dos anos 1990, ligada à cultura do MMA e também ao funk brasileiro, como no clipe Funk Rave, de Anitta. A imagem provoca identificação imediata com o público brasileiro — e essa é exatamente a intenção.
Brasil como origem e afeto
O Brasil não é apenas cenário, mas a espinha dorsal da narrativa. O filme começa em São Paulo, durante os dias do vale tudo, quando o MMA ainda era cru, violento e praticamente sem regras. “Eu sempre soube da paixão dos brasileiros pelo MMA. O jiu-jitsu, a família Gracie… vocês são os padrinhos e madrinhas do esporte”, afirmou Johnson.

“O início no Brasil é fundamental porque foi lá que o Mark começou a carreira, em uma época sem regras claras. Aquelas lutas eram assustadoras. E havia esse americano que nunca tinha lutado antes, mas que não só venceu o torneio como, pelo que me contaram, ganhou o respeito do povo e dos lutadores brasileiros. Era isso que queríamos mostrar”, completou.
No final da entrevista, ainda sobre o Brasil, Johnson surpreendeu. Ele se levantou, saiu do enquadramento e retornou segurando um cinturão dourado. “Isso aqui é o World Vale Tudo Championship, do Brasil. Foi isso que o Mark ganhou. Eu segurei isso no filme e sempre quis ficar com ele. O Brasil é muito especial para mim.”

O futuro: franquias e reinvenção
Mesmo em plena metamorfose artística, Dwayne Johnson não abandona as grandes franquias. Ele tem ao menos sete projetos em desenvolvimento, incluindo Jumanji 3, novos capítulos do universo Velozes e Furiosos e a adaptação live-action de Moana, prevista para 2026. Coração de Lutador, no entanto, deixa algo claro: existe um novo The Rock em formação, um ator disposto a abrir mão de controle, conforto e previsibilidade em nome de algo mais profundo.
Aos 53 anos, Johnson mostra que a reinvenção não significa ruptura total, mas coragem de mudar sem negar o passado. É possível traçar paralelos com trajetórias como as de Adam Sandler, Bradley Cooper e Matthew McConaughey, que transformaram personas populares em matéria-prima para boas performances dramáticas. No caso de Johnson, o contraste é ainda mais radical. O ator associado a Terremoto: A Falha de San Andreas (2015) ou até O Fada do Dente (2010) encontra aqui uma espécie de redenção artística. Não há efeitos grandiosos nem frases fáceis. Há dor, silêncio e um corpo que carrega cicatrizes visíveis e invisíveis.


