“Esse olhar humanista do cinema é o que eu acredito que precisamos em um momento tão crítico no mundo”, afirmou o ator Lázaro Ramos durante a apresentação de Feito Pipa, que estreou no último dia 15 de fevereiro na mostra Generation Plus 14 da 76ª Berlinale. A produção brasileira concorre ao Crystal Bear, prêmio concedido pelo júri jovem da seção, cuja cerimônia acontece nesta sexta-feira, dia 20, a partir das 19h30 (horário local), no HKW – Miriam Makeba Auditorium, em Berlim.
A sessão de estreia foi marcada por emoção e um forte diálogo com o público jovem presente. Ao lado do diretor Allan Deberton, estavam Lázaro Ramos, o jovem protagonista Yuri Gomes e a veterana Teca Pereira. O filme aborda amadurecimento, memória, identidade e relações familiares em meio a um contexto social marcado por deslocamentos e desigualdades — temas que atravessaram toda a conversa após a exibição.
Sobre o que é Feito Pipa
Ambientado no Ceará, Feito Pipa acompanha Gugu, um menino de 11 anos que vive entre as memórias da mãe ausente e a forte ligação com a avó. Ele adora se maquiar e jogar futebol. Quando mudanças abruptas abalam sua estrutura familiar, ele precisa aprender a lidar com perdas, deslocamentos e com a difícil tarefa de ser aceito pelo pai, Batista. Entre lembranças musicais — como a canção “Time After Time”, de Cyndi Lauper — e afetos transmitidos entre gerações, o filme constrói um retrato delicado da infância atravessada por questões sociais mais amplas, sem perder a perspectiva sensível do olhar infantil.

Durante o debate, Allan Deberton falou sobre a decisão de realizar o projeto ao lado de André Araújo, com quem já havia colaborado em Pacarrete (2019) e O Melhor Amigo (2024). Segundo o diretor, a conexão criativa entre os dois foi essencial para dar forma à história. Ele contou que se sentiu profundamente tocado quando o projeto lhe foi apresentado.
Para Deberton, a maneira como o personagem Gugu foi construído refletia experiências pessoais e geracionais. “Era como nós nos sentíamos quando crianças, quando jovens. Estávamos tentando superar as coisas, ser nós mesmos, mas sem ter certeza sobre a nossa receptividade.” O filme nasce dessa sensação universal da juventude: o desejo de afirmação misturado à insegurança. Essa vulnerabilidade é o coração da narrativa.
A dimensão política e humanista
Embora centrado na infância e nas relações familiares, Feito Pipa carrega uma dimensão política. Deberton lembrou que cresceu no Ceará, região marcada por extremos climáticos e desigualdades sociais. “No estado do Ceará, que é uma região seca, é muito comum que haja barragens. E essas cidades são inundadas”, disse. Ele destacou que esses espaços eram lares de famílias inteiras que, de repente, precisavam partir: “Pessoas que nasceram, viveram, foram felizes e de repente tiveram que sair dali.”

Essa experiência de deslocamento forçado ecoa no filme como pano de fundo emocional. Ao falar do personagem Batista, pai de Gugu, vivido por Lázaro Ramos, o diretor ressaltou a intenção de fugir de estereótipos machistas. “Queríamos trazer complexidade, muito amor, também medo e aprendizado.” Segundo ele, trata-se de um personagem que evolui ao longo da história, sugerindo “um novo caminho”.
A escolha do elenco: Lázaro, Yuri e Teca
A escalação foi outro ponto central da conversa. Deberton revelou que o nome de Lázaro Ramos já estava presente desde as primeiras versões do roteiro. O ator confessou ter se oferecido desde a primeira vez que viu o filme Pacarrete, no Festival de Gramado 2019.
Para viver Gugu, foram testadas cerca de 700 crianças. Yuri Gomes foi escolhido após um processo rigoroso. “Sabíamos que seria uma seleção muito difícil. E Yuri foi realmente uma descoberta”, afirmou o diretor.

No palco da Berlinale, Yuri mostrou-se tímido. De mãos dadas quase o tempo todo com a preparadora de elenco, Luciana Vieira, respondia às perguntas das outras crianças com monossílabos, mas demonstrava felicidade por estar ali. Ao ser questionado se foi divertido atuar e se gostaria de seguir carreira no futuro, respondeu de forma simples: foi “muito divertido” e desejou “tudo de melhor” a todos. Antes de deixar o microfone, ainda mandou um beijo para a tia, arrancando aplausos da plateia.
“Nunca pensei que voltaria a ser protagonista. Estava muito cansada, mas levantei-me”, afirmou Teca Pereira, de 73 anos, ligada ao projeto desde o início, como destacou o diretor. Sua personagem, a avó de Gugu, é o eixo afetivo da narrativa, guardiã das memórias e da música que atravessam o filme. A atriz também pode ser vista como protagonista de Kasa Branca (2025), dirigido por Luciano Vidigal.
Sensibilizar para Impactar
Encerrando o encontro, Lázaro Ramos declarou ainda que quando recebeu o roteiro de Feito Pipa, a expectativa foi superada: “É um filme que eu acho necessário para o nosso tempo, porque além de conscientizar, faz algo muito importante, que é sensibilizar.”
Com uma estreia marcada por emoção, delicadeza e escuta atenta ao público jovem, Feito Pipa — ainda sem data de estreia definida no Brasil — chega à disputa pelo Crystal Bear como um dos títulos brasileiros mais sensíveis do festival.
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