“A vergonha precisa estar nos agressores. A falta de responsabilização cria mais silêncio e deixa sobreviventes para se curarem sozinhas.” Foi com essa declaração direta que a diretora Beth de Araújo definiu o espírito de Josephine, em coletiva de imprensa realizada na sexta-feira, dia 20. Vencedor do Grande Prêmio do Júri e do Prêmio do Público no Sundance Film Festival, o longa chegou a Berlim embalado por uma recepção crítica impressionante: 97% de aprovação no Rotten Tomatoes, com 79 críticas publicadas.
Baseado em uma memória pessoal da diretora norte-americana — brasileira por parte de pai —, o filme acompanha a experiência de uma menina de oito anos que testemunha uma agressão sexual. Em Berlim, as discussões foram marcadas por posicionamentos políticos e reflexões sobre trauma, justiça e responsabilidade social. Protagonizado por Channing Tatum e Gemma Chan, o título se consolidou como um dos mais comentados da temporada de premiações.
A origem pessoal da história
“É uma memória que tenho de quando tinha oito anos. Meu pai e eu interrompemos uma agressão no Golden Gate Park, em São Francisco. Eu queria explorar a hipervigilância que ficou depois daquele dia pelos olhos de uma menina da mesma idade”, contou Beth.

O projeto levou 12 anos para sair do papel. Seria seu primeiro longa, mas a dificuldade de financiamento — dada a delicadeza do tema — adiou a produção. Após a repercussão de Soft & Quiet (2022), exibido também em Sundance, o filme finalmente ganhou tração.
A entrada de Channing Tatum no projeto foi decisiva para viabilizar recursos, depois que o roteiro passou pelo laboratório do festival. O ator afirmou que decidiu produzir o longa por acreditar que a história precisava ser contada com honestidade e responsabilidade.
Durante a coletiva, Beth falou três palavras em português: “Oi, tudo bem?” para uma jornalista brasileira. Filha de pai goiano que se mudou para os Estados Unidos após ganhar uma bolsa de estudos — onde conheceu sua mãe —, ela mantém metade da família no Brasil, acompanha o cinema nacional e não descarta filmar no país no futuro.
Voir cette publication sur Instagram
“Minha filha me ensinou vulnerabilidade”
A jovem atriz Mason Reeves, em seu primeiro papel no cinema, foi descoberta por acaso em uma feira em São Francisco. Segundo Beth, trabalhar com ela foi menos desafiador do que se poderia supor: a menina demonstrou maturidade emocional rara. A direção optou por métodos simples e sensíveis para ajudá-la a acessar sentimentos reais, como evocar frustrações cotidianas para sustentar cenas intensas.
Tatum, também produtor executivo, contou que se esforçou para manter o ambiente leve entre as filmagens, protegendo a atriz mirim do peso emocional do tema. Falou abertamente sobre como a paternidade influenciou sua atuação: “Tenho uma filha de 12 anos. Ela me ensinou tanta suavidade e tanta vulnerabilidade que às vezes é até assustador.”

Relatou um episódio em que a filha se defendeu de um colega agressivo na escola, ecoando a dinâmica do filme: “Eu disse a ela: você nunca vai estar encrencada por se proteger. Se alguém está fazendo algo que você pediu para não fazer, tem todo o direito de se proteger. E eu vou te apoiar para sempre. E não se meta com a minha filha. Porque ela ouviu. Ela ouviu.”
Para ele, Damien, o pai de Josephine, nasce desse lugar de amor e proteção: “Damien vem de um amor profundo. Ele tenta protegê-la da maneira que aprendeu a sobreviver.” Não há fórmulas, acrescentou: “A única maneira é fazer da forma mais honesta possível, a partir dos olhos de quem conta a história.”
Um filme político sem panfleto

Embora não seja partidário, Josephine toca em um nervo exposto: a tendência da mídia e da sociedade de expor vítimas enquanto relativizam — ou silenciam — os agressores. Beth foi enfática ao defender que a vergonha precisa mudar de lado. A falta de responsabilização, disse, amplia o silêncio e o isolamento das sobreviventes.
O longa se insere em uma tradição de obras que abordam violência sexual sob uma ótica crítica e sensível, mas se distingue ao entregar a narrativa a uma menina de oito anos. Ao deslocar o ponto de vista, o filme produz uma dimensão pedagógica involuntária e talvez mais perturbadora para adultos do que para crianças.
Dados que não permitem metáforas
Segundo a Organização Mundial da Saúde, a violência sexual é um problema global de grandes proporções: cerca de uma em cada três mulheres no mundo já sofreu violência física ou sexual ao longo da vida. No Brasil, o Ministério da Justiça e Segurança Pública informou, no Mapa de Segurança Pública divulgado em junho de 2025, média de 227 estupros por dia em 2024.
Os números reforçam o que o filme sugere sem didatismo: não se trata de exceções, mas de uma estrutura social que falha sistematicamente em proteger e responsabilizar. Ao unir experiência pessoal, pesquisa jurídica — a diretora chegou a se certificar como defensora de vítimas em hospitais — e uma linguagem visual que evita flashbacks em favor de tensão contínua, Josephine constrói uma experiência imersiva e desconfortável, como o tema exige.
Não levou o Urso de Ouro da 76ª edição da Berlinale. Mas poucos filmes este ano deixaram a sala de projeção tão silenciosa. E tão exposta.
