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‘Cabo do Medo’ (1991) – Um dos melhores filmes de suspense dos anos 90 está disponível na Netflix


Nos anos 90, Hollywood vivia uma onda de remakes ambiciosos, revisitando clássicos do cinema com novas abordagens, orçamentos maiores e elencos estelares. Um dos mais icônicos desse movimento foi ‘Cabo do Medo, lançado em 1991 sob a direção de Martin Scorsese, e estrelado por Robert De Niro, Nick Nolte e Jessica Lange. Refilmagem do suspense homônimo de 1962 (no Brasil intitulado ‘Círculo do Medo‘), o longa atualizou o clima sombrio do original com uma intensidade psicológica ainda mais brutal — e se tornou um dos thrillers mais marcantes da década. Ambos os longas foram baseados no livro “The Executioners”, de John D. MacDonald.

Quase trinta e cinco anos depois, ‘Cabo do Medo continua perturbador, instigante e visualmente hipnótico. O clássico moderno está disponível atualmente no catálogo da Netflix e é uma oportunidade mais que perfeita para conhecer ou revisitar.



A trama gira em torno do advogado Sam Bowden (Nick Nolte), que vê sua vida desmoronar quando o ex-cliente Max Cady (Robert De Niro) é libertado da prisão após 14 anos e começa a persegui-lo obsessivamente. Cady, um criminoso inteligente e vingativo, culpa Sam por não ter se esforçado o bastante para defendê-lo — e decide se vingar de forma meticulosa, envolvendo não apenas o advogado, mas também sua esposa e filha adolescente (Jessica Lange e Juliette Lewis, respectivamente). O filme transita entre o suspense e o terror psicológico, com atmosfera sufocante, temas morais ambíguos e atuações inesquecíveis, especialmente a de De Niro, em um de seus papeis mais intensos. Não por menos, o ator foi indicado ao Oscar, mas terminou perdendo para outro psicopata: Anthony Hopkins como Hannibal Lecter em ‘O Silêncio dos Inocentes‘.

Cabo do Medo‘ originalmente seria dirigido por Steven Spielberg, que estava interessado na tensão crescente entre o mocinho e o vilão. No entanto, Spielberg acabou desistindo, considerando o roteiro violento demais para seu estilo. Spielberg seguiu como produtor com sua Amblin Entertainment e ofereceu o filme ao amigo Scorsese. Em contrapartida, Scorsese, retribuindo o favor, cedeu para ele a direção de ‘A Lista de Schindler, em um acordo informal que entrou para os bastidores de Hollywood. Ao assumir ‘Cabo do Medo, Scorsese decidiu não apenas refilmar o original, mas também mergulhar fundo nas complexidades éticas dos personagens e no terror psicológico da história.

Scorsese transformou o filme num estudo sobre culpa, omissão e redenção, com forte influência do expressionismo e da estética dos filmes noir. A trilha sonora, composta por Bernard Herrmann para o filme original, foi reutilizada em versão reorquestrada por Elmer Bernstein, o que reforça a sensação de homenagem e reinvenção. As técnicas de câmera, os cortes abruptos, o uso de cores saturadas e as distorções visuais criam uma atmosfera opressiva e alucinatória. Tudo contribui para dar ao espectador a sensação constante de perigo — como se Max Cady estivesse à espreita o tempo todo.

O papel de Max Cady exigiu uma transformação radical de Robert De Niro. O ator passou meses malhando intensamente para alcançar o físico ameaçador do personagem e até pagou cerca de US$5 mil para danificar os próprios dentes, tornando o visual de Cady ainda mais grotesco e intimidador. Depois das filmagens, ele desembolsou mais uma quantia para restaurá-los. Além disso, para entrar no clima, De Niro estudou padrões de fala de criminosos e adotou tatuagens falsas cheias de simbolismo religioso e carcerário, que ajudavam a compor a obsessão e o fanatismo do personagem.

Outra curiosidade interessante é que três atores do filme original de 1962 fizeram participações especiais na nova versão: os protagonistas Robert Mitchum e Gregory Peck, e também Martin Balsam. Mitchum (que na versão original era o vilão Cady) interpreta o policial durão que tenta ajudar Sam Bowden, enquanto Peck (em seu último papel no cinema), que na versão original foi Bowden, vive o advogado do vilão aqui. Balsam (que atuou em clássicos como ‘Psicose‘ e ‘12 Homens e uma Sentença‘) viveu o chefe de polícia no original e o juiz nesta versão.

Já a jovem Juliette Lewis, que vive Danielle, a filha do casal Bowden, conquistou uma indicação ao Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante por sua performance inquietante, especialmente em uma cena tensa com De Niro que ficou marcada como uma das mais perturbadoras do cinema dos anos 90. Esse papel foi considerado o divisor de águas na carreira da jovem atriz. Lewis, no entanto, então com 18 aninhos, perderia a estatueta para a descendente de cubanos Mercedes Ruehl em ‘O Pescador de Ilusões‘, drama surreal de Terry Gilliam, estrelado por Jeff Bridges e Robin Williams.

Lançado em 15 de novembro de 1991, ‘Cabo do Medo foi um sucesso de bilheteria e crítica. O filme estreou em primeira posição do ranking com US$10.2 milhões em seu final de semana, desempenho ótimo para um filme de suspense arrepiante e de censura alta – o que elimina grande parte do público. Na época, no entanto, cinema não era um programa extremamente juvenil como se tornou com o passar das décadas.

Ao final de sua estadia nas telonas, ‘Cabo do Medo‘ arracadou US$182 milhões mundiais, consolidando a parceria entre Scorsese e De Niro fora do crime urbano nova-iorquino e provou que o diretor também dominava o suspense com maestria. Além da indicação de Juliette Lewis, o longa foi lembrado por seu estilo visual ousado e pelo subtexto moral que instigava debates sobre ética profissional, justiça e responsabilidade pessoal.

O impacto cultural do filme também é duradouro: ele foi referenciado diversas vezes em séries como Os Simpsons (com o episódio paródico “Cape Feare“, estrelado por Sideshow Bob), além de ter influenciado outros thrillers psicológicos dos anos 90 e 2000. Atualmente disponível na Netflix, o filme continua conquistando novos públicos, provando que o medo — quando bem construído — é mesmo atemporal. ‘Cabo do Medo é Scorsese em sua fase mais sombria e provocadora, e ainda hoje provoca calafrios em quem ousa revisitar suas águas turbulentas.

 

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