Capitão América 2 – O Soldado Invernal

Capitão América 2 – O Soldado Invernal

Nota:


Eis o grande filme da Marvel.

Já faz algum tempo que o público vem exigindo da Marvel Studios, um pouco mais de ousadia artística, em relação à evolução de conceitos, nos seus últimos títulos lançados. Do ponto de vista temático, o que a produtora, em grande parcela, construiu é algo deveras admirável, pois transformou o subgênero movie heroes no maior filão da indústria cinematográfica americana, criando um enorme e lucrativo universo midiático. No entanto, desde o promissor Homem de Ferro (2008), não víamos nada que, realmente, fosse além do entretenimento. Talvez em passagens mais dramáticas do Thor (2011), por exemplo, sentimos certa ambiguidade no vilão Loki. Mas nada que nos fizesse refletir, digamos assim. Ou seja, apesar de tudo, uma peça importante ainda faltava no tabuleiro.

Com este emblemático Capitão América 2 – O Soldado Invernal, a produtora não só consolida tal feito, como, também, perpetra o que podemos chamar, hiperbolicamente, de melhor ou mais interessante filme já feito com o selo Marvel – sim, nem mesmo títulos elogiadíssimos como X-Men: Primeira Classe (2011), X-Men 2 (2003) e Homem-Aranha 2 (2004) conseguem bater de frente com o longa dirigido por Anthony e Joe Russo. Arrisco-me dizer que a fita é tão importante para o estúdio, quanto Batman – O Cavaleiro das Trevas (2008) foi para a rival DC.

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Logo, fica claro que alguns pontos foram fundamentais para esse acontecimento. As escolhas narrativas e abordagens temáticas dos irmãos Russo, são cirúrgicas e precisas. Assim, tomando como base estrutural a fase do escritor Ed Brubaker, na HQ do Capitão América, Anthony e Joe, diferente do que muitos pensavam, deixam de lado os ares noir-conspiratórios do conto original, e seguem uma linha mais documental, semelhante a que o cineasta Paul Greengrass empregou na franquia do agente Jason Bourne. Câmeras de mão eletrizantes, recheadas de planos detalhes, com forte impacto nas cenas de luta e perseguição. Só que, diferente de alguns diretores que emularam Greengrass, vemos, em tomadas externas, os Russo investindo em planos mais abertos, se dando ao luxo de poder contar com vários efeitos práticos, num estilo que muito parece Michael Mann, em trabalhos como Profissão: Ladrão Fogo Contra Fogo. Mesclando, organicamente, fórmulas distintas.

O roteiro da dupla Christopher Markus e Stephen McFeely, é uma atração à parte, pois, não seguindo a maioria dos títulos do gênero, possui várias subtramas e consegue desenvolver bem todas elas. Com uma enorme gama de personagens interessantíssimos, por criar, com sucesso, o processo de identificação, passamos por vários ciclos dentro da história. Primeiro no aprofundamento da amizade, depois nos conflitos da S.H.I.E.L.D.; ora nos planos internos da companhia, ora no que vai se desenvolver entre o protagonista e antagonista; ou, até mesmo, num laço de romance que passa por aqui. Nada soa desnecessário, tudo é bem posto. Os diálogos nunca são expositivos e as gags estão excelentes.

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Esteticamente, o filme também mostra-se interessantíssimo, pelo diretor de fotografia, Trent Opaloch (Elysium), usar lentes mais frias, escuras e azuladas, justamente por tratar de um conflito extremo, imprimindo um aspecto mais tenso à trama – além de fazer uma rima com a personalidade e origem do vilão. Sendo bem auxiliado pelo irretocável design de produção, assinado por Peter Wenham (O Ultimato Bourne), que prefere utilizar locações reais como avenidas e represas a cidades cenográficas ou estúdios. Tal como o figurino, criado por Judianna Makovsky (Jogos Vorazes), deixa de lado o colorido de Capitão América: O Primeiro Vingador (2011), e aposta em tons mais escuros, em que o próprio protagonista segue o esquema. Assim, a parte técnica se completa com a trilha de Henry Jackman (Capitão Phillips), que soa parecidíssima ao estilo denso das composições de Hans Zimmer (O Homem de Aço). E, não por acaso, confere um tom enigmático à película.

O cast não aparece de forma negativa, mas é o que podemos apontar como o ponto que não compromete. O Steve Rogers de Chris Evans (Scott Pilgrim Contra o Mundo), apesar de muito sério e centrado, dessa vez, ainda não passa a total imponência necessária para com o mito Capitão América. Sebastian Stan (Cisne Negro), que aqui aparece com um físico bem diferente do longa anterior, entrega um papel direto e automatizado do Soldado Invernal. Samuel L. Jackson (RoboCop) não inova e refaz seu velho Nick Fury, canastrão autoritário – dessa vez com cenas de batalhas em campo. Anthony Mackie (Guerra ao Terror), que interpreta o Falcão, apesar de seu personagem ganhar um bom destaque, tem uma tímida passagem. O veterano Robert Redford (Até o Fim) empresta seu jeitão cafajeste e dá um ar canalha ao magnata Alexander Pierce. Mas é a belíssima Scarlett Johansson (Ela) que rouba a cena aqui. Com uma ótima coreografia de luta e força no olhar, ela se entrega por inteiro ao papel.

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Pulsante em seus três atos, variando entre belíssimos planos abertos e impactantes cenas de combates corpo-a-corpo, em meio a uma trama densa, que tem como background alguns conflitos políticos, sociais e militares, Capitão América 2 – O Soldado Invernal é, sem duvidas, o que surgiu de melhor, em todos esses anos, no universo Marvel. Esperamos que seus sucessores o tomem como referência e levem um pouco mais a sério o fazer do filme. Que não se contentem, apenas, em aventuras simplórias esquecíveis. Que sejam originais, mas possuam um maior cuidado para obra, de modo geral.



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