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Confessions on a Dance Floor | Analisando o LEGADO do aclamado álbum de Madonna, que completa 20 anos


2003 se mostrou como um dos anos mais divisivos e problemáticos da carreira de Madonna. Afinal, o lançamento de American Life causou furor quando lançado, tendo uma fraca recepção crítica e tornando-se um fracasso comercial em virtude de riscos que apenas alguém como a rainha do pop poderia tomar – trazendo elementos do dubstep e da folktronica para uma crítica análise da sociedade norte-americana e denúncias acerca da beligerante e falha ideia do excepcionalismo estadunidense, tecendo duros e ácidos solilóquios sobre a indústria da guerra. Utilizando o palanque que merecidamente conquistou, a cantora e compositora mostrou-se indesculpável no tocante em transformar sua fama em testemunho político.

Ainda que redescoberto e reavaliado com o passar dos anos, American Life deixou uma marca significativa em sua carreira, com vários decretando o “fim de Madonna” como a popstar que era nos anos 1980 e 1990. Felizmente, a artista mostrou que estava pronta para revolucionar mais uma vez sua identidade ao arquitetar um dos melhores e mais importantes álbuns da história do pop – e, assim, nasceu Confessions on a Dance Floor. Lançado em 2005 e apoiando-se na repopularização do dance-pop no mainstream, Madonna construiu uma ode à música, ao prazer e às pistas de dança que, mesmo vinte anos depois de sua estreia, continua a inspirar diversas gerações de artistas musicais.



Através de 12 faixas e quase uma hora de duração, é inegável como a obra se sagrou uma das “bíblias do pop” e se imortalizou como uma testamentária declaração de que Madonna não estava e não está indo a lugar nenhum: não é surpresa, pois, que ela tenha se aliado a um time de produtores e compositores de ponta. Stuart Price, Benny Anderson, Mirwais Ahmadzaï, Joe Henry e outros foram escalados com a tarefa de construir um estandarte do prazer inenarrável que a música nos dá, esculpindo uma obra-prima que se configura como uma das melhores criações da performer e que insurge como um convite inescapável de se jogar nas pistas de dança e esquecer das preocupações.

Há uma variedade de gêneros que se espalham pelo álbum, incluindo dance-pop, nu-disco, EDM, club music, electropop, disco e kabbalah – o que não é nenhuma surpresa, considerando a mixórdia de estilos que incorporou em seus outros compilados, como Like a Prayer, ‘Erotica’ e ‘Music’. Ainda que essa aparente profusão poderia repetir os erros de um passado não muito distante, Madonna aprendeu com os erros e construiu uma linha narrativa bastante coerente e com uma progressão clara, erguendo um encontro entre passado e presente que contou com alguns de seus hits mais memoráveis, como “Hung Up” e “Sorry”.

O aspecto de maior beleza do álbum ultrapassa a nostálgica originalidade que vibra em cada uma das faixas e apresenta uma das maiores honrarias que um artista pode ter: imortalidade. É claro que Madonna já havia feito isso com outras irretocáveis produções; porém, ‘Confessions’ permanece como a última grande epopeia promovida pela rainha do pop e, até hoje, está vivo na memória popular e é objeto de comparação com qualquer incursão que lance: afinal, após o tremendo sucesso do compilado, a cantora e compositora lançou títulos como ‘Hard Candy’, ‘MDNA’, ‘Rebel Heart’ e ‘Madame X’. E, por mais que o cerne dessas produções se expanda para outros gêneros, é notável como o gostinho efêmero de ‘Confessions’ ecoando ao fundo.

Contando ainda com os singles “Jump” e “Get Together”, além de tracks incríveis como “How High”, “Let It Will Be” e “Future Lovers”, o disco foi responsável pelo aguardado renascimento de Madonna, estreando em primeiro lugar em mais de quarenta países e vendendo expressivas 4 milhões de cópias ao redor do planeta apenas em sua semana de estreia – quebrando incontáveis recordes de vendas, tornando-se um dos álbuns mais vendidos do século XXI e reiterando o incontestável lugar de Madonna como um dos nomes mais importantes da história da indústria fonográfica. E a cereja do bolo veio com a vitória na categoria de Melhor Álbum Eletrônico/Dance do Grammy Awards 2007, testemunhando a favor de uma longevidade e de uma reinvenção incontestáveis.

A constante comparação dos próprios lançamentos de Madonna a esse álbum pode ser encarado como um “tiro no pé”, de forma a nos levar a pensar se a rainha do pop conseguiria repetir os inúmeros feitos que alcançou. A genial mentalidade da artista em se reunir com produtores e compositores de confiança mostraram uma aproximação indelével do crescimento da música eletrônica dos anos 2000, que migrava do explosivo cenário Europop para as rádios e as playlists do mainstream – ora, é só nos lembrarmos que “Hung Up” e “Sorry” viralizaram no Brasil à mesma época em que os compilados conhecidos como Summer Eletrohits eram comercializados como água. Aproveitando o momento, Madonna não apenas abraçou a estética, como se tornou parte vital dela e força-motriz de uma complexa engrenagem cujos frutos são colhidos até hoje.

E, com o anúncio de Confessions on a Dance Floor 2’, que se confirmou com sua recontratação pela Warner Records e com o retorno de Price como membro de seu time criativo, mal podemos esperar para ver uma das eras mais importantes e memoráveis da música ganhar um novo capítulo.

Thiago Nolla
Em contato com as artes em geral desde muito cedo, Thiago Nolla é jornalista, escritor e drag queen nas horas vagas. Trabalha com cultura pop desde 2015 e é uma enciclopédia ambulante sobre divas pop (principalmente sobre suas musas, Lady Gaga e Beyoncé). Ele também é apaixonado por vinho, literatura e jogar conversa fora.
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