Crítica | 100 Noites de Desejo – Nicholas Galitzine e Emma Corrin em filme estilo ‘Mil e Uma Noites’

Um clássico é reconhecido como um clássico pela atemporalidade de sua história, seu tema, seus personagens. É algo que se encaixa em qualquer sociedade, em qualquer lugar, e as pessoas se reconhecem nele, se identificam. Por isso até, muitas vezes, são repaginados em outros formatos, de modo a continuarem conquistando audiências para, muitas vezes, falar de assuntos mais em voga. Acontece com o autoral ‘100 Noites de Desejo’ (100 Nights of Hero), que parte de uma releitura do clássico das arábias ‘As Mil e Uma Noites’ , misturando drama e suspense e trazendo um elenco de peso e já em cartaz nos cinemas brasileiros.


Em uma sociedade distópica, o regime patriarcal impera. Mais do que isso, é o regime do Birdman – um deus que, enciumado com a inteligência das mulheres, decidira intervir para colocar o mundo nos eixos e no controle dos homens. Desde então, as mulheres têm apenas um propósito: reproduzir. Porém, mesmo após meses de casada, Cherry (Maika Monroe, de ‘Longlegs’) não consegue engravidar, afinal, o casamento não se consumara. Mas isso não importa aos seguidores de Birdman, e, mesmo assim Cherry tem 90 dias para conceber ou será condenada à morte. No meio disso tudo seu marido decide fazer uma aposta com seu colega Manfred (Nicholas Galitzine, o novo ‘He-Man’): duvida que ele consiga seduzir sua esposa, e, caso o faça, ganhará seu castelo. Começa assim um jogo de sedução entre o ambicioso Manfred e a inocente Cherry, que, felizmente, tem a fiel governanta Hero (Emma Corrin, a princesa Diana de ‘The Crown’) para ocupá-los durante esse tempo, contando uma história envolvente.

Já nos primeiros minutos podemos perceber que ‘100 Noites de Desejo’ se dedica inteiramente a uma construção estética com intuito de nos remeter ao imaginário da fantasia e dos contos de fada, com cores fortes contrastantes, um figurino conservador que se opõem a cortes modernos e detalhes contemporâneos, num misto de imaginário e realidade, entre o atemporal e o hoje. Uma ótima combinação dos trabalhos da diretora de fotografia, Xenia Patricia, da figurinista Susie Coulthard, da diretora de arte Naomi Bailey, e da responsável pelo design de produção, Sofia Sacomani. Vale ressaltar: todas mulheres.


Escrito por Isabel Greenberg e Julia Jackman, o filme parte do mote clássico de ‘As Mil e Uma Noites’ (onde Sheherazade, uma rainha persa, para escapar da morte, entretinha o sultão com histórias sempre deixando um gancho para o dia seguinte, prendendo-o pela curiosidade sem fim) para colocar em xeque as garras do machismo e do patriarcado, questionando quem tem direito ao próprio corpo, às supostas liberdades sociais, ao pensamento crítico e ao ir e vir. Tudo isso construído de uma maneira que ao mesmo tempo que nos remete a referências contemporâneas, como ‘O Conto da Aia’ e ‘The Handmaid’s Tale’, também nos transporta para uma sensação etérea entre a alta fantasia e a Idade Média.

Tudo isso é entregue por uma trinca de atores supertalentosos que trazem pra telona exatamente aquilo que precisamos deles numa produção desse porte: charme, mistério, sedução, força – cada um a seu modo, de acordo com o caráter de seus personagens. Nicholas Galitzine, Emma Corrin e Maika Monroe nos envolvem a cada um dos noventa minutos na tela.

Misturando o clássico árabe da literatura para falar de feminismo em tempos contemporâneos, o sensual ‘100 Noites de Desejo’ hipnotiza, numa interessante mistura de cinema autoral com o experimental e um elenco hollywoodiano de rostinhos conhecidos que atrai o público no intuito de ver uma história construída por mulheres para falar das mulheres – mas para o público geral. É o cinema independente, daqueles que só vemos em festivais, felizmente chegando ao circuito comercial.

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Janda Montenegro
Janda Montenegrohttps://cinepop.com.br
Janda Montenegro é doutora-pesquisadora em Literatura Brasileira no Programa de Pós-Graduação em Letras da UFRJ com ênfase nas literaturas preta e indígenas de autoria brasileira contemporâneas. De origem peruana amazônica, Janda é uma palavra em tupi que significa “voar”. Desde 2018 trabalha como crítica de cinema nos portais CinePOP e Cabine Secreta. É curadora, repórter cultural, assistente de direção e roteirista. Co-proprietária da produtora Cabine Secreta e autora dos romances Antes do 174 (2010), O Incrível Mundo do Senhor da Chuva (2011); Por enquanto, adeus (2013); A Love Tale (2014); Três Dias Para Sempre (2015); Um Coração para o Homem de Lata (2016); Aconteceu Naquele Natal (2018,). O Último Adeus (2023). Cinéfila desde pequena, escreve seus textos sem usar chat GPT e já entrevistou centenas de artistas, dentre os quais Xuxa, Viola Davis, Willem Dafoe, Luca Guadanigno e Dakota Johnson.