InícioCríticasCrítica 2 | 'Jurassic World: Recomeço' é uma OFENSA à franquia de...

Crítica 2 | ‘Jurassic World: Recomeço’ é uma OFENSA à franquia de Steven Spielberg


Jurassic Park é um filme incomparável. Principal fenômeno cinematográfico de sua época, ele reinventou o conceito de Blockbuster, inspirou uma revolução cultural na Coreia de Sul e foi o grande responsável pelas crianças da década de 1990 desenvolverem amor pelo cinema. É uma obra daquelas que marcam e mudam vidas, fazendo que gerações se apaixonem por dinossauros e sonhem com aventuras para além da imaginação. Uma obra-prima desenvolvida com muito esmero por Steven Spielberg e Michael Crichton, autor que adaptou o próprio livro para os cinemas.

Com o sucesso comercial e de críticas, fazer o filme virar franquia já era esperado. Ao longo dos anos seguintes, a saga ganhou dois novos capítulos. Apesar de não chegarem aos pés do original, ambas as obras trouxeram novas perspectivas e novas espécies para as telonas, fazendo bastante sucesso junto ao público. Em 2015, em um reviravolta, a franquia ganhou uma nova chance com o nome de Jurassic World. Essa nova empreitada, ambientada no mesmo universo, trouxe o parque funcionando e planejava desenvolver uma trama dos dinossauros soltos pelo mundo novamente e qual seu impacto na sociedade. Apesar de alguns problemas de execução e um grande desgaste da saga, eles conseguiram arrecadar quase 4 bilhões de dólares com os três filmes. O último, inclusive, parecia fossilizar de vez a franquia.



Infelizmente, a vida encontrou um meio: a ganância do estúdio. Anunciado meio de surpresa, Jurassic World: Recomeço chega aos cinemas nesta semana em uma história que requenta a trama de pelo menos quatro dos sete capítulos da saga. A grande diferença é que o diretor dessa nova aventura era o nome mais promissor da franquia desde a saída de Spielberg. Gareth Edwards se notabilizou com filmes que exploram o suspense e a aventura por meio de um trabalho sensacional de escalas, representando em tela a real dimensão de monstros e armas gigantes, como em Godzilla (2014) e Rogue One (2016). E sabe o que é o pior? Nem mesmo a presença dele é capaz de salvar o público desta bomba. Na verdade, por saber que é um profissional de sua competência por trás das câmeras, a experiência acaba sendo ainda mais arruinada.

A trama se passa anos após os eventos de Jurassic World: Domínio (2022). Os dinossauros seguem soltos pelo mundo, mas estão sendo extintos gradativamente por conta das questões climáticas. Os poucos sobreviventes caminham pelas ruas dos EUA ou foram levados para uma ilha no Equador, onde o calor e a alta concentração de oxigênio permitem que eles sobrevivam. Curiosamente, essa ilha é também um laboratório da InGen, no qual os cientistas do Jurassic World cozinhavam dinossauros híbridos lá pra 2010 e descartavam os “defeituosos”, criando um ambiente extremamente hostil e repleto de bestas voadoras, dinossauros com duas cabeças e um monte de besteiras mais que só aparecem mortas no laboratório. Nesse contexto, a indústria farmacêutica descobre um potencial medicamento para prevenir doenças cardíacas, mas precisa de amostras de DNA de um Mosassauro, um Titanossauro e um Quetzalcoatlus. Coincidentemente, as três espécies disponíveis na ilha, veja você. Pois bem, o empresário contrata Zora (Scarlett Johansson), uma mercenária, e obriga um consultor de paleontologia, o Dr. Henry (Jonathan Bailey), a embarcarem em uma missão com ele para extraírem as amostras de DNA na ilha.

Homem e mulher observam atentamente em campo de milho

Se o filme se prestasse a ser apenas um filme de assalto, no qual o grupo vai com seu bando para a ilha, uma porção de coadjuvantes morrem de forma escabrosa e eles voltassem felizes para casa com a sensação de dever cumprido, talvez cativasse pela beleza da mesmice. Um feijão com arroz bem-feito, apostando na ação e aventura. O problema é que a trama soca no caminho desse grupo um núcleo familiar extremamente insuportável. O pai mais irresponsável da história do cinema decide levar as duas filhas – e o namorado maconheiro de uma delas – para atravessar o oceana em um veleiro. Porém, no caminho, eles acabam sendo atacados pelo Mosassauro e são “resgatados” pelos mercenários. No fim das contas, ambos os grupos param na ilha dos Dinossauros da Shopee, o que prejudica demais o ritmo da narrativa.

Essa divisão tira todo o impacto das aventuras – e perdas – dos mercenários farmacêuticos, porque não deixam que sua jornada tenha continuidade. A partir do momento em que eles chegam na ilha, toda vez que chegam as poucas cenas de ação, o diretor intercala essa aventura com cenas extremamente vergonhosas do pai tentando se entender com o namorado da filha. Essa relação entre pai e namorado é a pior ideia dentre todas as más ideias às quais essa franquia já sobreviveu. Primeiro porque o namorado é um imbecil. A cada aparição do infeliz, a torcida é para que um dinossauro apareça e estraçalhe o rapaz por completo. Já o pai… Sério, cadê o conselho tutelar? Ele é o pai presente mais ausente da história do cinema. Em momento algum o ator Manuel Garcia-Rulfo consegue passar qualquer sinal de preocupação para com as “filhas”. Se o filme falasse que ele era um advogado que foi obrigado a cuidar das crianças do casal ao qual está mediando o divórcio, talvez passasse um pouco mais de credibilidade. Seu papel é tenebroso. Sem contar que ele machuca a perna assim que chega a ilha e logo aparece escalando montanha, correndo de dinossauro. Realmente muito difícil de compreender seu papel ali.

Na verdade, isso se estende até mesmo às filhas. A garota mais velha tem uma participação minimamente importante em um conflito, enquanto a caçula foi inserida na trama exclusivamente para justificar a presença da Dolores, a “dinossaurinha de bolso” que ela adota. Falando sério, não fosse a Dolores, a menina seria completamente insignificante. E isso fica nítido porque o filme faz a garota entrar em greve de silêncio por cerca de 90% da história. Se ela tem oito falas nas duas horas de filme, é muito. A sensação que fica é que Edwards e David Koepp, um dos roteiristas do Jurassic Park original, quisessem muito adaptar passagens do livro que não entraram nos outros filmes e tivessem escrito esses personagens intragáveis para tentar emular fidelidade à história. O problema é que isso faz deles tentativas patéticas de alívios cômicos – eles não têm graça – e não cria o mínimo de empatia do público por eles. É sério, se caísse uma pedra gigante em cima deles, ninguém se importaria.

O mais frustrante de tudo é assistir ao filme percebendo que todas as situações anticlimáticas vividas pela família do barulho poderiam ser facilmente integradas ao núcleo dos mercenários, que chegam a ensaiar um rascunho de carisma, e poderiam render momentos memoráveis. Essa divisão dos grupos é realmente uma tragédia. Isso porque Bailey e Johansson criam personagens que poderiam render e ganhar mais desenvolvimento. As poucas cenas que prestam dessa bomba são protagonizadas por eles, mas acabaram ficando de lado para dar espaço a esse grupo familiar insuportável.

Fugindo dos personagens, o roteiro é ofensivo. Ninguém vai ao cinema ver um filme de dinossauros com a expectativa de sair com reflexões filosóficas, apesar do primeiro Jurassic Park ser genial justamente por levantar esses questionamentos de forma orgânica. Para muitos, basta ser uma trama que leve os personagens para um buraco com dinossauros, eles corram por duas horas e apenas 1/3 deles retorne vivo para casa, após muitas mortes e aventuras. Só que nem isso Jurassic World: Recomeço consegue fazer. Dentro da franquia Jurassic, fazer um filme ruim, mas divertido, chega  ser aceitável. Agora, fazer um filme chato? Impossível. Ao menos, era o que eu acreditava. ‘Recomeço’ conseguiu a façanha de colocar uma das atrizes mais carismáticas de Hollywood para fugir de dinossauros em uma produção extremamente chata e cansativa. Imperdoável.

Mais do que isso, a divisão dos dinossauros é muito irregular. Apesar de ter o D-Rex, o suposto dinossauro mais ameaçador de toda a franquia, ele é completamente esquecido até os 15 minutos finais do longa. Enquanto isso, o filme tem algumas cenas de ação interessantes, como o ataque do Mosassauro e a perseguição do T-Rex no rio. Mas é uma ação tão isenta de consequências, que no primeiro ataque você já sente que nenhum rosto conhecido ali vai morrer. Se você não desenvolve essa sensação de que ninguém está a salvo, a ação e o suspense perdem o peso.

Outra frustração gigante é que nem mesmo a famosa característica de Gareth Edwards de explorar as escalas das criaturas se deu aqui. Dinossauros do tamanho de aviões aparecem entrando em cavernas apertadas até para seres humanos, o tal do Velociraptor voador é outro que aparece gigante em um momento e logo depois aparece perseguindo gente dentro de um cano. Nem mesmo o tal do D-Rex é bem explorado nos seus 15 minutos de fama. Primeiro porque não dá pra ver nada além da testa do cidadão. Segundo, ele é retratado sempre no escuro. Não fossem o brinquedo dele lançado nas lojas, ninguém saberia realmente como ele é. E isso poderia ser usado para criar tensão suspense, só que deixa apenas a sensação de que pouparam despesas e optaram por não animar o resto do corpo do boneco.

Para não dizer que o filme é um fracasso completo, existe uma cena, a de contemplação dos Titanossauros, que realmente é bem realizada. Tudo ali funciona e causa um deslumbramento. De resto, Jurassic World: Recomeço não é apenas uma aberração prejudicial a sua própria existência. Esse filme é lesivo ao resto da franquia, não só pelos retcons que promove, mas principalmente porque ele é ruim a ponto de desgastar a imagem dos dinossauros. Saí da sessão e passei em frente a uma loja de brinquedos que tinha uma banner gigante da T-Rex. Olhei e senti tristeza, quase uma repulsa. A impressão que fica é que Gareth Edwards é o maior ‘hater’ da saga Jurassic Park e se infiltrou neste filme disposto a destruir e urinar em cima do legado de Steven Spielberg e Michael Crichton. E ele fica muito próximo de conseguir.

Existem poucos pecados no mundo capazes de se igualar à destruição da aura dos dinossauros para pessoas que cresceram com os filmes de Jurassic Park, e Jurassic World: Recomeço consegue fazer isso. É lesivo a sua memória afetiva, é como se Gareth Edwards abusasse dos dinossauros por 2h, amarrando o público na poltrona, enquanto assiste sem ter como impedir a consumação dessa crime. É imperdoável. Se existia um plano para fazer mais filmes da saga, esse capítulo enterra qualquer resquício de esperança, porque é ofensivo. Às vezes, a extinção nem é tão ruim assim. Talvez, ‘Recomeço’ seja o asteroide que vai por fim à passagem da franquia Jurassic nos cinemas. Um fim desrespeitoso, chato e melancólico, é verdade, mas um fim definitivo.

Jurassic World: Recomeço estreia nos cinemas em 3 de julho de 2025.

Pedro Sobreirohttps://cinepop.com.br/
Jornalista apaixonado por entretenimento, com passagens por sites, revistas e emissoras como repórter, crítico e produtor.
MATÉRIAS
CRÍTICAS

NOTÍCIAS