Todo mundo sabe: pai e mãe depois que cresce dá um trabalho! Por mais doloroso que seja, por mais que amemos nossos familiares, ninguém dura para sempre, e chega um momento em que precisamos nos despedir. Se tivermos sorte, a despedida é tranquila e temos o tempo necessário para encaminhar os assuntos e resolver as pendências. Ainda assim, dói, e ficamos tristes, e um buraco eterno fica em nosso peito ao qual damos o nome de saudade, quando pensamos em tudo aquilo que gostaríamos de ter vivido ou compartilhado com aquele ser querido que já partiu. Esse buraco, infechável, é o tema de ‘Se Eu Fosse Vivo… Vivia’, novo filme de André Morais Oliveira que levou três prêmios no Festival de Brasília (incluindo Melhor Filme) e que foi o longa de abertura do 20º CineBH.
Quando ainda eram jovens, nos anos 1970, Gilberto (Jean Paulo Campos) e Jacira (Thainá Evaristo), apaixonados, viveram uma experiência extraterreste. Desde então, quarenta anos se passaram, os dois, casados, compartilharam uma vida inteira de cumplicidade e amor, ao ponto de hoje, já idosos, um ainda apoiar o outro e trocarem fofocas e brincadeiras entre si. Porém, quando Jacira (Conceição Evaristo, escritora premiadíssima e estreante no campo da atuação, excelente no papel) passa mal na rua e precisa ir ao hospital, o episódio deixa Gilberto (Norberto Novais Oliveira, igualmente ótimo) desnorteado, sem rumo, e ele passa a vagar pelas ruas sem encontrar seu caminho de volta à casa.
Em um primeiro momento, ‘Se Eu Fosse Vivo… Vivia’ pode parecer um longa de ritmo devagar, arrastado até – mas, lembremos: os mineiros não têm pressa, né? A questão é que tudo (e sobretudo o ritmo) desse filme é pensado para que o impacto do significado dos acontecimentos entre no espectador sem causar desolação. Em outras palavras (e aqui nos apropriamos da temática da produção para fazer uma analogia), é como quando temos uma notícia ruim para dar, mas, com muita sensibilidade e tato, vamos colocando as informações pouco a pouco para que a pessoa consiga absorver a notícia sem ser atropelada por ela.
Respeito, sensibilidade, delicadeza e zero ansiedade são os pilares que regem a direção e o roteiro de André Novais Oliveira, um dos diretores da Filmes de Plástico e que, à frente dessa produção, traz um filme baseado na sua própria experiência de luto e ausência a partir da perda de sua mãe. É, no mínimo, bastante corajoso da parte dele compartilhar todo seu sentimento de dor e colocá-lo em um filme que busca conectar as feridas dos espectadores de uma maneira reconfortável, tal qual um abraço carinhoso e consolador.
O roteiro, aliás, repleto de metáforas e analogias, trabalha o tema aos poucos, e divide a história de amor desse casal em três tempos, como se fossem três filmes: o primeiro, da juventude, recheada de cores e música; o segundo, já em tons pastéis, tem o sabor de café da tarde com bolinho, um casal de idosos que vive suas rotinas de maneira afetuosa e desapressado; por fim, após a perda, o desnorteamento que provoca a perda da luz: o plano abre, o protagonista se funde à paisagem na ausência de si mesmo até a solução final, onde, por fim, a luz se apresenta em plenitude e há a sublimação.
E ‘Se Eu Fosse Vivo… Vivia’ é tão pensado que, num primeiro momento, o espectador pode achar que talvez não tenha gostado tanto do filme, que queria ser arrebatado. Mas, como já dissemos e repetimos: calma, é um filme mineiro. É preciso ir até o fim dos créditos, prestar atenção na belíssima e doloridíssima letra da música-tema ‘Esquecer de Tudo’, de Hyldon, encaixar verso a verso com a história de Jacira e Gilberto e, por fim – aí sim – se deixar arrebatar pela avalanche de sentimentos e de costuras tão delicadas feitas pelo roteiro (e a vida) de André Morais.
‘Se Eu Fosse Vivo… Vivia’ é, já, um dos melhores filmes do ano, e certamente um dos mais sensíveis. Faz do fim de uma história de amor um gancho para uma experiência que beira entre o realismo mágico mineiro e a ficção científica latino-americana – ou o contrário, mas não importa. Para ver, sentir e abraçar quem você ama.

