Crítica 2 | ‘Super Mario Galaxy: O Filme’ é uma aventura que entende perfeitamente seu público



Por anos, uma nova adaptação cinematográfica da franquia Super Mario Bros. foi um grande tabu dentre os estúdios. Isso porque o trauma deixado pela versão live-action dos anos 1990, estrelada por Bob Hoskins e John Leguizamo, foi tão grande que ajudou a consolidar um dos estigmas mais injustos de Hollywood nos anos 2000: o de que histórias de videogames não funcionam nas telonas.

Após algumas outras tentativas falhas, a maré começou a virar em 2019, quando Pokémon: Detetive Pikachu chegou às telonas e conquistou público e crítica, mantendo-se fiel ao universo adaptado, mas usando uma linguagem mais cinematográfica. No ano seguinte, mesmo com a pandemia, Sonic: O Filme se tornou um sucesso dentre a molecada, adotando a mesma fórmula do ratinho amarelo. No entanto, por mais sucesso que esses filmes tenham feito, nenhum deles deu tão certo quanto a adaptação do grande rosto da Nintendo. Lançado em 2023, Super Mario Bros. O Filme apostou no riquíssimo universo dos jogos para contar uma história simples e divertida que abria portas para a criação de um novo universo cinematográfico compartilhado. Era uma investida ambiciosa, mas os mais de 1.3 bilhão de dólares arrecadados foram um grande indício de que a Illumination estava no caminho correto.

Sem precisar se preocupar com as possíveis “reações negativas” do público ao ver os videogames na telona, o estúdio chegou com os dois pés na porta, empurrando elementos clássicos da mitologia do encanador italiano em uma trama simples e conservadora. Para não dar a sensação de deixar a aventura muito jogada, eles criaram um contexto familiar para os Irmãos Mario e, a partir daí, foi videogame purinho, com direito ao eterno rival, Donkey Kong, sequências de Mario Kart e um Bowser vivido pelo Sr. Carisma, Jack Black – que ainda emplacou o hit “Peaches” nas principais plataformas de streaming de música, o que ajudou a promover ainda mais o filme. O resultado? Sucesso absoluto e uma sequência confirmada.

E se tem uma coisa que Hollywood sabe fazer é aprovar sequências com mais liberdade para seus realizadores quando a primeira aventura bate a marca do bilhão. Coringa (2019) está aí para provar isso. Entretanto, ao contrário da franquia do Príncipe Palhaço do Crime, a equipe de Super Mario Bros. realmente queria fazer um novo filme e usou essa maior liberdade para romper as amarras da trama mais conservadora do primeiro capítulo, investindo pesado em uma nova aventura 100% voltada para o mundo dos videogames, incluindo suas ferramentas narrativas. E foi assim que nasceu Super Mario Galaxy: O Filme, o grande Blockbuster de 2026 até o momento.

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A trama desta nova aventura começa exatamente de onde o primeiro filme acabou. Aqui, porém, eles optam por abandonar 99% do núcleo da Terra (fica resumido a um flashback sensacional de um novo personagem) – mostrando que aquela subtrama humana do longa de 2023 provavelmente foi uma pedida do estúdio, que visava ter um checkpoint para a saga caso as abordagens mais fantasiosas não dessem tão certo. Como a reação do público foi amar tudo que remetia aos games, o núcleo descartado acabou sendo o da relação familiar dos encanadores. Pois bem, Mario e Luigi seguem com seu trabalho de desentupir canos, só que no reino mágico da Peaches. Tratados como heróis, os irmãos resolvem problemas dos cogumelos, enquanto mantém o Bowser encolhido em um castelo em miniatura.

O que eles não esperavam, no entanto, é que o Rei Koopa tinha um filho perdido por aí, o pequeno e maquiavélico Bowser Jr., um geniozinho do mal que não vai poupar esforços para resgatar o pai, nem que isso signifique capturar todas as princesas do universo para roubar sua energia vital e carregar uma arma capaz de destruir toda a existência. Após sequestrar Rosalina, o vilãozinho vai atrás do pai. Ele só não sabia que a irmã da princesa, Peaches, sairia em uma aventura pela galáxia para resgatá-la, deixando Mario, Luigi e o dinossaurinho Yoshi na proteção do Reino dos Cogumelos. Faz sentido um negócio desses? Não, mas funciona nos videogames e, mais importante, funciona muito bem no filme.

Os jogos do Mario são contados por meio de fases bem segmentadas, quase como esquetes, que acabam se conectando nas sequências de embate. E esse formato de esquete vem sendo trabalhado com frequência na Illumination, principalmente na comédia dos Minions. Com a expertise, o time adotou essa estratégia narrativa para o longa, que tem uma trama central, mas a desenvolve por meio de “fases” de seus dois núcleos. A aventura de Peaches e Toad é mais focada na expansão desse universo cinematográfico da Nintendo, enquanto a “missão” de Mario, Luigi e Yoshi remonta mais aos videogames clássicos da saga.

E é justamente nessa fidelidade aos games que o longa cativa. A produção entendeu certinho o público que tem como alvo e adaptou uma fórmula praticamente infalível da Illumination para divertir a molecadinha com seu típico estilo de humor infantil e cativar os marmanjos com a nostalgia dos videogames que marcaram diferentes fases de suas vidas. É uma história simples, muitas vezes bobinha e sem sentido, só que todo o ambiente construído, as situações adaptadas e os personagens que aparecem, demonstram tanto carinho que fica impossível não embarcar nessa aventura.

Essa simplicidade talvez seja o maior trunfo da saga. O histórico da franquia nos cinemas já mostrou que o público não quer muita invenção. Os fãs se apaixonaram pelas tramas dos jogos e não foram muito receptivos lá nos anos 1990, quando os estúdios tentaram transformar a história de dois irmãos encanadores que pisam em tartarugas em uma história de máfia. Se a essência da saga é a fantasia, não tem motivo para o cinema não abraçar essa ideia.

Não existe explicação para as viagens espaciais, para os poderes dos protagonistas ou as armas do vilão, porque o longa assume que os fãs já compraram o funcionamento dos jogos. E dá certo, porque é simples. É como diria o Chicó: “não sei, só sei que foi assim”. E isso basta para os fãs. Ao mesmo tempo, o filme chega a abordar brevemente umas questões mais profundas, como a necessidade de validação do pai que motiva o Bowser Jr., ou a busca pelas origens da princesa Peaches, mas não vai muito a fundo. São questões que rendem momentos diferentes e poderiam ser um pouco mais trabalhadas, é verdade, só que claramente não é o foco da franquia.

A cada novo capítulo que passa, fica mais nítido como Super Mario Bros. caminha para ser o Universo Cinematográfico Marvel dessa geração. Uma prova disso é a chegada do Yoshi, que é simplesmente encantador. Esse ladrãozinho de cena nasceu para ser o coadjuvante perfeito, porque basta ele aparecer em tela para todos os olhos se voltarem para ele. Carisma puro em forma de dinossauro. Além dele, a chegada de Fox McCloud – que traz um gancho incrível para um spin-off de Starfox – prova que o público está mais do que pronto para uma adaptação de Super Smash Bros., o videogame que reúne as principais franquias da Nintendo em uma aventura só, que fatalmente será realizado após um terceiro capítulo da franquia solo do Mario.

Enfim, Super Mario Galaxy: O Filme é uma aventura divertidíssima que encanta pela fidelidade ao material original. Há momentos em que o longa consegue recriar com perfeição a sensação de sentar no sofá depois da aula, desligar a mente e jogar com Mario, Luigi e Yoshi em cenários como a Terra das Areias Movediças e afins, em meio a uma gama de personagens extremamente carismáticos. É um filme sem compromisso que, por sinal, consegue ser muito melhor na versão brasileira do que na original. Por mais que o Jack Black seja incrível como Bowser, foi a dublagem brasileira quem melhor entendeu a essência dos personagens. Uma salva de palmas para Manolo Rey, Raphael Rossatto, Charles Emmanuel, Felipe Drummond e tantos outros craques da arte brasileira que deram ao filme uma aura especial ao abraçarem as características dos videogames nos heróis das telonas.

Super Mario Galaxy: O Filme está em cartaz nos cinemas.

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Pedro Sobreiro
Jornalista apaixonado por entretenimento, com passagens por sites, revistas e emissoras como repórter, crítico e produtor.

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Pedro Sobreiro
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