Durante muito tempo a jovem Kara foi conhecida pelo público como a prima do Superman. Apesar de ter seu público leitor dos quadrinhos, a história dessa super-heroína não conseguia furar a bolha de seu nicho, restrita apenas aos leitores fiéis dos quadrinhos da DC. Até mesmo numa tentativa de alcançar novos fãs – e, quem sabe, angariá-los para o DCEU – chega essa semana nos cinemas o live-action ‘Supergirl’, a aventura que conta a história pouco conhecida do grande público desta jovem heroína que trilha o próprio caminho.

Kara Zor-El (Milly Alcock, de ‘House of the Dragon’) acaba de completar 23 anos e não sabe o que fazer da vida. Ela passa os dias e as noites em busca de emoções, enchendo a cara pelos bares da galáxia e fugindo de qualquer contato com seu primo Clark (David Corenswet, de ‘Superman’), que insiste que ela passe um tempo na Terra para tentar criar raízes em algum lugar. Mas a verdade é que desde que perdera seu planeta e sua família, Kara não encontra motivos para continuar em lugar algum. Até que seu caminho cruza com o de Ruthye (Eve Ridley, da série ‘The Witcher’), uma menina cuja família fora assassinada pelo cruel Krem (Matthias Schoenaerts, de ‘A Garota Dinamarquesa’) e que busca vingança. Quando a vida de Krypto é ameaçada pelo grupo de Bandoleiros, Kara se junta à Ruthye atrás de Krem.
Os efeitos visuais e especiais utilizados são de boa qualidade e conseguem estilizar o ambiente ficcional extraterrestre, além de dar expressões emocionais a Krypto, o que ajuda a criar um vínculo afetivo do espectador à situação que o cãozinho está enfrentando. Para um filme de super-herói, a parte técnica de ‘Supergirl’ entrega exatamente o que se espera e o que precisa existir para esse gênero de produção.
Não há sombra de dúvida de que há um esforço de Milly Alcock para entregar o seu melhor ao dar vida à Kara, mas talvez essa seja justamente a questão: o esforço é visível. E, aí, as coisas não saem naturais, tudo parece atuação e pouco crível, desde ela se fazendo de embriagada a até ela quebrando tudo por ser a pessoa mais forte em cena. O espectador não consegue se distanciar da atriz e embarcar na sua Kara por não haver nada de super em cena.

O roteiro de Ana Nogueira baseado no personagem criado por Jerry Siegel e Joe Shuster traduz bem a ambientação de ficção científica e na energia das HQs para um longa-metragem, mas faltou carisma à protagonista. Passa uma sensação de que a personagem, apesar de ser mulher, busca agradar ao público masculino consumidor dos filmes de herói; embora saibamos a tragédia pela qual a protagonista passou, o excesso de cenas em que ela tem náuseas, faz xixi de porta aberta, vomita, arrota, se mostra embriagada, fala grosserias e solta frasezinhas de efeito como se fosse a última bolacha do pacote cansa. E, aí, quando Kara finalmente assume o uniforme da Supergirl, já estamos na reta final do longa.
Mas é quando finalmente Jason Momoa entra em cena pra valer com seu Lobo que o nível do filme se eleva. Carismático e experiente, mesmo entregando a mesma energia de seus outros papéis, com o Lobo cabe exatamente o tipo de atuação que Momoa se dispõe, e Lobo parece realmente feito sob medida. Fica até um gosto de ter um pouco mais de tela para o personagem.
Irregular, o filme de Craig Gillespie busca agradar a todos os públicos, quando podia ter construído uma ‘Supergirl’ na qual as meninas se espelhassem com orgulho. É um filme que entrega o entretenimento seguindo a cartilha, mas não empolga, e que sinaliza para diversas possibilidades de universo compartilhado com Superman e outros vertentes.




