Crítica 2 | Thor: Amor e Trovão – Taika Waititi Coloca o Thor de Volta aos Eixos em Aventura Rock’n Roll

Thor’ dispensa apresentações. Nem o ser mitológico nórdico nem o herói da Marvel precisam mais serem explicados, pois o mundo inteiro já se acostumou a ver suas representações aparecerem nos cinemas e séries da cultura pop. Mas o ‘Thor’ interpretado por Chris Hemsworth é aquele que conquistou uma geração inteira de fãs no mundo inteiro, e ele volta hoje às salas de cinema com sua mais nova continuação, ‘Thor: Amor e Trovão’.

Depois de conhecer o amor, perder o irmão, o pai e a mãe, ver o mundo se dizimar e derrotar Thanos, Thor (Chris Hemsworth) hoje é um cara zen e equilibrado. Mesmo trabalhando junto com os ‘Guardiões da Galáxia’, ele permanece em paz consigo mesmo, interferindo nas batalhas apenas quando sua ajuda é pedida. Até ele perceber que uma nova ameaça está colocando em risco os asgardianos e os deuses de todo o universo: um novo vilão ateu surgiu, Gorr (Christian Bale), e ele está matando todos os deuses, um a um. Assim, Thor decide deixar Peter Quill (Chris Pratt) e companhia e, junto a seu amigo Korg (Taika Waititi), volta à sua cidade natal para se juntar ao Rei de Asgard (Tessa Thompson) no combate à nova ameaça… mas acaba se deparando com uma situação inesperada: seu antigo Mjolnir agora está sendo empunhado por um novo Thor (Natalie Portman), e isso abalará a confiança do herói.

Desde as cenas de abertura de ‘Thor: Amor e Trovão’ o público já tem a certeza de que está prestes a assistir a um filmão! E não é para menos: o início do longa é totalmente acelerado, energético, uma aventura embalada pelo frenesi das guitarras do Guns N’ Roses que faz a gente se sentir num verdadeiro Rock in Rio das galáxias. E é essa a pegada mesmo. Apesar de Thor ser o cara equilibrado, ele chega com essa atitude meio Mark Wahlberg de aparecer para salvar a pátria, com movimentos musculares que faz o nível da testosterona subir no ambiente. Com muita marra, Thor é o cara, e não há como concorrer com um deus perfeito.

Taika Waititi encontra o ponto certo para transformar o personagem querido da molecada em um sujeito responsável, mas que não perde a ternura. Depois de anos acompanhando o filho de Odin ganhando confiança e se tornando um homem adulto, finalmente o personagem atinge o autocontrole emocional e psicológico necessários para grandes decisões – aquelas que serão tomadas a partir de agora na sua trajetória no MCU. E Taika constrói esse fim de arco para o protagonista de maneira empática e afetiva, aproximando o espectador da dor e glória de sua jornada pessoal.

Outro ponto maravilhoso do roteiro de Taika é que ele se baseia no poder da narrativa oral para construir o mito do herói – algo que não vinha sendo abordado pelo universo da Marvel e que é de fundamental (posto que faz a fundação, a base) para que o mito dos heróis (nórdicos, gregos, romanos, etc) se perpetue pelo tempo e chegue a nós, meros mortais humanos. ‘Thor: Amor e Trovão’ é todo narrado, com as histórias dos grandes feitos sendo contadas por locutores para o público ou pelos próprios personagens às crianças da história, mostrando, novamente, o poder da contação para a formação de público e para a solidificação de ideias no imaginário popular. É assim que os heróis surgem e é assim que eles permanecem na eternidade.

Thor: Amor e Trovão’ é um filme que mesmo quem não é fã do personagem ou que nem acompanha tanto a Marvel irá gostar – inclusive o público feminino, uma vez que o diretor Taika pensa nessa fatia de mercado e entrega um protagonista com roupinhas apertadas (e às vezes sem roupa), com muito charme e frases de efeito que fazem a mulherada suspirar. Também as crianças pré-adolescentes se sentirão contempladas, com muitas piadas bobalhonas e personagens que entram apenas para trazer ainda mais comicidade ao enredo. Por fim, também o público nerd será agradado por finalmente ver Thor deixando de lado a autopiedade e voltando aos eixos do heroísmo que se espera dele.

Com muitas cores e muito rock’n roll, ‘Thor: Amor e Trovão’ é um dos filmes mais completos em aspectos técnicos e afetivos do universo da Marvel, tornando-se, surpreendentemente, um filme para toda a família.

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Janda Montenegro
Janda Montenegrohttps://cinepop.com.br
Janda Montenegro é doutora-pesquisadora em Literatura Brasileira no Programa de Pós-Graduação em Letras da UFRJ com ênfase nas literaturas preta e indígenas de autoria brasileira contemporâneas. De origem peruana amazônica, Janda é uma palavra em tupi que significa “voar”. Desde 2018 trabalha como crítica de cinema nos portais CinePOP e Cabine Secreta. É curadora, repórter cultural, assistente de direção e roteirista. Co-proprietária da produtora Cabine Secreta e autora dos romances Antes do 174 (2010), O Incrível Mundo do Senhor da Chuva (2011); Por enquanto, adeus (2013); A Love Tale (2014); Três Dias Para Sempre (2015); Um Coração para o Homem de Lata (2016); Aconteceu Naquele Natal (2018,). O Último Adeus (2023). Cinéfila desde pequena, escreve seus textos sem usar chat GPT e já entrevistou centenas de artistas, dentre os quais Xuxa, Viola Davis, Willem Dafoe, Luca Guadanigno e Dakota Johnson.