InícioCríticasCrítica | 2ª temporada de 'Gen V' tem início regado a sangue...

Crítica | 2ª temporada de ‘Gen V’ tem início regado a sangue e à irreverência


Crítica livre de spoilers.

The Boys se tornou uma das séries mais populares do Prime Video por uma série de razões – mas a principal delas, talvez, seja a maneira como se tornou um assustador reflexo de uma sociedade estadunidense que, cada vez, se utiliza de conceitos falhos para refletir um senso se superioridade que, na verdade, não existe. Funcionando como uma grande sátira para os emblemas super-heroicos do ultranacionalismo americano e abrindo espaço para críticas sobre o totalitarismo, o fascismo, o nazismo e a luta de classes, o tremendo sucesso da atração lhe rendeu não apenas um spin-off animado, mas um ótimo projeto derivado intitulado ‘Gen V’.

Entrando em sua segunda temporada, cujos três primeiros episódios foram lançados hoje, 17 de setembro, na plataforma de streaming, a atração ofereceu uma perspectiva ainda mais original acerca de personagens metahumanos ao nos convidar a conhecer a controversa Universidade Godolkin, fundada sob preceitos condenáveis e que remodelam o conceito do excepcionalismo americano através de incursões irônicas que são elevadas à enésima potência. E, ao sermos convidados para retornar a esse cosmos, percebemos que a showrunner Michele Fazekas sabe exatamente o que está fazendo aos nos encantar com reviravoltas inesperadas e um mistério envolvente que envolve cada um dos protagonistas e coadjuvantes.



A trama se inicia alguns meses depois do fim da temporada anterior e traz dois núcleos principais que se convergem em uma irruptiva e frenética sucessão de eventos: Marie Moreau (Jaz Sinclair), tendo escapado de Elmira, mas deixando para trás os seus amigos, está foragida enquanto tenta descobrir o paradeiro da irmã, enquanto Emma Meyer (Lizze Broadway) e Jordan Li (London Thor e Derek Luh) retornam a Godolkin a pedido de Cate Dunlap (Maddie Phillips) – lidando com a contínua e excruciante dor da perda de Andre Anderson (Chance Perdomo). O que eles não imaginavam é que, à luz do assassinato de Victoria Neuman (Claudia Doumit) e da ascensão do Capitão Pátria (Antony Starr) ao poder, as coisas virariam de cabeça para baixo com a chegada de um novo reitor conhecido apenas como Cipher (Hamish Linklater).

Eventualmente, Marie se torna alvo de um perigoso mercenário e se vê forçada a voltar para Godolkin (o único lugar em que estará a salvo), sendo recebida por Cipher com uma agridoce sensação de que ele esconde algo. Afinal, o reitor estava em Elmira mais de uma vez quando ela e seus amigos estavam presos e torturados – levando Marie a tentar entender o que está acontecendo. E isso não é tudo: Cipher é um defensor voraz da superioridade dos heróis frente os humanos, proferindo discursos assustadores que mobilizam os estudantes da universidade a se voltarem contra aqueles que lhe fazem mal e que os enxergam como aberrações, apoiando-se em uma perigosa retórica cuja intenção é criar um bode expiatório e uma cortina de fumaça para encobrir a verdadeira podridão de Godolkin.

Mantendo o altíssimo nível estético e narrativo do ciclo anterior, a nova temporada do spin-off é indesculpavelmente sarcástica e se aproveita da contínua ascensão da extrema-direita para calcar diálogos e personagens com estereótipos exagerados de tradicionalistas, retrógrados e conspiracionistas – e que, de maneira inexplicável, singra entre uma tênue linha que mescla comédia, drama, suspense e ação. No trio de episódios que abre essa iteração, Fazekas escala nomes como Ellie Monahan, Jessica Chou e Cameron Squires para arquitetar pequenas joias do entretenimento, materializando um microcosmos que em momento algum se deixa render às obviedades e aos convencionalismos.

À medida que o tenso escopo do segundo ciclo transforma-se em um barril de pólvora prestes a explodir, o trabalho do elenco é imprescindível para nos garantir um aproveitamento máximo do que nos é presenteado: Sinclair, Broadway, Phillips e tantos outros que reprisam seus papéis cultivam incursões mais complexas para os personagens que interpretam, delineando as respectivas personalidades com mais profundidade e com mais “áreas cinzentas” que os colocam frente a frente com dilemas morais. Porém, o destaque vai para a presença magnética e aterrorizante de Linklater como o reitor Cipher, sagrando-se como um dos melhores performers do ano em uma atuação vilanesca clássica e recheada de pequenas sutilezas que o transformam em um psicótico e vingativo metahumano.

‘Gen V’ retorna com uma leva de episódios que promete não apenas o mesmo nível da iteração anterior, como superá-la – e parece que já está fazendo isso com a primeira trinca de capítulos. Respaldando-se na maximização irônica e no condicionamento dos personagens a um cenário inescapável e incontrolável de jogos mortais de poder e de controle, o spin-off de The Boys começa com o pé direito e nos deixa animados para saber o que irá acontecer nas próximas semanas.

Thiago Nolla
Em contato com as artes em geral desde muito cedo, Thiago Nolla é jornalista, escritor e drag queen nas horas vagas. Trabalha com cultura pop desde 2015 e é uma enciclopédia ambulante sobre divas pop (principalmente sobre suas musas, Lady Gaga e Beyoncé). Ele também é apaixonado por vinho, literatura e jogar conversa fora.
MATÉRIAS
CRÍTICAS

NOTÍCIAS