Crítica | ‘A Aparição’: A inexplicabilidade daquilo que não se pode ver

Crítica | ‘A Aparição’: A inexplicabilidade daquilo que não se pode ver

Nota:

O Cristianismo se fundamenta naquilo que não se pode ver. Guiado pelos olhos da fé, ele consiste mais na percepção apurada que vai além do óbvio e daquilo que é palpável na percepção humana. Para um jornalista cético, habituado às atrocidades mais severas do Oriente Médio e calejado por uma repentina perda, isso pouco importa. Aquém a este universo transcendental, ele parece orbitar em torno de uma dialética que desconhece, em meio a um contexto ainda mais específico, onde as regras e a ortodoxia católicas vigoram a plenos pulmões. E sem convicções específicas, ele vai tentar encontrar respostas para uma misteriosa história oral, que o levará a descobrir não apenas a importância dos simbolismos religiosos desta denominação, bem como a profundidade e dubiedade daquela fé que – para os que não creem – precisa ser quase ‘comercializada’ como fisicamente tocável. A Aparição é um suspense francês onde fé e religiosidade disputam um espaço inabitável.

O drama com toques de thriller, dirigido por Xavier Giannoli, leva Jacques (Vincent London) para os átrios do Vacatino, se tornando quase um líder de uma investigação canônica que visa provar ou não a aparição de Maria. Supostamente vista por uma jovem de olhos azuis, sua experiência sobrenatural começa a percorrer o pequeno vilarejo francês onde acontecera, atraindo naturalmente curiosos e fiéis que buscam por fragmentos tangíveis dos relatos da Bíblia. Uma das figuras bíblicas mais famosas na face da Terra então começa a ganhar corpo diante dos olhos humanos e para provar sua autenticidade (ou não), o repórter de guerra tenta usar seus argumentos jornalísticos para encontrar uma resposta definitiva. A busca, no entanto, ganha ares mais drásticos, desenrolando-se em um inesperado assassinato brutal. E em um conflito de narrativas, o roteiro de Giannoli, Marcia Romano e Jacques Fieschi se divide entre as páginas do obituário e as páginas do Livro Sagrado.

Com uma trama que explora as motivações dos personagens e o idealismo da religiosidade e seus respectivos símbolos, A Aparição cativa por ser intrigante, mas se torna um tanto cansativo por ser longo demais. Com um roteiro deveras ofegante, a narrativa vez ou outra caminha em círculos, freia o desenrolar dos fatos e torna morosa uma investigação mais simples do que de fato se apresenta inicialmente. Entretanto, por não temer se achegar na psique humana e no fascínio que a fé promove ao redor do mundo, o longa é capaz de recuperar seu fôlego na maior parte da vezes, sendo absolutamente entregue nas atuações tão díspares de London e Galatéa Bellugi – que encara Anna, um convicta noviça que, apesar das variáveis questionadoras, se sustenta em sua plena convicção daquilo que não se pode ver, mas é possível sentir.



Reflexivo, com uma fotografia simples – que se destaca em seus momentos finais em solo árido -, A Aparição tem uma direção intimista, que passeia pelas reações dos personagens, explora a luz natural, além da solidão e quietude dos mais diversos espaços. Mostrando que existe muito mais que as vãs teorias mundanas têm a oferecer sobre a existência e persistência humana e da criação de tudo, o drama revela uma sensibilidade mais apurada sobre a inexplicabilidade daquilo que não se pode ver. Sem tomar partidos doutrinários, a produção francesa mantém o diálogo sobre fé, religião e religiosidade em aberto, ao expor uma história oral que não se fundamenta tanto naquilo que é visto. Expressando o valor que os signos e sinais possuem para a construção cultural e religiosa de um povo, A Aparição não traz as respostas que tanto busca e não o faz justamente pelo fato de elas não se encontrarem em um simples lenço manchado de sangue. E como o próprio filme demonstra, há sempre quem fuja do transcendental, mas seu fascínio permanece inerente, quer ele seja algo real ou meramente imaginário.

 

 


 





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