Narrativas distópicas costumam partir de tropos bastante conhecidos, seja em qualquer área da criação artística: desde a queda da civilização moderna à ascensão de um governo totalitário, passando pela criação de grupos dissidentes e rebeldes que enfrentam um antagonista em comum e pincelando toda a atmosfera com incursões sci-fi, são inúmeras as produções que trazem esses elementos à tona. Apenas a encargo de exemplificação, temos ‘Jogos Vorazes’, ‘Expresso do Amanhã’, ‘Maze Runner’, ‘Mad Max’ e outros títulos como exemplos que conquistaram o público e a crítica e que deram origem a uma série de produções similares. Mas o que acontece quando a estrutura épica de obras do gênero é acobertada com um potente drama psicológico?
É a partir disso que ‘A Avaliação’, filme recém-chegado ao catálogo do Prime Video, se desenrola. O longa, estrelado por Alicia Vikander, Elizabeth Olsen e Himesh Patel, reduz a arquitetura epopeica e grandiosa e nos leva a uma sociedade controlada por um rígido governo que obriga todos a ingerir uma substância esterilizante a fim de controlar o crescimento populacional desorganizado, em virtude da escassez de recursos naturais – e que culmina, inclusive, no extermínio completo de animais de estimação para garantir a continuidade da raça humana. Aqueles que se voltam contra as imposições são mandados ao Velho Mundo, sem possibilidade de retornar e marcados como perigosos cismáticos que podem colocar tudo a perder.

Nesse contexto, Mia (Olsen) e Aaryan (Patel) vivem um dia após o outro preparando-se para a dádiva de ter um filho – que só pode ser concedido pelo Estado e através de um procedimento em que a criança é gerada fora do útero e com o material genético dos progenitores. Vivendo em uma área isolada e focando em desenvolvimentos que ajudem a sociedade, o casal recebe a visita de uma avaliadora oficial chamada Virginia (Vikander), que revela que irá acompanhá-los em um intenso e detalhado processo que durará uma semana e que, eventualmente, terminará numa resposta positiva ou negativa (e definitiva, visto que a palavra final da responsável pelo caso é a que conta e não pode ser alterada). O que Mia e Aaryan não esperavam é que a avaliação se transformaria em um tormento psicológico trazendo à tona todos os sacrifícios necessários que um infante traria à vida deles – e que levaria Virginia a se comportar como uma criança em seus piores dias.
Como podemos ver, a ambientação costumeira das distopias é descontruída e transformada em um poderoso e visceral suspense intimista que nos arrebata desde os primeiros momentos e nos conduz em uma montanha-russa de sentimentos que reflete na realidade que enfrentamos – e que lança luz a questões parentais que são discutidas até hoje. Mia e Aaryan, ao perceberem as provas pelas quais Virginia os faz passar, se veem arremessados em um vórtice de sentimentos que é traduzido com honestidade máxima para os espectadores, garantindo um envolvimento completo e inescapável à medida que confrontamos nossa própria pequenez perante forças incontroláveis. As metáforas por trás do enredo são mascaradas pelos tropos da ficção científica e por incursões sociopolíticas profundas, materializadas no arquétipo de cada personagem.

Cada membro do elenco faz um trabalho digno – desde Patel, mergulhando de cabeça em uma personalidade traumatizada e que busca realização completa no desejo desesperado de formar uma família, até a cirúrgica presença de nomes como Indira Varma e Minnie Driver. Entretanto, Olsen e Vikander são as grandes estrelas da narrativa ao se entregarem de corpo e alma a interpretações fabulosas e intrínsecas, compartilhando de uma química esplendorosa e tendo seus respectivos momentos de glória ao estarem em cena sozinhas. Olsen nos presenteia com o que apenas podemos encarar como uma das melhores atuações de sua carreira, navegando pelas dúvidas e pela autossabotagem de Mia, enquanto Vikander retorna às glórias de sua versatilidade ao eternizar a ingênua Virginia em uma tocante performance.
O trabalho artístico tangencia a impecabilidade: Fleur Fortuné faz uma gloriosa estreia diretorial ao assumir as rédeas desse ambicioso projeto, imortalizando uma estrutura cênica que coloca cada persona em conflito máximo com seus medos mais profundos. A cineasta parte do sólido roteiro assinado por Dave Thomas, Nell Garfath-Cox e John Donnelly, além de se aliar com a habilidosa construção fotográfica de Magnus Nordenhof Jønck, que transforma cada frame em uma pintura atemporal. E isso não é tudo: as incursões convergem para a utilização pontual de uma obra de arte conhecida, ‘Composição com Vermelho, Amarelo e Azul’, de Piet Mondrian, ressignificando a ideia de equilíbrio para mostrar que o conceito de harmonia é utópico e inalcançável.

Concluindo-se em uma mistura irretocável de pessimismo, otimismo e realismo, ‘A Avaliação’ sagra-se como um dos melhores títulos do ano por contar com grandes nomes à frente e atrás das câmeras – desenrolando-se de forma a reformular os convencionalismos dos dramas distópicos sci-fi e garantindo uma experiência maximizada que nos deixa em êxtase mesmo depois dos créditos de encerramento subirem.
