Se você esperou meses, como eu, por esta nova temporada, já te adianto que o frenesi não para e o último episódio entrega ao espectador uma descarga de adrenalina apenas para te arremessar em outra. Já na terceira temporada, A Diplomata continua sendo uma das poucas séries da atualidade que é impossível deixar o próximo episódio para o dia seguinte, tornando a experiência viciante. Depois do anúncio bombástico de um novo presidente nos Estados Unidos, os protagonistas devem retraçar todos os seus planos e próximos passos.
Criada e produzida por Debora Cahn — responsável, ao lado de Aaron Sorkin, por The West Wing – Nos Bastidores do Poder (1999–2006) —, a série mantém o mesmo DNA de tensão política e diálogos afiados, mas ganha, nesta terceira temporada, um tom mais íntimo e moralmente provocante, com o rompimento definitivo do casamento entre Hal Wyler (Rufus Sewell) e Kate Wyler (Keri Russell), embora na vida pública eles vivam como um casal separado pelo dever cívico. Com ritmo intenso e ironia bem medida, o roteiro dessa temporada se debruça sobre como as decisões públicas nascem de fragilidades privadas.

Nesta nova fase, Hal Wyler mostra ao público exatamente como Kate o vê — um manipulador encantador e imprevisível, sempre com uma carta escondida. Só que agora, sua necessidade de controle o leva a trair a confiança de Kate, num movimento que nos faz duvidar se é medo de perder poder ou uma estratégia real para chegar, possivelmente, à sala oval da Casa Branca, tal como Francis Underwood (Kevin Spacey) em House of Cards (2013-2018).
Tanto que os dois primeiros episódios são consagrados à reorganização política e os papéis que Hal e Kate desempenharam nos Estados Unidos, ou seja, quem será o próximo vice-presidente no lugar de Grace Penn (Allison Janney)? A nova presidenta precisa trabalhar bem a sua imagem para o país e, sobretudo, os seus aliados políticos. Pessoalmente, Kate a despreza por conta dos seus atos desesperados em busca de uma força política externa, e, portanto, vê-se no papel de observá-la de perto. Até que ponto, no entanto, Grace permitirá essa aproximação?
Allison Janney continua impecável e altiva e, agora com ainda mais destaque na série. A protagonista Kate, por sua vez, exibe uma versão mais assertiva e complexa de si mesma. Ela finalmente se permite seguir seus próprios impulsos, mas sem jamais perder o controle. Os desejos estão mais à flor da pele, mas o salto alto continua firme, e o terninho enxuto segue como sua armadura simbólica. Ainda que pareça deslocada do luxo e da pompa do cenário político, é justamente essa diferença que a torna uma negociadora implacável. É nos bastidores, longe das câmeras, que Kate demonstra o alcance real de seu poder.
A entrada do fotógrafo Callum Ellis (Aidan Turner) — informante e amante em potencial — adiciona uma camada intrigante à narrativa. Sua presença faz com que Hal revele seu lado mais vulnerável e ciumento, enquanto Kate se permite explorar o risco de agir além do seu dever de funcionária estadunidense. O sentimento entre os dois permanece ambíguo, construído em olhares e em um passado que a série apenas sugere e, nem nessa terceira temporada, nos fornece flashbacks profundos do seu passado para compreendermos as suas reais ambições e escolhas, já que nesses oito novos episódios Kate vive uma dualidade tanto profissional, quanto pessoal: primeira-dama vice-presidente e embaixadora no Reino Unido; esposa e amante.

A grande mudança política vem com Grace Penn, agora presidenta dos Estados Unidos. Sua ascensão altera completamente a dinâmica entre Washington e Londres. Determinada a defender os interesses americanos a qualquer custo, Grace rompe a relação de confiança que Kate acreditava ter consolidado. O embate entre as duas é uma das melhores partes da temporada — intenso, elegante e carregado de subtexto. A força de uma mulher que comanda o país contra outra que o representa fora dele cria um espelho fascinante sobre poder e lealdade.
Os coadjuvantes continuam essenciais, especialmente Eidra Park (Ali Ahn) e Stuart (Ato Essandoh), que equilibram o peso dramático da série com momentos de humanidade e ironia. Já o universo político em si mantém a proposta de Cahn: não é uma reprodução das tensões reais do mundo, mas um laboratório de hipóteses — uma série sobre o “e se?”, como o primeiro-ministro Nicol Trowbridge (Rory Kinnear) faz declarações levianas em rede nacional, e o principal conflito da série é sempre ético. O que cada personagem faz, ou deixa de fazer, para manter o poder segue sendo o tema central.

Com ritmo impecável, atuações refinadas e um roteiro que nunca subestima o espectador, A Diplomata – 3ª Temporada reafirma seu lugar entre os dramas políticos mais inteligentes e instigantes da atualidade. Kate Wyler se torna aqui uma figura completa, vulnerável e impenetrável ao mesmo tempo, e Keri Russell confirma, mais uma vez, por que é uma das melhores atrizes da televisão contemporânea, tantas vezes nomeada a prêmios, porém sem a glória da vitória.
Contar qualquer outro detalhe do enredo seria um spoiler desnecessário. Apesar de estar há três anos no ar, a série se passa em menos de 365 dias e os conflitos iniciais ainda provocam redemoinhos e desdobramentos. No fim, o tabuleiro muda, as alianças se quebram, mas Kate permanece de pé e, claro, de terno e calças pretas.
