Crítica | A Esposa – Glenn Close (e Jonathan Pryce) em poderoso drama de relações

Crítica | A Esposa – Glenn Close (e Jonathan Pryce) em poderoso drama de relações

Nota:

A Dama Oculta

Sim, a indústria do cinema é cruel com seus veteranos. Com as mulheres ainda mais, porém, astros como Robert De Niro, Al Pacino e Anthony Hopkins tampouco encontram alívio nesta fase de suas carreiras. Em geral a sociedade privilegia os jovens. No mundo do entretenimento, pouco são os artistas que se aposentam. Os que continuam ativos na terceira idade, se adequam a uma nova realidade. Nada de errado nisso, já que a juventude gosta de se ver em cena, e se identificam com os nomes quentes do momento. Afinal era isso exatamente o que fazíamos nesta idade. Para os adultos, filmes adultos, obras maduras. Menos espaço.

Não é dizer que não exista papel para tais atores. Bons papeis são outros quinhentos. E quando surgem, precisam ser enaltecidos. É exatamente este o caso com A Esposa, filme dirigido pelo sueco Björn Runge, que traz um dos grandes desempenhos da carreira da veterana Glenn Close. De fato, como dito pela própria, o projeto demorou 14 anos para sair do papel. Baseado no livro de Meg Wolitzer, o longa vem colocando o nome da atriz nos holofotes e depois do último Globo de Ouro (no qual venceu na categoria de drama), Close finalmente pode surgir como favorita no Oscar – e deixar para trás a maré de azar que já dura seis indicações sem vitória.

Este, no entanto, não é o caso de “premiar a veterana pelo conjunto da obra”. Nada de piedade ou solidariedade aqui. Close faz por merecer e entrega uma das performances interiorizadas mais soberbas dos últimos anos. Na trama, a atriz vive Joan Castleman, a fiel esposa de um erudito escritor – papel de Jonathan Pryce (outro veterano ganhando sobrevida). Quando o sujeito recebe seu tão almejado prêmio Nobel de literatura, cabe à escudeira seguir a seu lado para receber as honrarias na Europa. Nesta jornada, o roteiro vai revelando aos poucos, mais sobre quem verdadeiramente são essas pessoas além de marido e mulher vivendo felizes para sempre -  e para que tudo se esclareça, flashbacks sobre o início do relacionamento na juventude também entram em cena. De forma inteligente, estas peças se encaixam e montam toda a base para que recapitulemos com outros olhos tudo o que vimos até então.


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O arco da protagonista é igualmente interessante, e a forma como Close a desempenha é pura aula de interpretação. É ver um artista no topo de seu jogo, dando tudo de si e mostrando o que sabe. Simplesmente edificante. Joan, que sempre viveu na sombra do marido, compreensiva e incentivadora, recebe do companheiro todas as homenagens imagináveis em seus discursos de agradecimento. Mas por que ela parece tão inquieta quanto a isso? Por que seu semblante se fecha a cada dedicatória? Sim, esta é uma trama mais complexa do que aparenta, assim como os psicológicos de seus protagonistas. A Esposa é 45 Anos (de Andrew Haigh) com reviravoltas em seu roteiro.

Enquanto Jonathan Pryce é pura explosão em seu retrato do egocêntrico autor, Close corre pelo outro espectro, ficando talvez com a parte mais difícil e não reclamando disso. De frustração em sua carreira, a atriz não carrega nada. Esta não é uma atuação rancorosa em busca de prêmios. É o trabalho grandioso de uma talentosa intérprete, como se fosse seu primeiro grande papel. A leveza e falta de maneirismos (do tipo “olhem, estou atuando”) da performance é o que mais a faz sobressair, criando um intenso ar naturalista.

A Esposa delineia bem seus atos, criando igualmente um exemplo de narrativa eficiente. Sim, é um filme de atores, mas também não desperdiça todo o resto. Na primeira etapa, se comporta como um drama comportamental, descortinando um relacionamento de décadas, assim como o citado filme com Charlotte Rampling fez em 2015. No segundo trecho, percebemos o conflito e que algo está errado. Damos voz para a esposa – sempre nas sombras – e vemos através de seus olhos que tal posição não é mais confortável (ou talvez nunca tenha sido). No terceiro ato, a erupção e as incríveis revelações – muitas das quais nos pegam completamente desprevenidos. Tais reviravoltas podem vir a incomodar alguns, mas fazem todo sentido dentro do proposto.

A Esposa é melancólico, representativo e sim, trata de abuso passivo de uma forma digna de ser discutida. Dá voz e empodera a mulher, mesmo que tenha passado grande parte da vida inerte. Mas igualmente é humano e emotivo, chegando a causar aquele famoso nó na garganta em seu encerramento. O longa apenas reforça o quão falhos são seres repletos dos mais diversos sentimentos e sensações, por mais que queiramos controlá-los e mecanizá-los num mundo correto. Seria ir contra a natureza.





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