Já ouviram dizer que os franceses têm um tipo de humor muito peculiar? Difícil de entender? É exatamente assim o filme ‘A Excêntrica Família de Gaspard‘, que chega aos cinemas brasileiros hoje.

Terceiro filme do diretor Antony Cordier, a comédia dramática em seu original em francês se chama ‘Gaspard vai ao casamento‘, o que aponta o direcionamento que a história quer tomar. Porém, o título em português se adequa melhor ao que de fato o filme é: a história de uma família muito unida, mas também muito ouriçada.

Gaspard (Félix Moati) está viajando de trem, quando o veículo para abruptamente. Os passageiros descem para saber o que está acontecendo e, ao caminhar pelos trilhos, o jovem acaba tropeçando em uma moça, que se algemou na linha do trem junto com um grupo de ativistas em sinal de protesto. Só que a moça está meio desmaiada, e ele a leva para dentro. Quando começam a conversar, Laura (Laetitia Dosch) revela que é uma mochileira e que só estava algemada porque os ativistas estavam dando comida grátis. Ao ouvir aquilo, Gaspard lhe faz uma proposta: que o acompanhe à casa de seu pai e participe como sua acompanhante da festa de casamento que vai acontecer, afinal, chegar sozinho numa festa dessas é muito chato. Mediante o pagamento de 50 euros por dia, ela topa.

O que Laura não esperava encontrar era que a tal casa do pai na verdade fosse um sítio enoooorme, com um zoológico dentro. Sério. Um zoológico, aberto à visitação do público, com direito a girafas, leões, hipopótamos etc. . Só que ao conhecer o resto da família, o espectador percebe que eles são um pouquiiiinho disfuncionais: o pai tem um problema de pele que está descamando, e, como tratamento, ele entra numa banheira cheia de peixinhos que ficam comendo a pele morta (detalhe: entra pelado na banheira, na frente dos filhos, para fazer uma reunião); o irmão do meio, Virgil, parece o mais normal, mas tem inveja de Gaspard, pois todos o amam, e, por isso, se sente um burro fracassado.

Merece destaque especial a irmã mais nova, Coline (Christa Theret), que, depois de ter perdido seu urso (de verdade), entrou numa paranoia de que ela mesma era um urso, andando para cima e para baixo com a pele do animal pendurada nas costas. Não bastasse isso, ela ainda vive um crush com o irmão mais velho – uma relação pseudo-incestuosa que não se realiza, mas é sugerida, e que incomoda mais do que qualquer outra doideira do filme.

Ao ter um zoológico como pano de fundo de sua história, Antony Cordier aproxima a natureza humana com o que de fato ela é em seu íntimo: sórdida, animalesca, que come, se acasala e mata por puro instinto. Somos todos criaturas sujeitas aos impulsos de nossa espécie, sejam elas quais forem. O pai, em determinado momento, chama os filhos para lhes dizer que a ideia de abrir um zoológico era para propiciar que os seres humanos entrassem em contato com a história da natureza, para que pudessem observar a seleção natural das espécies. Entretanto, como outros tipos de entretenimento surgidos no final do século XIX, o zoo hoje em dia caiu no desprezo do público, seja pela luta da liberdade dos animais, seja pela concorrência com outros programas, como a internet e o cinema. De certa forma, o zoológico é uma analogia, hoje, ao próprio cinema, que também caiu na lista da preferência do público como opção de diversão, perdendo para as plataformas de streaming.

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Olhando mais profundamente, o enredo nos lembra o de ‘O Grande Circo Místico‘, cujo pano de fundo é o circo, outra instituição em decadência no mundo, e que também tem uma família cheia de pecados e sordidezes. Porém, ao contrário do filme brasileiro, ‘A Excêntrica Família de Gapard‘ é simplesmente excêntrica mesmo, não são criminosos nem pessoas degradantes – eles apenas enxergam a existência humana como parte do ciclo da Natureza, e todos os seus atos são justificáveis pela natureza animal. O filme flerta com o absurdo, porém com um absurdo real, posto que, na hora da sobrevivência, nos tornamos todos animais.

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