Crítica | A Fera do Mar – Netflix Lança uma GRANDIOSA aventura animada com um ótimo ensinamento

A época chamada de “período das grandes navegações” inspirou muitas histórias de aventuras e desbravamentos. Durante séculos as pessoas foram embaladas por relatos de grandes criaturas marinhas, monstros em ilhas remotas, animais desconhecidos e terras inexploradas. Essa fonte inesgotável de peripécias culminou em invasões territoriais das Américas e de África, por exemplo, mas também originou ficções incríveis que ecoaram nos séculos, como “As Vinte Mil Léguas Submarinas” e “Viagem ao Centro da Terra”, do escritor francês Jules Verne, escritas no meio do século XIX e que já foram adaptadas cinematograficamente. Esse tempo em que o ser humano se lançou ao desconhecido até hoje serve como fôlego para criações ficcionais, como a mais nova animação da NetflixA Fera do Mar’, que desde sua estreia pulou para primeiríssimo lugar no Top 10 da plataforma.

Maisie (na voz original de Zaris-Angel Hator) é uma jovem órfã que vive em um abrigo e costuma entreter os colegas de quarto contando-lhes as histórias do navio Inevitável, que narra as destemidas aventuras de Capitão Corvo (Dan Stevens, de ‘Gaslit’), o corajoso caçador Jacob (Karl Urban, o Butcher de ‘The Boys’, que recentemente esteve em São Paulo e falou com o Cinepop) e a fiel imediata Sarah Sharpe (Marianne Jean-Baptiste). Insatisfeita com seu destino, Maisie decide fugir do orfanato e se infiltrar no navio Inevitável, certa de que poderá contribuir com a caçada aos monstros marinhos que tanto atormenta a vida das cidades costeiras. Porém, ao conhecer a criatura mais temida dos mares – a quem dá o nome de VermelhaMaisie começa a desconfiar de que a história talvez esteja mal contada, e que os fatos possam não ter sido como dizem nos livros.

Um pouco longo demais para uma animação infantil (afinal, tem duas horas de duração) ‘A Fera do Mar’ é um filme emocionante e empolgante para todas as idades. O primeiro arco é um pouco confuso e se estende em demasia, por quase quarenta minutos, e mistura a história da pequena criança com a do navio, deixando em aberto em que momento termina a história real e em que momento começa a ficção. Ainda que devagar, o roteiro de Chris Williams com Nell Benjamin se desenvolve pacientemente, trabalhando a relação criança-adulto ao mesmo tempo em que desvenda a misteriosa guerra entre humanos e animais. Este último ponto é, de fato, o grande trunfo e o mote do longa, concluindo em um final emocionante que faz valer todo o filme.

Curiosamente, ‘A Fera do Mar’ é o projeto queridinho do diretor Chris Williams, ao ponto de fazê-lo pedir demissão da Disney após 25 anos de empresa e seguir com seu sonho – que, vejam bem, se tornou o mais visto da Netflix. Não à toa, os espectadores poderão reconhecer traços e técnicas que nos remete às produções da empresa do Mickey Mouse – e também um mote que foi trabalhado recentemente por ela de outra maneira, em ‘Luca’. Fazer o quê né.

Criteriosamente desenhado e com uma bela mensagem que atenta os espectadores a perceberem que a história com H maiúsculo é contada pelos vencedores, não pelos que foram invadidos, derrotados e massacrados, ‘A Fera do Mar’ é uma grande aventura com um ótimo ensinamento. Emociona tal qual ‘Como Treinar Seu Dragão’, mas deixando os animais soltos na natureza – que é como deve ser.

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Janda Montenegro
Janda Montenegrohttps://cinepop.com.br
Janda Montenegro é doutora-pesquisadora em Literatura Brasileira no Programa de Pós-Graduação em Letras da UFRJ com ênfase nas literaturas preta e indígenas de autoria brasileira contemporâneas. De origem peruana amazônica, Janda é uma palavra em tupi que significa “voar”. Desde 2018 trabalha como crítica de cinema nos portais CinePOP e Cabine Secreta. É curadora, repórter cultural, assistente de direção e roteirista. Co-proprietária da produtora Cabine Secreta e autora dos romances Antes do 174 (2010), O Incrível Mundo do Senhor da Chuva (2011); Por enquanto, adeus (2013); A Love Tale (2014); Três Dias Para Sempre (2015); Um Coração para o Homem de Lata (2016); Aconteceu Naquele Natal (2018,). O Último Adeus (2023). Cinéfila desde pequena, escreve seus textos sem usar chat GPT e já entrevistou centenas de artistas, dentre os quais Xuxa, Viola Davis, Willem Dafoe, Luca Guadanigno e Dakota Johnson.