Crítica | A Flor do Buriti – História e Luta do Povo Krahô Ganha Filme Que Mistura Ficção, Documentário e Fantástico



Quem são os povos indígenas brasileiros? Quais são suas histórias, suas origens, seus costumes? Quais são as mais de 300 línguas diferentes dos mais de 270 povos originários que neste território habitam em resistência? Embora estejamos em 2024, fato é que este Brasil ainda é muito desconhecido pela maioria dos brasileiros. Felizmente, o cinema tem sido um grande aliado na projeção das vozes desses povos e ferramenta fundamental para levar as histórias originárias para dentro da casa das pessoas. Um bom exemplo é o longa ‘A Flor do Buriti’, que após ser exibido em mais de 100 festivais ao redor do mundo e de ganhar o prêmio de elenco coletivo na mostra Um Certo Olhar no Festival de Cannes ano passado, chega a partir dessa semana ao circuito exibidor nacional.

a flor do buriti 05

- Ads -

Em 1940, duas crianças do povo indígena Krahô encontram na escuridão da floresta um boi perigosamente perto da sua aldeia. Era o prenúncio de um violento massacre, perpetrado pelos fazendeiros da região. Em 1969, durante a Ditadura Militar, o Estado Brasileiro incita muitos dos sobreviventes a integrarem uma unidade militar. Hoje, diante de velhas e novas ameaças, os Krahô seguem caminhando sobre sua terra sangrada, reinventando diariamente as infinitas formas de resistência e buscando aliar-se com outros povos em prol da luta coletiva indígena a nível nacional.

O principal elemento que o espectador deve prestar a atenção é que a narrativa em um filme indígena (ou mesmo indigenista) não acompanha os padrões lineares comumente vistos em produções ocidentais de grande abrangência. Isto dito, em ‘A Flor do Buriti’ o espectador pode observar três movimentos narrativos. O primeiro deles, construído de maneira quase lúdica, parte de uma história conhecida pelo povo Krahô, sobre quando um boi enfurecido começou a rondar uma aldeia e como crianças desse povo tentaram proteger a aldeia da constante tentativa e invasão por parte de fazendeiros e grileiros da região; a segunda parte faz certa transição entre o lúdico, a ficção e o real, trazendo um olhar sobre as múltiplas campanhas feitas na região Norte do país para recrutar pessoas indígenas (em sua maioria, homens) para compor unidades militares que visavam controlar e abrir estradas por entre o Amazonas; por fim, a narrativa se aproxima do hoje, dentro de um contexto ainda de pandemia, em que as lutas a nível nacional (como o Acampamento Terra Livre, em abril, e a Marcha das Mulheres Indígenas, em setembro) ganharam maior espaço na mídia.

a flor do buriti 06

- Ads -

Para contar essa trajetória do povo Krahô os diretores Renée Nader Messora e João Salaviza (que realizaram ‘Chuva é Cantoria na Aldeia dos Mortos’) ouviram Patpro, Hyjnõ e Ihjãc, que escreveram o roteiro, e juntos encontraram a forma de contar um panorama de múltiplas lutas de quatro aldeias Krahô, mesclando a narrativa tradicional ocidental com a não-linearidade das narrativas indígenas num projeto autoral híbrido, coletivo e pujante.

Os próprios Patpro, Hyjnõ e Ihjãc participam do filme, mas não como atores, e sim como participantes da própria narrativa, conjuntamente com outros adultos e crianças das quatro aldeias. Patpro, aliás, com sua naturalidade e intensidade, demonstra toda a força da mulher indígena em superar as dificuldades para somar à luta, mesmo a contragosto de muitos de sua aldeia.

Belamente fotografado e com cores muito vibrantes, ‘A Flor do Buriti’ é convite à imersão na realidade indígena, com recorte particular no povo Krahô e sua conexão com a natureza.

a flor do buriti 04

author avatar
Janda Montenegro
Janda Montenegro é doutora-pesquisadora em Literatura Brasileira no Programa de Pós-Graduação em Letras da UFRJ com ênfase nas literaturas preta e indígenas de autoria brasileira contemporâneas. De origem peruana amazônica, Janda é uma palavra em tupi que significa “voar”. Desde 2018 trabalha como crítica de cinema nos portais CinePOP e Cabine Secreta. É curadora, repórter cultural, assistente de direção e roteirista. Co-proprietária da produtora Cabine Secreta e autora dos romances Antes do 174 (2010), O Incrível Mundo do Senhor da Chuva (2011); Por enquanto, adeus (2013); A Love Tale (2014); Três Dias Para Sempre (2015); Um Coração para o Homem de Lata (2016); Aconteceu Naquele Natal (2018,). O Último Adeus (2023). Cinéfila desde pequena, escreve seus textos sem usar chat GPT e já entrevistou centenas de artistas, dentre os quais Xuxa, Viola Davis, Willem Dafoe, Luca Guadanigno e Dakota Johnson.

Inscrever-se

Notícias

Charlie Cox revela como ‘Stardust: O Mistério da Estrela’ quase ACABOU com sua carreira

Lançado em 2007, o diretor Matthew Vaughn adaptou o romance 'Stardust:...

‘Wytches’: Série baseada na aclamada HQ ganha nova atualização PROMISSORA!

Em 2023, a Amazon Studios revelou que estava desenvolvendo uma...

‘O Exorcista’: Scarlett Johansson surge correndo em novas fotos dos bastidores do reboot

O reboot de 'O Exorcista' ganhou novas fotos dos bastidores.Escrito,...

Dylan O’Brien e Hudson Williams irão estrelar o thriller cômico ‘Apparatus’

Dylan O'Brien ('Twinless') e Hudson Williams ('Rivalidade Ardente') irão coestrelar...

Para salvar seu fim de semana: 10 minisséries imperdíveis!

As minisséries vem conquistando cada vez mais a nossa...

Sean Hayes é escalado para a 5ª temporada de ‘The Morning Show’

Segundo o Deadline, o vencedor do Emmy Sean Hayes ('Will &...
Assista também:


Janda Montenegro
Janda Montenegrohttps://cinepop.com.br
Janda Montenegro é doutora-pesquisadora em Literatura Brasileira no Programa de Pós-Graduação em Letras da UFRJ com ênfase nas literaturas preta e indígenas de autoria brasileira contemporâneas. De origem peruana amazônica, Janda é uma palavra em tupi que significa “voar”. Desde 2018 trabalha como crítica de cinema nos portais CinePOP e Cabine Secreta. É curadora, repórter cultural, assistente de direção e roteirista. Co-proprietária da produtora Cabine Secreta e autora dos romances Antes do 174 (2010), O Incrível Mundo do Senhor da Chuva (2011); Por enquanto, adeus (2013); A Love Tale (2014); Três Dias Para Sempre (2015); Um Coração para o Homem de Lata (2016); Aconteceu Naquele Natal (2018,). O Último Adeus (2023). Cinéfila desde pequena, escreve seus textos sem usar chat GPT e já entrevistou centenas de artistas, dentre os quais Xuxa, Viola Davis, Willem Dafoe, Luca Guadanigno e Dakota Johnson.