InícioCríticasACrítica | A História do Palavrão – Uma série documental da Netflix...

Crítica | A História do Palavrão – Uma série documental da Netflix boa pra cara…mba!


Despretensiosamente, a Netflix vem apresentando ao seu público algumas produções documentais que misturam bom humor e informação. Em diferentes formatos – mas com o intuito de mesclar entretenimento e conhecimento –, nos últimos seis meses o espectador brasileiro pôde conferir a série ‘Mundo Mistério’, apresentado pelo youtuber Felipe Castanhari, e, mais recentemente, a retrospectiva do ano, intitulada ‘2020 Nunca Mais’ . Agora, chega aos assinantes a série ‘A História do Palavrão’.

Dividida em seis episódios de vinte minutinhos cada, ‘A História do Palavrão’ foca em – como diz o próprio título – contar a história e a origem de alguns dos palavrões mais comuns da língua inglesa, com um recorte específico na forma e significado utilizados frequentemente por falantes dos Estados Unidos. Para tal, o roteiro de Bellamie Blackstone segue uma fórmula bastante agradável, que dosa na medida certa humor, história, dados científicos e referências cinematográficas. E para isso, claro, os produtores chamaram especialistas em diversas áreas da cognição que pudessem explicar e exemplificar como os vocábulos foram evoluindo com o tempo, até se tornarem o que hoje é usado pelas pessoas. Dentre os especialistas há historiadores, filólogos, etimologistas, críticos de cinema e outros pesquisadores de linguística.



Para contrapor a parte informativa da série, a produção conta com a inserção humorística de comentários de convidados, como os atores Sarah Silverman (a Tatá Werneck estadunidense), Nikki Glaser e Isiah Whitlock Jr. – este último, protagonizando um dos momentos mais hilários da série. Mas o destaque vai mesmo para Zainab Johnson, e seus comentários completamente espontâneos que arrancam sinceras risadas. O episódio mais engraçado é, sem dúvida, o que tenta entender a palavra dick.

É claro que para uma produção dessas é necessário um apresentador à altura da proposta da série – e para ‘A História dos Palavrões’ a responsabilidade ficou a cargo do fazedor de memes Nicolas Cage. Com um jeitão canhestro e sedutor que beira o caricato, Nicolas Cage faz piada de si mesmo e encontra o tom certo para guiar tão ousada e polêmica série.

Fazendo uso de uma edição bem dinâmica – que mescla animação, colagem e uma técnica bem youtuber de alternar temas de modo a prender a atenção do espectador – e um tom brincalhão, ‘A História do Palavrão’ joga luz sobre a importância de entendermos as origens de nossa língua e como muitos dos termos e jargões que utilizamos até hoje têm ou tiveram uma trajetória de transposição de significado, alternância de semiótica e/ou transformação da semântica muitas vezes com o intuito de diminuir um grupo social, e como a marginalização dos palavrões têm origem na própria indústria hollywoodiana, que decidiu vetar verbetes e estabelecer uma tabela de classificação indicativa tão somente para controlar os palavrões que poderiam ser aceitos ou não por crianças e adolescentes (em oposição à cenas de sexo e de violência), e como o rap e o hip hop contribuíram para popularizar esses termos.

 

Através de um tom jocoso e divertido, ‘A História do Palavrão’ presta um ótimo serviço à sociedade – além de ser boa ferramenta para quem está buscando falar melhor a língua inglesa. Deixa na gente uma vontade de assistir à versão brasileira do programa. Tomara que a Netflix se anime a fazer.

Janda Montenegrohttps://cinepop.com.br
Janda Montenegro é doutora-pesquisadora em Literatura Brasileira no Programa de Pós-Graduação em Letras da UFRJ com ênfase nas literaturas preta e indígenas de autoria brasileira contemporâneas. De origem peruana amazônica, Janda é uma palavra em tupi que significa “voar”. Desde 2018 trabalha como crítica de cinema nos portais CinePOP e Cabine Secreta. É curadora, repórter cultural, assistente de direção e roteirista. Co-proprietária da produtora Cabine Secreta e autora dos romances Antes do 174 (2010), O Incrível Mundo do Senhor da Chuva (2011); Por enquanto, adeus (2013); A Love Tale (2014); Três Dias Para Sempre (2015); Um Coração para o Homem de Lata (2016); Aconteceu Naquele Natal (2018,). O Último Adeus (2023). Cinéfila desde pequena, escreve seus textos sem usar chat GPT e já entrevistou centenas de artistas, dentre os quais Xuxa, Viola Davis, Willem Dafoe, Luca Guadanigno e Dakota Johnson.
MATÉRIAS
CRÍTICAS

NOTÍCIAS