Não é mais nenhuma novidade que a produtora A24 vem buscando expandir seus horizontes, diversificando seu catálogo de títulos com opções para além do terror. O estúdio, de treze anos de idade, é responsável por sucessos como ‘X: A Marca da Morte’, ‘MaXXXine’ e ‘Midsommar’ também é o nome por trás dos indicados ao Oscar ‘Vidas Passadas’, ‘A Tragédia de Macbeth’, ‘Lady Bird – A Hora de Voar’ e ‘Zona de Interesse’. Embora seja popularmente conhecida pela sua dedicação em produzir filmes de terror, a A24 tem demonstrado interesse em se conectar com o público jovem e jovem adulto, independente do gênero, da história ou do elenco. E é nessa pegada que estreou nos cinemas brasileiros esta semana o longa de fantasia ‘A Lenda de Ochi’, o mais novo lançamento da A24.

Em uma remota ilha chamada Carpathia, a jovem Yuri (Helena Zengel) é criada por seu pai adotivo, Maxim (Willem Dafoe, de ‘Dentro’), um homem obcecado e paranoico acerca de umas criaturas misteriosas que moram nas montanhas da ilha e que, dizem, são ameaças terríveis que comem o gado e assustam a todos. Com o passar do tempo, os adultos foram desistindo de lutar contra, e o legado foi passado às crianças e jovens da ilha, instruídos pelo paranoico Maxim. Um dia, após uma caçada, Yuri percebe que as criaturas – chamadas de ochi – talvez sejam menos perigosas do que dizem por aí, e, ao encontrar um filhote perdido de ochi, ela toma uma importante decisão: vai levá-lo de volta em segurança até seu povo, mesmo que isso signifique abandonar o pouco de família que lhe resta.
Uma das coisas mais legais em ‘A Lenda de Ochi’ (e na A24, de uma forma geral, já que a produtora tem um olhar atento neste quesito) é que as tais criaturas ochis são feitas com bonecos analógicos, digamos assim, ou seja, robôs com efeitos práticos os quais literalmente é possível ouvir no filme eles abrindo e fechando os olhos (o ranhar das engrenagens). Isso é bem legal porque remete às técnicas dos anos 80, utilizadas em clássicos da fantasia como ‘Jurassic Park’ e ‘E.T. – O Extraterrestre’, além de reforçar a atmosfera de época que o filme traz.

É possível que esteja aí a intenção de ponte do roteiro de Isaiah Saxon (que dirigiu um clip da Björk): ao mesmo tempo em que a história tem um aspecto de fantasia dos anos 80, traz também um elenco que dialoga com a juventude atual, com Finn Wolfhard (o Mike de ‘Stranger Things’) no papel de um irmão mais velho que, lá pelas tantas, entende o que se passa com Yuri e passa pro lado dela.
‘A Lenda de Ochi’ é fofo, e rememora clássicos como ‘Willow – Na Terra da Magia’, onde criaturas fantásticas conviviam com seres humanos em um ambiente lúdico. O que faltou aqui neste ‘A Lenda de Ochi’, talvez, seja carisma nos personagens, principalmente na protagonista Yuri e seu antagonista, Maxim. Enquanto Yuri esboça poucas reações e entre numa aventura meio non-sense em que, após ser mordida, ela consegue se comunicar com a criatura ochi, Willem Dafoe apresenta um líder da vila um tanto quanto lunático a la Don Quixote, para além da paranoia, levando as crianças a acompanharem seu delírio.
Com uma mensagem bonita, ‘A Lenda de Ochi’ tem o coração no lugar certo, mas ficou sério demais para um filme de aventura e fantasia juvenil.

