Stephen King não é considerado um dos mestres da literatura contemporânea por qualquer motivo: singrando entre o drama, o suspense, o terror e vários outros gêneros, o romancista eternizou histórias que constantemente são adaptadas para o cinema, a televisão ou o streaming – como ‘IT: A Coisa’, ‘O Iluminado’, ‘Carrie, a Estranha’, ‘Jogo Perigoso’ e, mais recentemente, ‘A Vida de Chuck’. Agora, mais um livro assinado pelo prestigiado autor chega às telonas: ‘A Longa Marcha: Caminhe ou Morra’, inspirado na obra homônima lançada no final dos anos 1970.
Assinado sob o pseudônimo de Richard Bachman, a trama nos leva para um futuro distópico em que os Estados Unidos, tendo enfrentado uma batalha de proporções catastróficas que ficou conhecidas como A Grande Guerra, se reestabelece pouco a pouco e utiliza artifícios bastante controversos para resgatar o senso se patriotismo e união. Esse artifício é conhecido como A Longa Marcha, uma visceral competição que convida todos os jovens garotos do país a participar de uma caminhada sem fim, onde devem marchar ao passo de aproximados 5 km/h: caso reduzam a velocidade ou parem, eles recebem uma advertência; após a terceira advertência, eles são assassinados por oficiais do exército que os observam passo a passo. O último a sobreviver é condecorado com um prêmio inestimável que os permite ter basicamente o que desejarem.

Nesse terrível e assombroso espectro, Ray Garrity (Cooper Hoffman) contraria os clamores da mãe e resolve se inscrever na competição, sendo selecionado ao lado de outras dezenas de rapazes, incluindo o espirituoso e otimista Peter McVries (David Jonsson), o taciturno e atlético Billy Stebbins (Garrett Wareing), o estranho e volátil Gary Barkovitch (Charlie Plummer), o risonho e eclesiástico Arthur Baker (Tut Nyuot) e o ávido e impetuoso Hank Olson (Ben Wang). Forjando laços de amizade, confiança e certas desavenças que são firmados logo de cara, os participantes iniciam uma árdua jornada que os leva a enfrentar não apenas o impiedoso e opressor ambiente inóspito que os cerca, como fantasmas que insistem em persegui-los e colocar em xeque qual é o propósito da vida.
O projeto é comandado por Francis Lawrence, que não é nenhum estranho ao mundo das distopias. Conhecido por seu aplaudido trabalho em uma das melhores adaptações cinematográficas do século, ‘Jogos Vorazes: Em Chamas’, Lawrence se vê em território familiar ao que levou às telonas na década passada e sabe traduzir o épico escopo enfrentado por Katniss Everdeen para uma jornada angustiante e ironicamente claustrofóbica de Ray Garrity – utilizando sutis incursões similares para denotar o embate entre o poder vigente e aqueles que anseiam pela mudança. Afinal, Ray nutre de uma vingança pessoal para com o Major (Mark Hamill), militar responsável por gerenciar a Marcha e que incita a “coragem e a bravura” dos garotos como forma de controle e de entretenimento de massa.

Se Lawrence acerta na construção de uma atmosfera inescapável, melancólica e sombria (mesmo com o uso de cores quentes e de planos abertos e superssaturados), o roteiro assinado por JT Mollner acerta onde precisa e se vale da química do elenco para ofuscar algumas metáforas formulaicas. Mollner, que nos entregou um dos melhores suspenses do ano com ‘Desconhecidos’, migra do thriller psicológico para um suspense dramático de sobrevivência e promove um convite a refletir sobre regimes totalitários, a inevitabilidade da morte e o homem como objeto de condicionamento determinista – ou seja, forçado a voltar à barbárie em meio a um ambiente severamente adverso.
Tomando as rédeas do projeto, Hoffman se afasta por completo da controversa construção de personalidade do protagonista de ‘Licorice Pizza’ e expande-se para a traumatizada backstory de Ray – cujo princípio é bastante familiar, mas o afasta do emblemático herói de tantas outras distopias que conhecemos para finalizar um arco muito bem delineado e que serve como carta de amor à obra de King. Jonsson, emergindo como um inesperado coprotagonista e faz um fabuloso trabalho como Peter, o “pontinho de esperança” em meio à desolada e inabalável selva que os cerca, tentando manter seu otimismo irrefreável para garantir que, não importa o que aconteça, eles permanecerão amigos – e encontrando um apoio emocional essencial em Ray.

Cada membro do elenco tem seu momento de brilhar e, diferente do que podíamos imaginar, os múltiplos arcos convergem para um ponto em comum que faz sentido dentro do que esperamos e sem se deixar levar pelos exageros e pelas ambições desmedidas. Enquanto os cansativos maniqueísmos do bem e do mal são diluídos nos intrincados arcos de Ray e Peter, garantindo uma necessária humanidade para a narrativa que se dispõe à nossa frente, os outros personagens ganham força em peculiaridades que fornecem ritmo e dinamismo a cenas propositalmente cíclicas e exauríveis – mesmo que nem todas as investidas funcionem como deveriam.
‘A Longa Marcha: Caminhe ou Morra’ chega aos cinemas brasileiros no próximo dia 18 de setembro e configura-se como uma das melhores adaptações do extenso panteão de Stephen King dos últimos anos, contando com as habilidosas mãos do time criativo e do comprometimento aplaudível de um incrível elenco.

