Crítica | A Maldição da Casa Winchester – Pouco terror e muita carpintaria

Crítica | A Maldição da Casa Winchester – Pouco terror e muita carpintaria

Nota:

Pobre Helen Mirren

A Dama Helen Mirren já fez de tudo um pouco em sua carreira de aproximadamente 5 décadas. Esteve no meio do sururu em Calígula (1979); encontrou o Diabólico Dr. Fu Manchu (1980); presenciou a lenda de Excalibur (1981); fez contato na sequência de 2001 – Uma Odisseia no Espaço (sim, ela existe), em 2010 – O Ano em que Faremos Contato (1984); saiu nua na terceira idade em Garotas do Calendário (2003); casou com Hitchcock (2012); e até encontrou Vin Diesel em Velozes e Furiosos 8 (2017) – se isso não é diversidade na filmografia, não sei o que é. Ah, sim, e foi indicada para 4 Oscar, com a vitória em 2007 por viver seu papel mais conhecido, como a Rainha Elizabeth II da Inglaterra, em A Rainha (2006).

Agora, a classuda Rainha do cinema dá mais um passo adentrando um terreno inexplorado – ou pouco explorado – em sua carreira, em um declarado terror gótico de fantasmas. A ideia era boa, e despertou grande curiosidade por meio de suas prévias e trailers. O problema é que mirou nas produções clássicas dos estúdios Hammer da década de 1970, e acabou acertando em picaretagens juvenis atuais, vide o russo A Noiva e as continuações capengas de séries como Sobrenatural.

O roteiro escrito pelos promissores irmãos Spierig (ainda levo fé neles, assistam a O Predestinado e tirem suas próprias conclusões), também os diretores do longa, em parceria com o inexpressivo Tom Vaughn, usa um ponto de partida interessante, a história real envolvendo a mansão Winchester, da herdeira da famosa fabricante de armas (e patins, como o filme nos ensina), tida como amaldiçoada pelas almas das vítimas mortas por tal produto. O problema é que não faz nada com esta premissa, apenas o básico, apostando no mais baixo denominador comum, e maltratando a inteligência do público.




Em A Maldição da Casa Winchester não ganhamos nenhum insight sobre a companhia fabricante de armas (se o filme dedicasse parte do tempo narrando como a empresa se ergueu, entrelaçando certo mau agouro em seus primórdios, poderia render algo de maior consistência), tampouco sobre os personagens e a macabra casa. De fato, são tantos clichês que o longa quase soa como uma destas paródias de filmes sobre casas assombradas.

Para qualquer filme ser bem sucedido, não importando seu gênero, é necessário dedicar tempo para o desenvolvimento de seus personagens e estabelecer a trama. Aqui, o filme está mais interessado em partir logo para os sustos fáceis, os famosos jumpscares, que recheiam a obra do começo ao fim, sobressaindo a diálogos ou qualquer estabelecimento de personalidade. É como se o filme realmente não tivesse confiança em seu espectador e estivesse tão preocupado com a forma, com tornar a coisa mais palatável para a plateia jovem, que esqueceu por completo que forma sem conteúdo não se sustenta.

Na trama, Jason Clarke interpreta um médico atormentado pela morte de sua esposa. O sujeito se entregou por completo ao vício de entorpecentes – seja a bebida ou drogas. Ele é requisitado para um serviço na mansão Winchester, onde precisa averiguar a sanidade da matriarca e herdeira Sarah Winchester, papel de Helen Mirren. O local ainda reserva as presenças da sobrinha de Sarah, Marion Marriott (papel da ótima Sarah Snook, usual colaboradora dos Spierig), e de seu pequeno filho, o constantemente possuído Henry (Finn Scicluna-O´Prey).

A Maldição da Casa Winchester parece ansioso para começar este jogo, e sequer estabelece as regras. Logo de cara, antes mesmo do protagonista de Clarke chegar à mansão, já estamos ganhando os pretensos jumpscares – isso que é queimar a largada! E se você está pensando que só damos valor a filmes de terror mais “cabeça”, voltado para o público do cinema de arte, engana-se. Pegue, por exemplo, um super blockbuster do gênero como Invocação do Mal e sua continuação, e podemos ver o quão deficiente a Casa Winchester é em estabelecer o clima e criar situações verdadeiramente assustadoras.

O nível de “medo” aqui é o equivalente daquele primo chato que quando vai te visitar cisma em te dar sustos, mesmo que a situação não peça e você não se assuste nem um pouco. Depois de um tempo começa apenas a irritar. A previsibilidade impera e sabemos exatamente aonde o filme irá inserir um rosto saindo do escuro, e coisas do tipo. Além disso, existe também a incoerência típica de filmes não muito bons. Por exemplo, para tentar aumentar a tensão, o personagem de Jason Clarke se esconde dos VIVOS também, de funcionários da construção da casa, que não dariam a mínima em vê-lo perambular no lado de fora à noite. E para finalizar, as incessantes cenas de carpintaria intercaladas tiram mais tempo de tela do que qualquer terror inicial, transformando Winchester em quase um documentário sobre marcenaria.

Entre mortos e feridos, sabemos que a elegante Mirren irá sacudir a poeira, trocar as vestimentas fúnebres por um belo estampado e seguir de cabeça erguida. Já nós, nunca iremos recuperar essas duas horas perdidas de nossas vidas, portanto, se seu desejo é por uma estadia em um local macabro, opte pelo Overlook de O Iluminado ou a fazenda dos Perron em Invocação do Mal.

Crítica em vídeo:





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