Crítica | A Mensageira – Drama Argentino Autoral traz uma Criança Capaz de falar com Animais


Todo mundo que tem apreço pelos animais sente uma espécie de conexão com os bichinhos. E essa conexão nos faz desejar querer nos comunicarmos com eles – não só para falar coisas mas, acima de tudo, para conseguir ouvi-los, e, consequentemente, entendê-los. Tal ideia já foi abordada algumas vezes no audiovisual, como em filmes como ‘Dr. Dolittle’ e ‘Ace Ventura’ – ambos envergados mais para a comédia. O tema volta a navegar o universo cinematográfico agora por um viés argentino, através do drama autoral ‘A Mensageira’, uma das estreias da semana no circuito nacional.

Anika (Anika Bootz) é uma jovem garotinha de aproximadamente dez anos de idade e que possui um dom muito raro: ela consegue ouvir e entender os animais. Todos eles. E, muitas das vezes, consegue até mesmo transmitir mensagens dos tutores aos bichanos. Por conta disso, seus responsáveis legais, Myriam (Mara Bestelli, de ‘Dolores’) e Roger (Marcelo Subiotto, de ‘Puán’), têm uma brilhante ideia: utilizar-se do dom da menina para ganhar dinheiro. Assim, os três viajam aos quatro cantos da Argentina oferecendo o serviço de comunicação com os pets, cobrando uma singela taxa pelo serviço prestado e, assim, sobrevivendo dia após dia.

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Todo filmado em preto e branco, essa estética do filme isoladamente já dá indícios da intenção de seu realizador: a de nos transportar para um tempo atemporal, para um local não localizado, para um universo entre o lúdico e a realidade, onde tanto a tecnologia está presente quanto a inocência da crença em algo além da compreensão.

Dirigido pelo venezuelano Iván Fund, ‘A Mensageira’ busca criar uma narrativa contemplativa diante do incontrolável: como boa parte dos animais em cena em teoria estão em agonia (sofrem por alguma questão, sentem dor ou aparentemente estão idosos e em seus momentos finais), ao espectador cabe assistir, tal qual os outros personagens, a menina em ação, proferindo frases que talvez façam sentido na realidade daquele animal/família, enquanto analisamos o quanto aquilo seria verídico estivéssemos nós mesmos naquela situação.

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Para contar a história do roteiro de Martín Felipe Castagnet, Iván Fund constrói planos longuíssimos de contemplação, ora da paisagem passando no horizonte, ora de um personagem parado no cenário olhando para algum lugar enquanto pensa. Esses planos, sem nenhuma ação específica, ajudam a dar o ritmo da narrativa – que, no fundo, também se trata de uma imensidão geográfica onde todos os lugares se parecem entre si, afinal, as estradas e paisagens são semelhantes quando o deslocamento é lento e sem pressa. Isso também dá um dimensão ao espectador de uma sensação abismal da vida desses personagens, sempre na estrada, sem rumo, em busca do próximo serviço, dormindo amontoados em uma van.

Com uma hora e meia de duração e exibido em muitos festivais mundo afora (como o Festival do Rio e o Festival de Berlim do ano passado), ‘A Mensageira’ reacende o cinema autoral latino-americano em sua potência estética em camadas reflexivas atemporais. A seu modo, ‘A Mensageira’ é um convite para desacelerar do contemporâneo e se deixar embalar em noventa minutos despreocupados com o destino final.

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Janda Montenegro
Janda Montenegrohttps://cinepop.com.br
Janda Montenegro é doutora-pesquisadora em Literatura Brasileira no Programa de Pós-Graduação em Letras da UFRJ com ênfase nas literaturas preta e indígenas de autoria brasileira contemporâneas. De origem peruana amazônica, Janda é uma palavra em tupi que significa “voar”. Desde 2018 trabalha como crítica de cinema nos portais CinePOP e Cabine Secreta. É curadora, repórter cultural, assistente de direção e roteirista. Co-proprietária da produtora Cabine Secreta e autora dos romances Antes do 174 (2010), O Incrível Mundo do Senhor da Chuva (2011); Por enquanto, adeus (2013); A Love Tale (2014); Três Dias Para Sempre (2015); Um Coração para o Homem de Lata (2016); Aconteceu Naquele Natal (2018,). O Último Adeus (2023). Cinéfila desde pequena, escreve seus textos sem usar chat GPT e já entrevistou centenas de artistas, dentre os quais Xuxa, Viola Davis, Willem Dafoe, Luca Guadanigno e Dakota Johnson.