Crítica | A Morte de Stalin – Drama Histórico ganha contornos cômicos dignos de Kubrick

Crítica | A Morte de Stalin – Drama Histórico ganha contornos cômicos dignos de Kubrick

Nota:

Dr Fantástico Moderno

Especialista em comédias políticas, o britânico Armando Iannucci tem no currículo produções cinematográficas como In the Loop (2009), e séries como a premiadíssima Veep (2012 - ). Aqui, o cineasta dá seu passo mais ambicioso ao voltar no tempo para satirizar um período histórico extremamente dolorido para a sociedade mundial. Mas, ei, sem bom humor não podemos seguir.

Assim, não apenas a era ditatorial de Josef Stalin na Rússia, mas em especial sua morte, são escancaradas pelo humor inglês, seco, mas muito ácido, neste filme. Achar um tom satisfatório entre a comédia, mesmo uma tão sutil que é quase imperceptível (em especial aos olhos e ouvidos não treinados neste tipo), e o drama estarrecedor de um tema que aborda execuções em praças públicas e todo tipo de crueldade humana, é algo que caminha numa linha tão tênue – chegando a ser invisível.

Na cena de abertura, durante o concerto de uma pianista e uma orquestra numa gravação de rádio, já sentimos o clima tragicômico que o diretor preparou para nos impregnar durante toda a projeção. Nas únicas cenas com participação do ator e cineasta Paddy Considine, que interpreta o diretor da rádio, percebemos o desconforto, que beira a paranoia e o ataque de nervos, do sujeito ao receber uma ligação do czar.



Seguindo de perto verdadeiros ícones do cinema satírico, longe do escracho, e se mostrando um digno herdeiro de obras como Dr. Fantástico (1964), de Stanley Kubrick, ou as produções do grupo Monty Python, A Morte de Stalin consegue ser histérico e hilário, ao mesmo tempo em que choca com seu realismo visceral, não se afastando do período negro retratado.

O medo de um comentário equivocado te levar à morte, até mesmo para membros do alto escalão do governo, é motivo de risadas aqui – o ensaio do personagem de Steve Buscemi, no papel de Nikita Khruschchev, repassando com a esposa toda noite as piadas que deram certo com o ditador – mas igualmente retrata o pavor causado na época.

Após a morte acidental do lendário líder Comunista, seus ministros começam a ficar inquietos, cada um orquestrando sua própria tomada de poder. A dinâmica é criativa, e o texto teatral, escrito pelo próprio diretor, em parceria com Fabien Nury – criador da HQ na qual o longa é baseado, é rápido e cheio de nuances. Tratado como drama histórico sério em sua forma, com direito a direção de arte e figurinos típicos desta categoria de cinema, A Morte de Stalin é uma produção bem cuidada e dirigida.

As performances não chegam atrás, e mesmo que por vezes se aproximem do nonsense – minuciosamente planejado pelos criadores – são levadas num estado de magnitude e responsabilidade por seus intérpretes. Gente do calibre de Jeffrey Tambor, Simon Russell Beale, Adrian McLoughlin, Andrea Riseborough, Rupert Friend, Jason Isaacs e Olga Kurylenko, além dos citados Buscemi e Considine tratam o material de forma como se buscassem prêmios. E por falar no elo com Python, aqui temos um veterano do time, Michael Palin vive Vyacheslav Molotov, político cujas declarações deram origem à famosa bomba de fabricação caseira, o coquetel Molotov.

A Morte de Stalin dispara em todos os cilindros e acerta em todas as notas. É acurado em seu retrato de uma parte muito específica do passado da Rússia, e todo o horror implantado por um governo totalitário, que acreditava sem sombra de dúvida estar fazendo o bem para seu povo. E ao mesmo tempo, se mostra afiadíssimo com a ridicularização deste grandioso absurdo de nossa existência humana. O que Iannucci faz aqui, claramente, não é debochar do sofrimento de uma nação, mas sim, como ícones do peso de Kubrick e Tarantino antes dele, retribuir a tragédia com um pagamento à altura, a crítica bem humorada.





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