Crítica | A Mula – Clint Eastwood se despede das atuações com o pé direito

Crítica | A Mula – Clint Eastwood se despede das atuações com o pé direito

Nota:

O Expresso do Meio Dia

Com uma carreira de mais de 6 décadas na frente das câmeras, o veteraníssimo Clint Eastwood, no auge de seus 88 anos (em vias de completar 89), chega agora ao seu tão merecido repouso como ator. Bem, isso é o que vem sendo anunciado, já que declaração similar o ator havia dado em 2008, quando lançou Gran Torino, e depois disso voltou a atuar em mais dois longas (incluindo este). Seja como for, A Mula é seu novo projeto e estreia na próxima quinta-feira.

Somado aos seus 72 créditos como ator, está uma brilhante carreira como diretor, iniciada em 1971, e que já conta com 40 trabalhos – muitos estrelados pelo próprio. Anunciado como o “canto do cisne” para o eterno Dirty Harry, A Mula traz um Clint Eastwood mais amável e menos turrão do que em suas últimas encarnações, vide Frankie Dunn de Menina de Ouro (2004), Walt Kowalski de Gran Torino (2008) e Gus Lobel de Curvas da Vida (2012). Aqui, o ator interpreta Earl Stone, agricultor florista dono de um próspero negócio. Como este é um filme de Clint Eastwood, seu personagem possui um grande defeito, que torna sua dinâmica em família extremamente disfuncional.

Baseado numa história real, que gerou o artigo do New York Times, “The Sinaloa Cartel´s 90-Year-Old Drug Mule”, escrito por Sam Dolnick, o filme apresenta seu protagonista nonagenário que de uma hora para outra vê seu tão lucrativo negócio de flores ser jogado para escanteio com o advento das vendas online, e ir à falência. De um jardim florido e dono de muitas cores, o diretor faz a transição para impactar a passagem de tempo de mais de uma década, quando o encontramos num cenário devastado. As imagens que representam o declínio financeiro também incluem a aparência “surrada” do protagonista no tempo presente. Fosse apenas no aspecto financeiro, Earl poderia ter um respaldo, mas sua obsessão pelo trabalho terminou por afastá-lo da esposa e da filha – interpretadas respectivamente pela sumida veterana Dianne Wiest (vencedora de dois Oscar por trabalhos ao lado de Woody Allen) e Alison Eastwood, filha do cineasta na vida real.

Assim, isolado de todos que ama e sem poder focar no trabalho, tendo a confiança única de sua neta (papel da jovem Taissa Farmiga), o idoso se encontra num beco sem saída. Suas obrigações financeiras e o casamento da neta o obrigam a procurar o caminho mais fácil, quando o abordam sobre a possibilidade de um trabalho como motorista – devido à suas habilidades atrás de um volante na estrada (Earl conhece todos os estados e nunca recebeu uma multa). Assim como a inesquecível “Vovó do Pó”, Earl se torna a mula perfeita para um cartel de drogas mexicano. Afinal, quem desconfiaria de um simpático senhorzinho viajando com sua caminhonete através das estradas. Quer coisa mais americana? Sem perguntas e apenas cumprindo o que lhe foi incumbido, Earl começa a prosperar e a recuperar seu lugar no seio da família.




Como citado, este ainda é um filme de Clint Eastwood, então seu personagem não é simplesmente um florista, e sim um veterano da Guerra da Coreia, que quando o caldo engrossa sabe bem como olhar o cano de uma arma sem se sentir intimidado. Pelo contrário, a cada encontro com o perigo, o eterno durão do cinema (que inspirou figuras como Sylvester Stallone, Arnold Schwarzenegger e todos os heróis de ação da década de 1980 até hoje) profere muitas de suas tiradas impagáveis. E igualmente não poderia faltar alfinetadas no politicamente correto – desde piadas com “sapatas”, passando pela forma como devem ser chamados os “negros” hoje, até o diálogo na lanchonete com o personagem de Bradley Cooper: “Você já viveu tanto que não tem mais filtro de nada”. Ao que o veterano retruca: “Acho que nunca tive”.

São nesses pequenos detalhes que reconhecemos verdadeiramente o cinema de Clint Eastwood, aonde sua marca está verdadeiramente impressa. Fora isso, o diretor cria um longa eficiente, mas que não fosse por sua presença na frente e atrás das câmeras, seria apenas um filme rotineiro. A presença do astro abrilhanta um material não tão inspirado, dono de muitas conveniências – mas que são automaticamente perdoadas quando percebemos a entrega do diretor, ainda fazendo obras com o coração e recheando o núcleo com muito afeto. Mesmo que nem tudo seja harmonioso e funcione, A Mula pende mais para seus acertos. No terreno emotivo, a relação do protagonista com a família, em especial a esposa, consegue tocar; já a forçada de barra por uma conexão entre Earl e o traficante Julio (Ignacio Serricchio) não desce redondo.

O filme conta ainda com as presenças de gente como Bradley Cooper, Andy Garcia, Laurence Fishburne e Michael Peña aumentando o prestígio da despedida do mestre Clint. A Mula é mais do que um longa baseado numa história real, e mais do que um suspense ou o último trabalho de Eastwood como ator (se é de fato isso). Funciona como uma amálgama de tudo que foi escola para o diretor, perpassando todos os elementos encontrados em variadas produções suas, e misturando todos os traços de personalidade de seus papeis ao longo da carreira (brincalhão, durão, espertinho, justo, mulherengo, emotivo). Justamente por isso, A Mula é o perfeito adeus desta verdadeira lenda (o que esperamos não ser verdade). Seja como for, veremos o ícone novamente, mesmo que atrás das câmeras de um próximo projeto.


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