Sim, a premiação do Oscar 2026 já saiu, nós já temos os vencedores e o Brasil não levou nada dessa vez. Mas, ainda assim, há muitos filmes que ainda não chegaram ou ainda estão chegando ao circuito nacional – e, para o bom cinéfilo de plantão, é preciso ficar de olho para não perder nada. Como é o caso da coprodução franco-belga ‘A Pequena Amélie’, filme de animação que concorreu à estatueta nesta categoria e que acaba de entrar em exibição nos cinemas do Brasil.

Quando ainda estava em formação no ventre de usa mãe, a pequena Amélie (na voz original de Loïse Charpentier) já começava a observar o mundo e via-se diferente: ela era o centro de seu próprio mundo, e, portanto, era Deus. A partir de seu nascimento, a menina começa a se dar conta das outras existências ao seu redor, tendo a dimensão do pequeno mundo ao qual pertence – a casa em que vive com seus dois irmãos, sua mãe e seu pai numa cidade rural do Japão. Muito atenta a tudo, Amélie não fala nada… até o dia em que algo acontece e ela espontaneamente começa a falar. Enquanto se desenvolve como criança e como ser pensante, Amélie vai percebendo o mundo ao seu redor, conhecendo os próprios sentimentos e, assim, se entendendo.
Mais até do que a técnica utilizada nesta obra (que faz uso de cores bem fortes, tons de neon, traços mais arredondados, olhos arregalados e brilhantes e uso de computação gráfica para imprimir identidade moderna à uma história datada de décadas anteriores), o que realmente cativa o espectador é o enredo, simples e envolvente, que, contado pelos olhos de uma criança protagonista, ganha ares de inocência e descoberta.
O roteiro tecido por Liane-Cho Han Jin Kuang, Aude Py e Maïlys Vallade constrói uma protagonista que, em um primeiro momento, dá a entender possuir algum traço do espectro autista – ela não se comunica, apenas observa, reage de forma exagerada e explosiva aos sentimentos quando passa a experimentá-los e vê a tudo de uma maneira muito particular e única. Nos primeiros minutos, quando passamos a desconfiar desse traço da protagonista (que nunca é afirmado na história) vamos nos deliciando com suas descobertas; a partir do instante em que ela passa a se comunicar melhor e o tempo passa, vamos também julgando-a por conta de suas impressões, suas opiniões precipitadas, suas pequenas provocações, a medida em que ela vai moldando sua própria personalidade.

À entrada de uma nova personagem – Nishio-san (Victoria Grosbois), uma jovem japonesa contratada para trabalhar na casa dessa família – a história de ‘A Pequena Amélie’ se desenlaça para um amadurecimento temático, agora falando da História do Japão e os traumas que permaneceram e permanecem nos moradores locais. Aqui o roteiro traça um interessante cruzamento do choque cultural (Ocidente x Oriente, Bélgica versus Japão) com a interseção dessas culturas através da vivência da jovem Amélie e sua cuidadora e amiga Nishio-san. Dessa amizade, o espectador passeia por aspectos culturais específicos do Japão, que envolvem a gente tal qual um conto para ninar.
Fofo, bem realizado e fugindo da mesmice temática, ‘A Pequena Amélie’ faz jus à sua indicação, e é uma boa opção aos fãs de filmes de animação na tela grande.


