sábado, abril 13, 2024

Crítica | ‘A Queda da Casa de Usher’ é mais uma OBRA-PRIMA do terror assinada por Mike Flanagan

Crítica livre de spoilers.

“Sono, essas pequenas fatias de morte, como eu as odeio”.

Mike Flanagan é um dos nomes mais proeminentes do cenário audiovisual contemporâneo e, ao longo de sua carreira, deu vida a inúmeras obras-primas do terror psicológico e do suspense – como ‘Hush: A Morte Ouve’, ‘A Maldição da Residência Hill’ e ‘Missa da Meia-Noite’. E, continuando seu contrato com a Netflix, Flanagan retornou este ano com um de seus projetos mais ambiciosos: ‘A Queda da Casa de Usher’.

Nessa minissérie de oito episódios, o realizador se apropria do extenso catálogo literário do lendário Edgar Allan Poe, que eternizou contos góticos através de um estilo apaixonante, dilacerante e envolvente. É claro que, considerando o impacto significativo que Poe causou à época de suas publicações e até os dias de hoje, a narrativa poderia muito bem se render às obviedades do gênero e funcionar apenas como uma remodelagem live-action de enredos complexos e bastante intrincados. Felizmente, não é isso o que acontece; Flanagan já demonstrou ter uma visão única sobre o mundo e sobre os medos que nos assolam dia após dia e, no final das contas, ele transforma essa incursão em uma pérola artística muito mais profunda do que aparenta, mesmo se valendo de algumas fórmulas para que a história se desenrole.

A trama bebe bastante da estrutura técnico-artística de produções como ‘Succession’ e nos apresenta à Família Usher, dona de um império farmacêutico que enfrenta um grande processo em virtude de seus perigosos medicamentos que causam vício e, em uma dosagem maior, morte. Todavia, o conglomerado é ameaçado por uma série de mortes dentro da própria família – em que todos os filhos do patriarca Roderick Usher (Bruce Greenwood em um dos melhores papéis de sua carreira) morreram sob circunstância inexplicáveis e quase sobrenaturais. E, vendo seu legado se desmantelando à frente de seus olhos, ele não vê uma alternativa além de confessar seus pecados a Auguste Dupin (Carl Lumbly), um conhecido de longa data que agora é responsável por processá-lo. À medida que ele conta os motivos dessas contínuas desgraças, percebemos que o buraco é muito mais fundo que o inesperado e que, agora, ele está colhendo os frutos de sementes que plantou há muito tempo.

Roderick é a personificação do orgulho – mas um orgulho tímido que só se consagra como uma força descomunal quando colocado lado a lado da irmã gêmea, a feroz e impetuosa Madeline (Mary McDonnell). Partes de um mesmo plano diabólico, a personalidade de ambos é transferida de forma coercitiva aos “herdeiros”, que disputam pela atenção e pela glória da fama, do sucesso e do dinheiro. Nós temos os filhos legítimos de Roderick, Tamerlane (Samantha Sloyan) e Frederick (Henry Thomas), que se sentem irritados pela presença dos outros irmãos; Victorine (T’Nia Miller), a filha ilegítima mais velha que luta para deixar sua marca no cenário médico; Napoleon (Rahul Kohli), que trabalha com desenvolvimento de games; Camille (Kate Siegel), responsável pelas relações públicas da família e da empresa – e que nutre por um desprezo crescente pelos irmãos; e Prospero (Sauriyan Sapkota), o filho mais novo que apenas se importa com dinheiro e sexo. Cada um encontrando um terrível fim que coloca em xeque as bases que Roderick e Madeline forjaram.

A verdade é que o patriarca sempre deixou suas portas abertas para que os filhos ilegítimos pudessem entrar em sua casa e mostrar que mereciam um lugar à mesa. Mas qual é o preço do sucesso? Ora, Flanagan navega pela multiplicidade da psique humana de forma esplendorosa, discorrendo sobre temáticas que oscilam entre a necessidade de aprovação, a afasia, o conformismo e o poder. Cada um dos membros da família Usher é desprovido de humanidade e construído como uma marionete que acredita pensar por conta própria; todavia, eles são movidos por uma pressão externa e interna que, lentamente os leva à insanidade no melhor estilo de Poe.

Não deixe de assistir:

O visceral espetáculo que se desenrola à nossa frente é cortesia das hábeis mãos de Flanagan, que se apropria da direção e do roteiro, e de sua aplaudível equipe criativa. Todas as engrenagens são pensadas com cautela, desde a tétrica e clássica trilha sonora, permeada por uma orquestral e vibrante composição, até a paleta de cores, cuja amálgama de tons quentes e frios auxilia na construção da tenebrosa atmosfera e prenuncia o destino dos personagens. E, no centro de tudo isso, Carla Gugino retoma sua colaboração com o realizador ao interpretar Verna, uma misteriosa mulher que, de certa maneira, está associada às inexplicáveis mortes e à história de Roderick e Madeline. Mas, enquanto esses elementos explodem nas telinhas, é a química de um elenco estelar que nos fisga desde os primeiros momentos e que nos atiça a assistir aos oito capítulos de uma só vez.

‘A Queda da Casa de Usher’ é mais um acerto de Flanagan e da Netflix, emergindo como um dos melhores títulos do ano e como uma carta de amor a um dos autores mais atemporais e icônicos da história da literatura. Travestida com uma roupagem moderna, a minissérie é soberba do começo ao fim e abre espaço para inúmeras reflexões sobre a vida e a morte – algo de apreço infindável pelo realizador.

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Thiago Nollahttps://www.editoraviseu.com.br/a-pedra-negra-prod.html
Em contato com as artes em geral desde muito cedo, Thiago Nolla é jornalista, escritor e drag queen nas horas vagas. Trabalha com cultura pop desde 2015 e é uma enciclopédia ambulante sobre divas pop (principalmente sobre suas musas, Lady Gaga e Beyoncé). Ele também é apaixonado por vinho, literatura e jogar conversa fora.

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