Sandra Hüller, bem aos pouquinhos, vem se firmando como uma das grandes atrizes desses tempos. Poliglota (já a vimos falar inglês, francês, alemão, e certamente ela sabe outras línguas), a atriz alemã, que se destacou em 2024 com os poderosos ‘Zona de Interesse’ e ‘Anatomia de uma Queda’ (pelo qual recebeu indicação ao Oscar por seu trabalho) e que está atualmente em cartaz no Brasil com ‘Digger’ tem escolhido seus papéis com muito critério, e, para nós, cinéfilos, ver seu nome nos créditos de um filme é ter certa credibilidade de qualidade no projeto. Porque se tem Sandra Hüller, o filme é bom. Como ‘A Terra do Meu Pai’, exibido em sessões antecipadas no Festival do Rio e que entra em cartaz no circuito já no próximo dia 29 de outubro.

No verão de 1949, em plena Guerra Fria, pai e filha embarcam em uma desafiadora viagem de carro em um Buick preto, atravessando uma Alemanha em ruínas, indo de Frankfurt, sob domínio estadunidense, a Weimar, cidade administrada sob o julgo dos soviéticos. Mesmo tendo prometido nunca mais voltar, o escritor Thomas Mann (Hanns Zischler, de ‘Munique’), com a ajuda de sua filha Erika (Sandra Hüller) retorna ao seu país natal após 16 anos de exílio nos Estados Unidos, e precisa enfrentar não apenas uma pátria dividida, mas também uma profunda ruptura dentro de sua própria família e as críticas de jornalistas e compatriotas com relação à sua postura (ou a falta dela) acerca de seu país no pós-guerra.
Mesmo sem ter visto ‘A Terra do Meu Pai’, já dá para entrever que este é um dos filmes com “cheirinho de Oscar”, até porque, é o representante da Polônia para a edição do próximo ano. Não só pela presença de Sandra Hüller no elenco, como acima mencionado (aliás, ela, uma vez mais, está excelente no papel, numa contrição de emoções que fazem com que Erika seja uma personagem misteriosa e interessante, pois sabemos que ela está segurando as pontas em um ambiente levemente hostil e ligeiramente nostálgico), mas também por toda sua proposta estética (filmado em preto e branco, no formato 4:3 clássico). Escolhas do diretor Pawel Pawlikowski (de ‘Estranha Obsessão’), que já vem adotando essa estética há mais de década, fazendo dessa combinação sua assinatura para o mercado.

O roteiro de Pawel Pawlikowski e Henk Handloegten faz literalmente um recorte na vida do escritor Thomas Mann, a partir dos olhos de sua filha Erika. O filme começa, na verdade, com uma única cena do outro filho de Thomas, Klaus, o que já demonstra que a produção não será pela perspectiva do famoso pensador. E talvez essa seja a principal ausência no roteiro: por fazer um recorte, ele não apresenta tanto o seu principal personagem, tudo sobre ele é mencionado por outros personagens, mas não contextualizado. Para aqueles que não conhecem um pouco da biografia do escritor alemão, talvez haja alguma dificuldade em entender o desenrolar dos fatos.
Até mesmo por se basear não só na biografia, mas também nos escritos de Mann, o texto dos diálogos são um tanto verborrágicos, inspirados nos pensamentos e nos aforismos do escritor para ambientar o espectador numa época e num território dividido ideologicamente (cujos resquícios vemos até hoje). Em suma, é preciso estar atento para acompanhar os diálogos – muitos dos quais, discursos.
‘A Terra do Meu Pai’ pousa o olhar sobre um sensível momento na vida do vencedor do Prêmio Nobel de Literatura pelo olhar de sua família à beira de sucumbir emocionalmente. Mais do que sobre o escritor, o filme fala mesmo dessa terra – dividida, afetada, arrasada, que busca se reerguer com o que lhe sobra de orgulho num panorama em que esse mesmo orgulho levou a nação à ruína.



