terça-feira, fevereiro 10, 2026

Crítica | A Única Saída – Diretor de ‘Old Boy’ Retorna com Angustiante Crítica ao Capitalismo Selvagem

A máxima “capitalismo selvagem” tem um fundo de verdade. Essa forma de economia, da qual participa a maior parte dos países do mundo, é um sistema que está sempre favorecendo a empresa, o rico, a classe abastada, e, frequentemente, buscando formas de explorar ainda mais a mão de obra. É assim que se gera lucro e riqueza em quantidades. Já vimos isso em inúmeros filmes e séries, mas não da forma tão visceralmente humana e global como a apresentada em ‘A Única Saída’, longa coreano em cartaz nos cinemas.

Man-su (Lee Byung-hun, o Frontman de ‘Round 6’) acaba de ser demitido. Depois de anos se dedicando com afinco à indústria de celulose, a sua empresa acaba de ser comprada por uma multinacional estadunidense, que realizou demissão em massa afinal, o consumo de papel caiu drasticamente com o aumento dos aparelhos eletrônicos. Desesperado, com uma hipoteca para pagar, dois filhos pequenos (sendo um, autista), dois cachorros e uma esposa que largara tudo no passado para cuidar dos filhos, Man-su não consegue encontrar solução para sua situação…até que tem uma grande ideia: em breve a empresa deverá contratar um gerente geral para ocupar o cargo, e, pelos seus cálculos, só há cinco candidatos possíveis para ocupar a posição. Assim, para resolver seu problema e garantir seu sustento, Man-su deverá eliminar cada um dos possíveis candidatos, literalmente.

Recheado de crítica social, que é o fio condutor de ‘A Única Saída’, o longa de Park Chan-wook faz uso do drama, do suspense, do fino humor inteligente e até mesmo do surrealismo (que beira a histeria) para construir situações de crescente tensão que fazem o espectador não só se solidarizar com esse protagonista, mas também a entender (e, de certa forma, justificar) as escolhas que ele faz para encontrar a tal única saída para a sua vida. Não é fácil ser desempregado, provedor da família e com idade avançada num mundo que não se importa com o humano, apenas com o lucro.



Daí a beleza do roteiro de Park Chan-wook, Donald E. Westlake e Lee Kyoung-mi, que não se furtam de usar até mesmo a violência para contar a saga desesperada de um pai procurando uma saída para um problema crônico que não deveria existir, não fosse os sistemas econômicos que descartam a mão de obra. Assim, mesmo se passando na Coreia, todas as inquietações, até mesmo as mais bobas, são totalmente pulsantes e enquadradas de maneira muito criativa por uma direção de fotografia inspirada.

O que pega um pouco no filme é sua duração – 2 horas e 20 minutos – que pesam no espectador principalmente pela cadência ritmada dos diálogos e pela sensação de repetição das tramas. Com toda sua experiência com ‘Oldboy’, o diretor Park Chan-wook poderia ter dado uma enxugada nas resoluções da saga do protagonista, que acabam tomando grande parte do desenvolvimento do filme.

Balanceando gêneros com uma linguagem totalmente universal, humana e contemporânea, ‘A Única Saída é um filmaço escondido no circuito, um retrato do CLT que é descartado pelo sistema ao sabor do capitalismo. Um retrato social do que os jovens adultos estão enfrentando hoje, e do futuro sombrio que pode se instalar se as relações trabalhistas não forem revistas. Filme para ver e ficar muito tempo refletindo depois.

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Janda Montenegro
Janda Montenegrohttps://cinepop.com.br
Janda Montenegro é doutora-pesquisadora em Literatura Brasileira no Programa de Pós-Graduação em Letras da UFRJ com ênfase nas literaturas preta e indígenas de autoria brasileira contemporâneas. De origem peruana amazônica, Janda é uma palavra em tupi que significa “voar”. Desde 2018 trabalha como crítica de cinema nos portais CinePOP e Cabine Secreta. É curadora, repórter cultural, assistente de direção e roteirista. Co-proprietária da produtora Cabine Secreta e autora dos romances Antes do 174 (2010), O Incrível Mundo do Senhor da Chuva (2011); Por enquanto, adeus (2013); A Love Tale (2014); Três Dias Para Sempre (2015); Um Coração para o Homem de Lata (2016); Aconteceu Naquele Natal (2018,). O Último Adeus (2023). Cinéfila desde pequena, escreve seus textos sem usar chat GPT e já entrevistou centenas de artistas, dentre os quais Xuxa, Viola Davis, Willem Dafoe, Luca Guadanigno e Dakota Johnson.