Crítica | A Vida À Parte – Drama Familiar Italiano traz Marca Estética como Metáfora das Imperfeições Familiares

Toda família possui seus segredos, suas histórias que não podem ou não devem ser conhecidas da porta pra fora. Com o passar do tempo, tantos silêncios não verbalizados acabam se transformando em traumas e sentimentos que podem perdurar por toda uma vida – e, às vezes, podem acabar transbordando nos momentos mais inesperados. Assim somos conduzidos através do longa ‘A Vida À Parte’, filme italiano inédito no circuito que chega a partir de hoje através da distribuição da Imovision no Reserva Cultural com debates no Rio de Janeiro e São Paulo e amanhã em todo o circuito exibidor nacional.

Nos anos 1980, em uma pequena cidade no interior da Itália, uma família comemora uma boa notícia: é que Maria (Valentina Bellè, de ‘Ferrari’) está grávida de Osvaldo (Paolo Pierobon). Porém, quando a criança nasce, a família percebe que a bebê tem uma mancha – e uma mancha grande, vermelha, que cobre metade de seu rosto. Assim, o que era para ser uma bênção para todos acaba se tornando um enorme incômodo que impõe sua presença diariamente a todos, principalmente à Maria. Com o passar do tempo e a pequena Rebecca (Sara Ciocca) crescendo, há a necessidade da criança sair de casa, ir à escola e começar a socializar, o que faz com que Maria desconfie das intenções de sua cunhada, Erminia (Sonia Bergamasco), uma exímia pianista reconhecida na cidade.

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Após sucesso na sua trajetória no Festival de Locarno, ‘A Vida À Parte’ chega aos cinemas brasileiros para dialogar com o público sobre temas que são universais, como as relações familiares.

Escrito por Marco Bellocchio, Gloria Malatesta e Marco Tullio Giordana, baseado no romance de Mariapia Veladiano, o roteiro atravessa aproximadamente vinte anos na família Macola, uma aparente família super respeitada no meio das artes e da pediatria, ricos e conhecidos, cuja dinâmica muda drasticamente a partir do nascimento da criança que, ao contrário das expectativas, nascera com uma mancha – uma mancha literal, que macula a perfeição dessa imagem familiar. É a partir desse nascimento que o roteiro começa a mostrar, metaforicamente, as imperfeições que existem porta adentro dentro de um casarão onde cada um mora em um cômodo, em um andar, pouco convivendo.

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Numa leitura superficial o filme de Marco Tullio Giordana (que também realizou o longa ‘O Melhor da Juventude‘) pode parecer paradão, sem ir para muitos lugares, porém, é através das metáforas dessa rotina que, aos poucos (e mais pro fim do filme) que vamos entendendo as construções de linguagem que o diretor optou para retratar as angústias vividas por essa família a partir da mudança do protagonismo na trama: até metade do longa acompanhamos tudo a partir dos olhos e dos sentimentos de Maria, a mãe; após determinado episódio, vamos enxergando tudo a partir das descobertas da inocente Rebecca, que lidara a vida toda com diversos tipos de rejeição.

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De maneira sutil, porém firme, tanto roteiro quanto diretor abordam as distintas violências que essa família sofre ao longo do tempo – mais ainda: as violências sofridas pelos personagens femininos, principalmente. Sem se aprofundar na carga dramática, ‘A Vida À Parte’ sinaliza como essas agressões de todos os tipos podem, justamente, causar essa vivência à margem daquilo que está no protagonismo, com as personagens mãe-filha sendo empurradas de lado e lutando pela sobrevivência social.

Mais do que carregar em emoções, ‘A Vida À Parte’ propõe uma reflexão sobre os segredos, os pequenos crimes ocultos, e a ausência de se lidar com os problemas/questões que, com o tempo, acabam se tornando assuntos que pesam nas dinâmicas familiares e podem influenciar diretamente no desenvolvimento das relações interpessoais. Um filme que merece atenção.

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Janda Montenegro
Janda Montenegrohttps://cinepop.com.br
Janda Montenegro é doutora-pesquisadora em Literatura Brasileira no Programa de Pós-Graduação em Letras da UFRJ com ênfase nas literaturas preta e indígenas de autoria brasileira contemporâneas. De origem peruana amazônica, Janda é uma palavra em tupi que significa “voar”. Desde 2018 trabalha como crítica de cinema nos portais CinePOP e Cabine Secreta. É curadora, repórter cultural, assistente de direção e roteirista. Co-proprietária da produtora Cabine Secreta e autora dos romances Antes do 174 (2010), O Incrível Mundo do Senhor da Chuva (2011); Por enquanto, adeus (2013); A Love Tale (2014); Três Dias Para Sempre (2015); Um Coração para o Homem de Lata (2016); Aconteceu Naquele Natal (2018,). O Último Adeus (2023). Cinéfila desde pequena, escreve seus textos sem usar chat GPT e já entrevistou centenas de artistas, dentre os quais Xuxa, Viola Davis, Willem Dafoe, Luca Guadanigno e Dakota Johnson.