Crítica | A Voz de Hind Rajab – ÓTIMO Candidato da Tunísia ao Oscar é um Soco no Estômago

A corrida pelo Oscar 2026 já começou e está a todo o vapor. Enquanto ‘O Agente Secreto’ segue sua campanha internacional para que os votantes assistam ao longa brasileiro, por aqui o circuito exibidor começa a receber os indicados em diversas categorias – inclusive os concorrentes diretos ao longa de Kleber Mendonça Filho. E um dos principais destaques na categoria de Melhor Filme Internacional é o filme ‘A Voz de Hind Rajab’, indicado da Tunísia ao prêmio e que está atualmente em cartaz nos cinemas brasileiros.

O Crescente Vermelho é uma organização real, não governamental, que visa fazer a ponte entre quem precisa de ajuda e quem pede a ajuda em um dos lugares mais perigosos do planeta: a Faixa de Gaza. Do escritório, eles recebem ligações do mundo inteiro de pessoas com informações de outras pessoas em perigo ou precisando de ajuda na região, e os funcionários triangulam essas informações com a ambulância mais perto disponível, solicitando, ao mesmo tempo, apoio de logística e segurança aos responsáveis por esses setores para garantir que a ambulância vá e volte em segurança, numa espécie de trégua temporária em prol do socorro. É nesse contexto que Omar (Motaz Malhees) recebe uma ligação que muda o seu dia: o telefonema de um tio, lá da Alemanha, preocupado com sua família que estava atravessando a região e houve um bombardeio. Quando Omar telefona de volta, a surpresa: apenas a pequena Hind, de seis anos, sobrevivera ao ataque, e a criança está assustada, pedindo por socorro. Começa aí uma corrida contra o tempo para salvar Hind antes que um novo ataque ocorra.

Contando assim parece até história batida, mas o grande diferencial de ‘A Voz de Hind Rajab’ é o seu formato: o longa mistura realidade e ficção numa estética documental de maneira única, o que permite (e engaja) imediatamente o espectador na realidade que está sendo contada no filme. É, no mínimo, o filme mais diferentão dentre os indicados.

Escrito e dirigido com muita sensibilidade por Kaouther Ben Hania, o filme é um soco no estômago pois demonstra, de forma muito agoniante, a engrenagem burocrática e política que impedem, com frequência, que a humanidade prevaleça nos seres humanos e, principalmente, naquela região. Nem mesmo a aflição de uma menininha de seis anos, que nada tem a ver com o conflito, é capaz de sensibilizar as barreiras criadas por décadas de disputa.

O brilhantismo de ‘A Voz de Hind Rajab’ é que a diretora, de maneira ousada, mescla imagens de ficção (toda a parte do atendimento telefônico é encenada, partindo dos relatos dos envolvidos) com o áudio original das ligações, gravadas pela equipe de atendimento do Crescente Vermelho. Assim, meio que de repente o filme deixa de ser ficção e a gente entra na cruel realidade do diálogo entre uma criança e um atendente, e sua impotência em conseguir salvar essa menina em tempo hábil. Por vezes a ficção se sobrepõe ao documental, mesclando tudo de maneira híbrida e única, fazendo uso da ficção para convidar o espectador a mergulhar no devastador dilema que o longa apresenta.

- Advertisement -

Visceral, impactante e, infelizmente, real, ‘A Voz de Hind Rajab’ vai dilacerar o seu coração, e merece todo o destaque que está recebendo, independente de premiações. É um filme único que precisa ser visto.

SE INSCREVER

NOTÍCIAS

Janda Montenegro
Janda Montenegrohttps://cinepop.com.br
Janda Montenegro é doutora-pesquisadora em Literatura Brasileira no Programa de Pós-Graduação em Letras da UFRJ com ênfase nas literaturas preta e indígenas de autoria brasileira contemporâneas. De origem peruana amazônica, Janda é uma palavra em tupi que significa “voar”. Desde 2018 trabalha como crítica de cinema nos portais CinePOP e Cabine Secreta. É curadora, repórter cultural, assistente de direção e roteirista. Co-proprietária da produtora Cabine Secreta e autora dos romances Antes do 174 (2010), O Incrível Mundo do Senhor da Chuva (2011); Por enquanto, adeus (2013); A Love Tale (2014); Três Dias Para Sempre (2015); Um Coração para o Homem de Lata (2016); Aconteceu Naquele Natal (2018,). O Último Adeus (2023). Cinéfila desde pequena, escreve seus textos sem usar chat GPT e já entrevistou centenas de artistas, dentre os quais Xuxa, Viola Davis, Willem Dafoe, Luca Guadanigno e Dakota Johnson.