Crítica | ‘Alerta Apocalipse’ falha ao se levar a sério demais, mesmo com uma premissa interessante

Os últimos anos foram marcados por uma retomada de histórias apocalípticas e pós-apocalípticas no cenário do entretenimento – com destaque a títulos como ‘The Last of Us’ e ‘Fallout’, que se tornaram queridinhos do público e da crítica. Em 2026, o circuito cinematográfico abre com diversas produções aguardadas que variam do suspense ao drama, da comédia à ação; e, em meio a vários lançamentos que dominam o cenário mainstream, o interessante e ambicioso terror cômico Alerta Apocalipse chega sem muito alarde aos cinemas nacionais, tendo estreado oficialmente hoje, 29 de janeiro.

O filme se inicia com uma breve sequência que nos introduz ao principal antagonista da narrativa: um fungo parasita e extremamente perigoso que, de alguma forma, escapou uma cápsula de contenção militar-espacial numa pequena cidade – consumindo todos os indivíduos que lá moravam a ponto de transformá-los em meras carcaças hospedeiras. É aqui que somos apresentados a Robert Quinn (Liam Neeson) e a Trini Romano (Lesley Manville), dois especialistas que desejam conter o fungo, principalmente após testemunharem a trágica e traumática morte de uma epidemiologista que entra em contato com o organismo. Enterrando-o em uma base militar durante quase duas décadas, o que a dupla não imaginava é que, de alguma maneira, o mortal parasita encontraria uma maneira de escapar.

Esquecida dos olhos humanos e até mesmo do conhecimento militar, a base desativada foi transformada em uma instalação de autoarmazenamento 24h onde trabalham o jovem Travis “Teacake” Meacham (Joe Keery) e a recém-contratada Naomi Williams (Georgina Campbell). Em uma fatídica noite, os dois cruzam caminho com um aparato escondido nas paredes do estabelecimento, navegando pelos corredores selados e pelos esconderijos subterrâneos até se depararem com o fungo – que, outrora congelado, foi libertado com o aumento da temperatura e, agora, não parará por nada até infectar a tudo e a todos, dando início a um reino de destruição que chama de volta tanto Robert quanto Trini à ação.

O filme é dirigido por Jonny Campbell, que, apesar de não ter uma carreira tão prolífica, já se envolveu em produções de terror, suspense e ficção científica através de títulos como ‘Doctor Who’, ‘Westworld’ e ‘Drácula’. Veterano das atmosferas sombrias e arrepiantes que colocam o ser humano frente a forças inimagináveis e incontroláveis, o diretor tenta unir comédia, ação e horror em um mesmo espectro e, ainda que nos entregue dois atos sólidos, não sabe em que direção seguir e se apoia em uma profusão estilística que, eventualmente, se leva a sério demais e se esquece de jocosidade necessária para narrativas desse tipo.

Campbell fornece uma certa elegância desatinada à história, construindo um cosmos latente que, pouco a pouco, ganha vida em um caos generalizado e que coloca os dois protagonistas em rota de colisão com a própria sobrevivência. Jogos de câmera e elipses temporais acompanham o jornada dos personagens de maneira interessante e envolvente, mas, à medida que nos aproximamos do ato de encerramento, as obviedades e as ocasionalidades tomam forma definitiva e, assim como o fungo que se esconde nas sombras, se proliferam de maneira incansável até nos frustrar em um comodismo criativo que sequer deveria ter espaço no projeto.

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O cineasta se alia ao conhecido roteirista David Koepp, responsável por títulos como ‘Jurassic Park’, ‘Guerra dos Mundos’ e ‘Missão: Impossível’ – todos nos conquistando através de diálogos rápidos e inebriantes que auxiliam não apenas na complexidade das personas apresentadas, mas no dinamismo do longa-metragem. Em Alerta Apocalipse, Koepp repete o feito, ao menos na primeira metade, deixando que Teacake e Naomi nos guiem através de suas personalidades contraditórias e, ao mesmo tempo, complementares – abrindo espaço para dramas e assuntos inacabados que explicam suas consecutivas ações para conter o fungo. O problema é que, em dado momento, a trama começa a se levar a sério demais e tenta encontrar metáforas onde não existem e uma profundidade que, de fato, não tem cabimento dentro de um filme desse calibre.

COLD STORAGE, StudioCanal 2023

Felizmente, os múltiplos deslizes encontram uma barreira sólida que emerge com o trabalho impecável de Joe Keery e Georgina Campbell. É claro que os personagens desfrutam da maior parte de suas cenas em conjunto, nutrindo de uma química espetacular que irrompe das telonas e que nos guia por essa descompensada aventura – cruzando caminho com coadjuvantes que, como bem sabemos, são dispensáveis o suficiente para reiterar o poder destrutivo do fungo. Neeson e Manville, trazendo uma carga veterana à atmosfera, nos encantam com um carisma indelével e que, infelizmente, não encontra justiça frente a um desenrolar frustrante e que poderia ter sido mais bem estruturado.

A interessante premissa e o talento nato de um elenco estelar não são o bastante para impedir que Alerta Apocalipse se renda tanto às fórmulas do gênero que esquadrinha quanto à falta de despretensão – acertando o tom para nos introduzir a esse microcosmos restrito, emulativo e jocoso, mas descarrilando em uma sucessão de amadorismos que, no final das contas, nos deixa mais decepcionados do que satisfeitos.

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Thiago Nolla
Thiago Nolla
Em contato com as artes em geral desde muito cedo, Thiago Nolla é jornalista, escritor e drag queen nas horas vagas. Trabalha com cultura pop desde 2015 e é uma enciclopédia ambulante sobre divas pop (principalmente sobre suas musas, Lady Gaga e Beyoncé). Ele também é apaixonado por vinho, literatura e jogar conversa fora.