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Crítica | ‘Alien: Earth’ é uma das MELHORES entradas da icônica franquia sci-fi


O texto abaixo aborda os dois primeiros episódios da série. Cuidado com alguns spoilers.

Em 1979, Ridley Scott fazia história no cenário cinematográfico com o lançamento de Alien, o 8º Passageiro’. O longa-metragem, responsável por popularizar a união entre ficção científica e terror, nos convidou a uma viagem mortal e sangrenta pelo espaço sideral, acompanhando uma tripulação a bordo de uma nave que se tornou alvo de uma perigosa criatura conhecida como xenomorfo. A partir daí, o filme transformou-se em um dos mais influentes do gênero, garantindo uma franquia em constante expansão e que já trouxe nomes como James Cameron e Fede Alvarez assumindo as rédeas de capítulos aclamados pela crítica e pelo público.

Após o sucesso de Alien: Romulus’, a incursão cinematográfica mais recente da saga, Noah Hawley resolveu investir esforços em uma série derivada ambientada antes dos eventos do filme original. O realizador, conhecido por seu trabalho em produções como ‘Fargo’ e ‘Legion’, nos convidou para um futuro distante ambientado no ano de 2120 através de Alien: Earth’ – que trouxe os mercenários e perigosos alienígenas ao nosso planeta em um misto de drama distópico, ação, terror e suspense. Com o lançamento dos dois primeiros capítulos no catálogo do Disney+, o resultado não poderia ser diferente: Hawley, aliando-se a um time técnico, criativo e performático de altíssimo calibre, mostra que esse cosmos ainda tem muitas histórias a serem contadas – e da melhor maneira possível.



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Como bem sabemos, o criador e showrunner é apaixonado por colocar múltiplas referências interculturais em suas produções, e isso não seria diferente aqui. Logo de cara, somos introduzidos a Wendy (Sydney Chandler), a primeira forma de vida híbrida da história – isto é, um humano que teve sua consciência transferida para um corpo sintético. Anteriormente conhecida como Marcy, Wendy é parte de um experimento comandado por Boy Kavalier (Samuel Blenkin), CEO da Prodigy Corporation o trilionário mais jovem do mundo, que utilizou sua imensurável fortuna para inovações tecnológicas que escolhiam crianças com doenças terminais transformadas em espécies de supersoldados que nunca envelheceriam e a que seriam atribuídas habilidades incomparáveis.

Em outro espectro, a tripulação a bordo da USS Maginot retorna para a Terra com inúmeras amostras de vidas extraterrestres para serem estudadas – sem imaginar que uma delas se transformaria em uma criatura sedenta por sangue e impiedosa, caçando um a um até a nave se chocar com o planeta com um único sobrevivente, o engenhoso ciborgue Morrow (Babou Ceesay), que, de maneira indireta, sacrificou seus companheiros para se salvar. A partir daí, dois universos diferentes se chocam em uma luta pela sobrevivência que presta incontáveis homenagens às iterações predecessoras.

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Hawley empresta suas habilidades como diretor do primeiro capítulo e roteirista dessa dupla de episódios que chegou recentemente à plataforma de streaming – e, como já mencionado, constrói um ponto de convergência entre inúmeros estilos narrativos que ampliam um dos universos mais populares e adorados da cultura pop. E, acompanhando a conhecida identidade do realizador, as diversas inflexões são pinceladas com inteligentes críticas sociais e políticas mascaradas por um escopo quase epopeico – seja nas investidas acerca do capitalismo predatório ou da desmedida ambição humana (algo que, inclusive, foi retratado ao longo da franquia com durabilidade significativa).

O teor mais dramático e intimista pode ser um tanto quanto dissonante para os fãs inveterados das investidas de terror e suspense imortalizadas pelas iterações anteriores – mas isso não tira o brilho da produção. Pelo contrário, Hawley percebe que tem espaço de sobra para que cada trama e cada personagem seja tratado com a profundidade merecida, desde a derradeira relação entre Wendy e seu irmão Joe (Alex Lawther), um paramédico da Força de Segurança da Prodigy que acredita que a irmã está morta sem se dar conta de que sua versão híbrida o está protegendo a todo custo; passando pela mentalidade neoimperialista de Boy Kavalier, que enxerga a espaçonave que caiu em seu território como mais uma possibilidade de lucro e de reafirmar seu poder irrefreável; e culminando na inesperada releitura do clássico ‘Peter Pan’ que se desenrola minuto a minuto.

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A série não é livre de erros, visto os problemas de ritmo que aparecem aqui e ali em determinadas sequências, além da quantidade exagerada de personagens que provam ser descartáveis. Entretanto, o comprometimento do elenco, com destaque à performance encantadora e recheada de nuances promovida por Chandler, é forte o suficiente para ofuscar os obstáculos enfrentados e deixa claro que, episódio a episódio, a luta pela sobrevivência ficará mais acirrada – transformando Alien: Earth’ não apenas em um dos títulos mais ambiciosos do ano, como uma das melhores entradas da franquia sci-fi.

Thiago Nolla
Em contato com as artes em geral desde muito cedo, Thiago Nolla é jornalista, escritor e drag queen nas horas vagas. Trabalha com cultura pop desde 2015 e é uma enciclopédia ambulante sobre divas pop (principalmente sobre suas musas, Lady Gaga e Beyoncé). Ele também é apaixonado por vinho, literatura e jogar conversa fora.
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