O ano era 2000. O início de um novo milênio começava, após todos terem sobrevivido ao bug do milênio (e suas especulações). Enquanto a internet começava a tomar conta do mundo e o mundo começava a se globalizar, um filme de um desconhecido diretor mexicano estreou nos cinemas. Tratava-se de ‘Amores Brutos’, longa que assombrou espectadores ao redor do globo dada a sua potência narrativa, sua história crua e um ator de beleza angelical que surgia para todos naquele momento. Agora, celebrando vinte e cinco anos de seu lançamento, ‘Amores Brutos’ volta em cartaz em versão remasterizada aos cinemas, após exibição prévia no Festival do Rio.

Octavio (Gael García Bernal, um jovem de vinte e poucos à época) tem um cachorro e o usa em lutas clandestinas com outros cachorros no submundo da Cidade do México. Certo dia, seu cão mata o cachorro de um perigoso traficante da região, que jura vingança. Num misto de deboche e medo, Octavio segue participando das lutas enquanto paralelamente planeja fugir com Susana (Vanessa Bauche), a esposa de seu irmão. Em outra história, Daniel (Álvaro Guerrero), um empresário casado decide largar a esposa para viver com Valeria (Goya Toledo), uma supermodelo no auge da carreira. Por fim, temo Chivo (Emilio Echevarría), um homem em situação de rua que na verdade é um ex-matador de aluguel que é contratado, uma última vez, para eliminar um rico empresário.
Um dos aspectos mais interessantes de ‘Amores Brutos’ é, sem dúvidas, o roteiro. Escrito por Guillermo Arriaga (que mais tarde faria fama com ’21 Gramas’, ‘Babel’ e outros), o roteiro trazia um formato um tanto quanto inovador para as telonas da época, pois apresentava três histórias em paralelo, que nada tinham a ver entre si, para entrecruzá-las em um grande evento – uma batida de carro – para a partir daí destrinchar as consequências nas vidas dos personagens. A questão é que até a colisão acontecer, o espectador já está totalmente envolvido com o drama daquelas pessoas, de modo que quando há a batida, é impossível não se impactar com o evento, ainda mais sabendo que ele se conectará com os outros núcleos eventualmente. Essa técnica, um tanto quanto já naturalizada nos dias de hoje, para o início dos anos 2000 foi bastante chocante para o público geral, o que permitiu com que o nome de Arriaga figurasse em muitas premiações e grandes produções depois disso.

Também a genialidade de Alejandro G. Iñárritu aflorava à essa época. O diretor, que mais tarde ganharia o Oscar por ‘Birdman’ e ‘O Regresso’, já ali mostrava como via o mundo: brutal, sangrento, violento, em contraste com uma beleza oriunda dos seres comuns, do cotidiano. As cenas de rinha de cachorro (totalmente condenáveis hoje, e também na época, mas ninguém defendia os direitos dos animais em produções como hoje) são extremamente fortes, e feitas assim para aterrorizar o espectador, mostrar que aquele submundo é doentio, daí a urgente necessidade de Octavio de escapar dele. De igual intensidade a cena de perseguição de carro, com a câmera colocada do lado de fora, criou uma sensação de imersão pouco vivida naqueles anos 2000. Iñárritu mostrava assim que chegada ao cinema mundial com uma assinatura própria, mantida até hoje.
Gael García Bernal mostrava seu rostinho de traços angelicais ao público mundial pela primeira vez nesse ‘Amores Brutos’ – e a gente imediatamente se apaixonou. Mais do que isso, aquele rosto jovem, de olhos claros, em contraste com um submundo tão avassalador era exatamente o equilíbrio que Iñárritu e o filme precisavam, e, mesmo com apenas vinte e cinco anos na época, Gael entregou tudo que o longa precisava dele.
‘Amores Brutos’ continua um dos melhores roteiros já escritos e um dos filmes mais crus já realizados, retratando uma América Latina para além de estereótipos da época e mostrando que aqui também se faz cinema.

