Década de 1970. Enquanto o mundo vivia os ecos do Woodstock e a efervescência das discotecas com suas bocas de sino, o Brasil encarava o pior dos anos de chumbo, uma inflação alta e a ascensão do Tropicalismo e do rock nacional. Se no fim da década anterior centenas de mulheres haviam saído às ruas para queimar sutiãs pedindo por mais liberdade, nos anos 70 já era mais ok uma mulher usar calças. Neste cenário, desponta nas colunas sociais dos folhetins nacionais uma personagem, Ângela Diniz – jovem, bonita, rica, mãe, de família abastada, casada com um homem rico, oriunda de Minas Gerais e com apenas uma ideia fixa na cabeça: ser livre. Acontece que o país, a sociedade, não estavam preparados para ela, e da mesma forma como surgiu nas páginas dos jornais tal qual um meteoro de frescor juvenil, na mesma velocidade teve sua luz apagada por um crime brutal, até hoje lembrado pelas cidades em que passou e pelo judiciário nacional. É a história dessa mulher que queria o direito de viver que é contada em ‘Ângela Diniz: Assassinada e Condenada’, minissérie ficcional disponível na HBO Max e que teve exibição prévia no Festival do Rio esse ano.

Ângela (Marjorie Estiano) é uma mãe apaixonada pela filha, Mariana (Maria Volpe). E também é apaixonada pela vida, pela própria liberdade, por isso está decidida a se separar do marido, Milton (Thelmo Fernandes) e ir morar no Rio de Janeiro com a guarda da filha. Acontece que a sociedade e a justiça da época não permitiam que mulheres sem marido vivessem tranquilamente, que dirá cuidando de uma criança. Por isso, Ângela trava uma incrível batalha moral sem fim: por um lado, por estar solteira, queria e se via no direito de aproveitar a vida como bem entendesse, sem dar satisfações a ninguém; por outro, sentia a pressão de se encaixar nos moldes da mulher-mãe-padrão para, assim, poder ficar com a própria filha. Entre festas, drinks e experimentações, Ângela acaba conhecendo Doca Street (Emilio Dantas), que mais tarde viria a ser seu algoz, ceifando a vida da socialite.
‘Ângela Diniz: Assassinada e Condenada’ tem grande valor de produção, observado em todos os departamentos. O figurino dedicado, que produz desde os biquinis mais singelos aos vestidos sensuais usados pela protagonista dialogam com a caracterização do elenco, atento ao que estava em vigor naquela década. É de encher os olhos as locações escolhidas (mansões de arquitetura refinada, apartamentos amplos, fachadas deslumbrantes), o desfile de carros de época, a quantidade de figurantes, o elenco contratado.

Marjorie Estiano está excelente no papel – mas isso não é exatamente uma surpresa, já que é uma das melhores atrizes do país. Mesmo não sumindo nas características estéticas da biografada, Marjorie entrega vigor e personalidade à sua maneira, conquistando o espectador mesmo nas cenas mais fúteis da personagem. Vê-la é hipnotizante.
Dividida em seis episódios de aproximadamente cinquenta minutos cada, o roteiro de Pedro Perazzo, Elena Soarez e Thais Tavares começa com o julgamento de Doca, entregando o “final” da história – demostrando, logo de início, que o objetivo da produção é chegar neste ponto, propondo quem efetivamente deveria ser julgado pelos acontecimentos: o assassino, não a vítima. Entretanto, a recorrência com que os episódios intercalam momentos do tribunal não só antecipam as cenas (quando o julgamento acontece, parte das melhores falas nós já assistimos antes) como quebram o ritmo da trama, uma vez que a vida da biografada é superintensa, mas os episódios começam com o tribunal.
Dirigida por Andrucha Waddington e produzida pela Conspiração, ‘Ângela Diniz: Assassinada e Condenada’ traça um diálogo entre o crime ocorrido em 1976 e o hoje, quando apenas recentemente a justificativa de matar uma mulher para salvaguardar a própria honra foi abolida da justiça, mostrando o quão pouco avançamos na proteção das mulheres e quão enraizado é o machismo estrutural da sociedade brasileira. Ângela Diniz morreu por ser mulher, e hoje já podemos dar um nome a esse crime: feminicídio.



