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Crítica | ‘Animais Perigosos’ subverte as fórmulas em um eficiente thriller de sobrevivência


Os mistérios e os perigos que se escondem no oceano sempre foram alvo de estudo e inspiração na sétima arte – e inúmeros realizadores já se aventuraram pelos sete mares, tendo como objeto principal de foco os amedrontadores tubarões. Steven Spielberg, por exemplo, eternizou o terror ‘Tubarão’ como o primeiro blockbuster do cinema cinco décadas atrás, enquanto Jaume Collet-Serra apostou fichas nas incursões dos thrillers de sobrevivência com o ótimo ‘Águas Rasas’. Agora, chegou a vez do diretor Sean Byrne nos convidar a navegar pelas obscuras águas da costa australiana com o suspense Animais Perigosos, que chega aos cinemas nacionais amanhã, 18 de setembro.

O longa parte de uma premissa bastante simples e que, em sua completude, cumpre com o que nos é prometido: Tucker (Jai Courtney) administra um negócio popular e bem-sucedido que atrai turistas ao redor do mundo para mergulhar com tubarões em uma experiência única e transformadora, colocando seus clientes frente a frente com um dos animais mais incompreendidos da natureza – como ele mesmo afirma. Porém, ele esconde um segredo terrível: por trás da charmosa e aprazível fachada, Tucker é um impiedoso assassino em série que sequestra mulheres para servirem de “atração principal” de um show banhado a sangue e a carnificina. Munido de uma câmera amadora, ele grava suas vítimas serem dilaceradas por essas feras marinhas e utiliza seu conhecimento sobre eles para garantir que nunca seja pego.



Uma dessas vítimas é a jovem Zephyr (Hassie Harrison), uma jovem andarilha que vive em sua van e que é apaixonada por surfe. Após passar a noite com um agente imobiliário chamado Moses (Josh Heuston), Zephyr cruza caminho com Tucker e é capturada e levada até o barco de seu algoz. Lá, ela conhece Heather (Ella Newton), uma outra prisioneira do serial killer, e percebe que tem poucas chances de sair com vida de lá quando ele a força a assistir Heather ser brutalmente assassinada pelos vorazes predadores que rodeiam a embarcação. Determinada a fugir, ela usa seus instintos para mostrar que não irá se render aos sádicos caprichos de Tucker e que fará de tudo para garantir que ela tenha o que mereça.

Um dos aspectos que mais nos chama a atenção é a maneira como o embate entre o homem e a natureza promovido pelo filme subverte os tropos conhecidos de “bem e mal” e coloca o próprio ser humano como força-motriz de uma disputa que, na verdade, não existe. Byrne não é nenhum estranho ao gênero e, desde sua estreia diretorial com o ótimo ‘Entes Queridos’, mostrou ter uma paixão inenarrável por abraçar as fórmulas do terror e de suas ramificações para remodelá-las em enredos originais e inesperados. E, enquanto Animais Perigosos não chega ao altíssimo nível de qualidade de seu début ou até mesmo de ‘The Devil’s Candy’, ainda assim é um eficiente e aprazível thriller que nos fisga desde a cena de abertura.

É interessante ver como a figura do tubarão se transforma em um “bode expiatória”, em um emblema da condição humana em seu nível mais puro de sadismo e de barbárie. Claro, Tucker tem um passado traumático com esses imponentes animais, mas usa isso como justificativa para fazer o que faz, chegando a se comparar com a força dessas criaturas marinhas – até ser “colocado no devido lugar” por Zephyr em uma troca ácida de farpas que já prenuncia o fim da narrativa. E essa egolatria desmedida é encarnada com maestria por um fabuloso trabalho de Courtney como o mortal antagonista, transmutando-se em um medonho psicopata sedento por sangue e gritos.

O restante do elenco apresenta atuações tão boas quanto a de Courtney, com óbvio destaque a Harrison como a implacável Zephyr, uma lutadora por natureza que, mesmo nas situações mais adversas, recusa a se render – algo que é notável em várias final girls de filmes slasher; e a Newton, que apesar de não ter muito tempo de tela, é peça essencial para dar o tom da narrativa. Heuston tem seus momentos de glória e nos chama a atenção por não se configurar como o típico par romântico da protagonista, afastando-se dos estereótipos que poderíamos imaginar encontrar aqui.

O filme não é livre de erros e, conforme Byrne faz questão de construir um espetáculo visual – que inclui escolhas nostálgicas e clássicas dos ícones do gênero dos anos 1980 e 1990, como a tétrica trilha sonora de Michael Yezerski ou a burlesca e inquietante fotografia de Shelle Farthing-Dawe, se esquece em alguns momentos de polir os excessos narrativos. O roteiro de Nick Lepard parte de fórmulas previsíveis, mas que se configuram uma praticidade robusta, manchadas por certos diálogos inadvertidamente engraçados e one-liners preciosistas demais para serem levados a sério, além de uma predileção pelo excesso que torna o escopo um tanto quanto impalpável.

De qualquer maneira, o resultado de Animais Perigosos é mais do que satisfatório e se vale principalmente da falsa sensação convidativa que promove aos espectadores e do trabalho dos atores envolvidos – sagrando-o como um competente e esforçado thriller de sobrevivência que cumpre com os requisitos básicos de outros projetos similares.

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Thiago Nolla
Em contato com as artes em geral desde muito cedo, Thiago Nolla é jornalista, escritor e drag queen nas horas vagas. Trabalha com cultura pop desde 2015 e é uma enciclopédia ambulante sobre divas pop (principalmente sobre suas musas, Lady Gaga e Beyoncé). Ele também é apaixonado por vinho, literatura e jogar conversa fora.
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