Crítica | Aniquilação – Ficção científica raiz de explodir mentes

Crítica | Aniquilação – Ficção científica raiz de explodir mentes

Nota:

O Cerne da Ficção Científica - Ame ou Odeie

O grande público ficou acostumado a um certo tipo de filme que se passa por ficção científica. As verdadeiras obras do gênero existem para questionar, para criar infinitas possibilidades através da fantasia, e perguntar como determinada situação correria caso estivéssemos defrontados por ela. De visitas de seres espaciais, passando por estadias no futuro (que servem mais para espelhar a atualidade), chegando até as mais altas tecnologias, a ficção científica foi criada como gênero inquisidor no qual respostas fáceis se encontram ausentes.

Obviamente, até mesmo a ficção precisou ser moldada para acomodar o público cada vez mais preguiçoso e ávido por tudo mastigado. Assim, a ficção precisou ser incorporada a outros gêneros, como a ação, o suspense e o terror.

Ainda é possível encontrar bons exemplares do gênero verdadeiro da ficção, como Lunar (2009) e Sob a Pele (2014), por exemplo, filmes definitivamente não palatáveis a todo tipo de audiência. Pelo contrário, a maioria irá torcer o nariz quando encontrar uma ficção científica verdadeira, esperando aquela explosão ou cena de ação vindo acompanhada.




Este é exatamente o caso com Aniquilação, novo filme do diretor Alex Garland, o qual a Paramount prontamente vendeu para a Netflix, acreditando ter em mãos mais um Cloverfield Paradox. Este é o segundo filme do gênero que o estúdio se desfaz em cima da hora, indo parar nas mãos da plataforma de streaming mais popular da atualidade.

Para quem não conhecia, Aniquilação é simplesmente um dos filmes mais aguardados deste ano. Tudo porque seu diretor, Alex Garland, entregou em 2015 uma das obras do gênero mais cultuadas dos últimos tempos, Ex-Machina: Instinto Artificial. O longa se tornou um enorme sucesso, transcendendo o universo cult para o qual foi confeccionado, e fez de Garland um daqueles diretores que começaremos a prestar atenção a cada novo trabalho.

Com Aniquilação, Garland entrega um filme ainda mais denso e enigmático do que sua primeira incursão nas telonas. E se o universo da robótica e da inteligência artificial eram o alvo de sua obra existencialista, uma visita interplanetária como nenhuma outra toma o palco em seu segundo longa.

Na trama, Natalie Portman vive uma cientista trabalhando como professora universitária desde que seu marido militar sumiu há um ano em missão. Ele é interpretado por Oscar Isaac, ator fetiche de Garland. Portman então, assim como Amy Adams em A Chegada (2016), logo é aproximada por uma equipe do governo para que faça parte de seu time. A missão? Ir aonde nenhum homem jamais foi. Bem, sem querer parafrasear o clássico de Gene Roddenberry, é exatamente este o objetivo apresentado a ela pela líder desta expedição, a personagem de Jennifer Jason Leigh. A chefe passa as informações e conta sobre um objeto alienígena que caiu na Terra e aos poucos foi afetando a atmosfera de uma localidade específica (uma espécie de floresta), criando uma verdadeira redoma e dentro seu próprio habitat. Dentro desta espécie de campo de força, diversas equipes de militares, incluindo uma com o personagem de Isaac, adentraram e desapareceram. Desta vez, estão enviando somente cientistas, todas mulheres, o que faz de Aniquilação uma ficção científica feminista.

Além de Portman e Jason Leigh, fazem parte da equipe as cientistas interpretadas por Tessa Thompson, Gina Rodriguez e Tuva Novotny – todas donas de suas próprias personalidades distintas e bem desenhadas. Uma vez no local, o time precisa lidar com perigos de todos os tipos, desde alucinações, perda de memória, lapsos temporais – ei, estamos falando de uma nova atmosfera, alienígena. Além disso, a fauna e a flora local também evoluíram para algo mais ao que estamos acostumados, assim temos criaturas levemente semelhantes às de nosso planeta, vide crocodilos e ursos, porém, mais perigosos ainda e garantidos de dar pesadelos.

Assim como em A Chegada, Aniquilação vai e volta no tempo, e aqui seguimos, não em duas, mas três linhas temporais narrativas. O presente, com Portman sendo interrogada sobre o que de fato ocorreu dentro de tal redoma, conhecida como “Área X”, ou “The Shimmer”, algo como “o brilho”; os trechos com Portman e a equipe dentro do local, tentando sobreviver à toda insanidade – aonde se desenrola a maior parte do filme – e ainda um flashback maior, com Portman lidando com as lembranças e falta do marido.

Aniquilação é baseado no livro de Jeff VanderMeer, e tem propostas interessantes o suficiente para fascinar os verdadeiros amantes da ficção científica. Porém, fique avisado, este não é um filme de ação, não é uma superprodução da qual o grande público está acostumado. É uma obra de conceitos e ideias, de um ritmo deliberadamente lento, que irá desafiar ainda mais o espectador do que Ex-Machina. Um filme lisérgico e poético, cujas cenas podem extrair um amontoado de significados implícitos, mesmo as que mais parecem não querer dizer nada.

Aniquilação ainda reserva cenas pra lá de perturbadoras, como o ataque da criatura urso e o desfecho apoteótico e saído diretamente dos lugares mais obscuros de nossas mentes. Sim, Aniquilação entrará para o hall das grandes ficções científicas de todos os tempos, das quais temos 2001 – Uma Odisseia no Espaço (1968), Alien (1979) e Blade Runner (1982) como primórdios irretocáveis, e ricos descendentes como Lunar (2009), Sob a Pele (2013), A Chegada (2016) e o próprio Ex-Machina (2015), cimentando Garland como uma voz de grande diferencial no segmento.

Mais uma vez, para apreciar Aniquilação por completo é necessário ter a mente bem aberta, preparado para receber de braços abertos as demências oferecidas na loucura do argumento – afinal, o que pode ser mais insano do que o bebê espacial de 2001, ou a viscosa criatura negra de Sob a Pele.





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