Crítica | Antártida – Solidão, Confinamento e Violência Marcam Superprodução dos Estúdios Globo com Grande Elenco

Dois lugares são considerados os mais perigosos e os mais inóspitos do planeta: o Antártica e o Ártico. O Polo Sul e o Polo Norte. Lugares onde tudo é mais difícil de chegar, onde há poucos vegetais e plantas, a vida animal é quase toda restrita à vida marinha e onde a vastidão branca se impõe aos poucos seres humanos que se aventuram por essas bandas. Mesmo assim, há aqueles que vão, e que moram por lá – aldeias indígenas, pesquisadores, oficiais da Marinha, fotógrafos, cientistas. É assim que começa o suspenseAntártida’, superprodução dos Estúdios Globos que chega aos cinemas a partir do próximo dia 17.

Um navio acaba de chegar na estação brasileira da Antártida. Nela, chegam o capitão Vicente (Lázaro Ramos), que veio atrás da esposa, Marina (Leandra Leal) e a jovem cientista Inês (Marina Ruy Barbosa), cheia de inocência e expectativas com relação a base. Na primeira noite, todos decidem beber e celebrar a chegada dos novatos, porém, a bebedeira vai um pouco além e Inês acaba caindo desacordada na neve. Justamente por isso, um homem da equipe decide se aproveitar dela, violentando-a. Diante da gravidade do ocorrido, a subcomandante Elisabeth (Andrea Beltrão) se encontrará numa difícil situação: interrogar e desconfiar de todos da sua equipe (e, assim, defender a justiça e a integridade da jovem) ou obedecer a hierarquia, deixando tudo nas mãos do comandante Barros (Antonio Calloni), que, debilitado, esconde a verdade sobre sua saúde.

Sem dúvidas, ‘Antártida’ é uma grande produção, com orçamento robusto que permitiu não só construir todo o cenário que vemos (filmado nos Estúdios Globo, e não na verdadeira Antártida), como também um elenco de peso para falar de um assunto de suma importância: a violência contra a mulher.

Mas se por um lado temos uma construção técnica bastante dedicada (em efeitos especiais, cenografia, arte, etc), por outro é no roteiro que encontramos a principal dificuldade. Mesmo abordando um tema sério e de suma relevância, são muitos os personagens e os backgrounds a serem desenvolvidos para construir a ambientação do suspense-padrão que tanto fez sucesso nas histórias de Agatha Christie – um lugar confinado onde um crime ocorre e todos são suspeitos, e uma única autoridade investiga e interroga os suspeitos, que voluntariamente contam suas versões até que se descubra o culpado junto com o leitor/espectador.

Com nove personagens e seus respectivos traumas de background para desenvolver e defender a escolha voluntária que os coloca morando num dos confins do mundo, e com apenas uma hora e meia de duração, ficou faltando mais tempo para trabalhar os plot twists e toda a construção do suspense recaindo sobre cada um. Tanto material talvez pudesse ter sido melhor desenvolvido num formato seriado, que possibilitasse que o espectador se envolvesse com os dramas sofridos pelos personagens e que esses mesmos dramas fossem apresentados no enredo com cuidado, com tempo. No filme, as informações são todas comunicadas, e com certa pressa, e isso acaba desviando o nosso envolvimento com o enredo e com sua pauta principal.

Num cenário desolador e de carência de afetos, os trabalhos de Antonio Calloni e de Andrea Beltrão se destacam por equilibrarem melhor as emoções de seus personagens. E este cenário se junta aos protagonistas como personagem principal que se impõe sobre a pequenez humana e os leva ao limite; nessas condições, surge o crime que, no final das contas, é o tema principal do longa e nos faz refletir sobre a recorrência de se pensar os corpos femininos como objetos disponíveis. Por dar visibilidade ao tema, e por fazê-lo através de nomes tão conhecidos do grande público, ‘Antártida’ cumpre um importante papel de intermediador e provocador de reflexão ao grande público, seja agora nos cinemas, seja posteriormente, quando for para a Globoplay.

Um thriller instigante, maior do que parece.

Notícias

‘Cara-de-Barro’: Terror que se passa no Universo DC ganha um belo cartaz

'Cara-de-Barro' teve um belo novo cartaz divulgado pelo James...

Omar Sy enfrenta imitador no trailer da 4ª temporada de ‘Lupin’; Confira!

A Netflix divulgou o trailer completo da 4ª temporada de...
Janda Montenegro
Janda Montenegrohttps://cinepop.com.br
Janda Montenegro é doutora-pesquisadora em Literatura Brasileira no Programa de Pós-Graduação em Letras da UFRJ com ênfase nas literaturas preta e indígenas de autoria brasileira contemporâneas. De origem peruana amazônica, Janda é uma palavra em tupi que significa “voar”. Desde 2018 trabalha como crítica de cinema nos portais CinePOP e Cabine Secreta. É curadora, repórter cultural, assistente de direção e roteirista. Co-proprietária da produtora Cabine Secreta e autora dos romances Antes do 174 (2010), O Incrível Mundo do Senhor da Chuva (2011); Por enquanto, adeus (2013); A Love Tale (2014); Três Dias Para Sempre (2015); Um Coração para o Homem de Lata (2016); Aconteceu Naquele Natal (2018,). O Último Adeus (2023). Cinéfila desde pequena, escreve seus textos sem usar chat GPT e já entrevistou centenas de artistas, dentre os quais Xuxa, Viola Davis, Willem Dafoe, Luca Guadanigno e Dakota Johnson.