Miley Cyrus sempre foi uma artista única e nunca teve medo de se arriscar: não é surpresa que, ao longo da sua carreira, tenha explorado o EDM com ‘Can’t Be Tamed’, o synth-pop com ‘Bangerz’, o rock com ‘Plastic Hearts’ e, mais recentemente, um vanguardismo nostálgico que navegou entre o disco, o funk e o dance ao ambicioso ‘Something Beautiful’.
E, se Cyrus tem um apreço inegável por riscos, ela sabe que quedas são inevitáveis – e que o importante é saber se levantar. Por essa razão, a já vencedora de três estatuetas do Grammy Awards sempre consegue nos encantar com eras inesperadas e incursões inéditas que a reiteram como uma das grandes camaleoas do cenário fonográfico atual. Para além de um obstinado e meticuloso olhar artístico que a permite singrar entre as várias áreas da criação artística, a cantora, compositora e multi-instrumentista sabe do lugar que merecidamente conquistou na cultura pop e tem plena ciência do controle que tem sobre sua própria carreira.
‘Something Beautiful’, o compilado mais recente de Cyrus, representa um dos momentos que dividem sua carreira. Seguindo de perto o estrondoso sucesso crítico e comercial de ‘Endless Summer Vacation’, o álbum emergiu como um projeto experimental, nos convidando a uma jornada imersiva entre a música e o cinema – que, navegando aos trancos e barrancos, mostrou ser bastante competente e arrancou algumas das canções mais bem produzidas da carreira da performer. E, diferente do que imaginávamos, a era não chegou ao fim – e Miley nos agraciou com a inédita “Secrets”, da versão deluxe do compilado, nesta sexta-feira, 19 de setembro.
A faixa funciona como colaboração entre Cyrus e os icônicos Mick Fleetwood e Lindsey Buckingham, conhecidos por integrarem a prestigiada banda de rock Fleetwood Mac – e essa união de forças já prenuncia os principais elementos da canção. Os elementos convergem para uma balada rock-pop que nos convida a uma atmosfera setentista eximiamente bem executada por nomes como Shawn Everett e Michael Pollack; a música, por sua vez, é um trabalho confessional que não apenas denota o claro amadurecimento lírico e identitário da artista, mas uma predileção por incursões que singram entre o intimismo narrativo e a explosão instrumental.
Diferente de tantas outras investidas que se tornaram marca registrada de Miley, o proposital exagero e a preferência pela maximização são deixadas de lado para uma belíssima história que, como aponta o título, fala não apenas sobre segredos, mas sobre a vulnerabilidade como uma espécie de entidade tangível. E tudo fica ainda mais pessoal quando nos recordamos de que a artista deu vida à canção como dedicatória ao pai, Billy Ray Cyrus – garantindo que as batidas certeiras de Fleetwood e as pungentes notas da guitarra de Buckingham entrem como protagonistas tanto quanto seus vocais.
